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Dançar a dois é afrodisíaco

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Para começar este artigo repleto de perigosas confissões íntimas desta autora, estabeleceremos alguns pontos de partida com o objetivo de neutralizar qualquer entendimento distorcido sobre a ideia de que dançar a dois desperta o desejo sexual.

Acredito na liberdade. Acredito que cada um pode escolher em sua vida se vai se relacionar afetivamente com uma pessoa, com duas, com várias, se vai alterná-las ao longo do tempo ou não, independente do sexo ou dos sexos dos envolvidos. Acredito que quando ninguém está sendo enganado, nenhum direito está sendo tolhido, nada insalubre praticado e haja um cuidado especial na hipótese de filhos, não há nada reprovável.

Acredito também que no salão de baile é imprescindível haver ética. É fundamental estabelecer a segurança de poder ir para pista somente para dançar, sem ter que administrar flertes ou investidas inconvenientes. Da mesma forma, quando acontece um clima pela correspondência de intuitos afetivos em pleno salão, se nada for desrespeitado, acredito que mereça ser aproveitado com sabedoria e sem desperdícios.

Estabelecidos estes pontos iniciais, vamos ao afrodisíaco da dança a dois que, nesta abordagem, parte de uma experiência íntima.

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Pois eis que decidi escrever este artigo depois de passar cerca de duas horas dançando em casa, em uma noite chuvosa, com meu marido. Dançamos valsa, tango, milonga e… soltinho, nesta ordem. Havíamos tomado um bom café classicamente italiano e veio a vontade de dançar… Não havia mais ninguém, somente nossa sala, nossas luzes e sons favoritos, nossos espelhos, nosso aquário marinho iluminado e nossos corpos mais vivos que nunca No começo era só a dança, curtição de movimento e música a dois, tudo muito à vontade e leve. Confesso, danças que amarram fisicamente parte do meu corpo e me privam do contato visual com meu par, acabam me impregnando de uma sensação de privação, mas foi um bom começo. Passando às danças que me soam como homenagem à liberdade, exigentes de uma condução que inclui troca de olhares e se confunde com conexão fluida em forma de energia, surge o potencial para me enlouquecer, no sentido mais saboroso desta palavra.

Embora já tenha vivido inúmeras vezes a experiência de dançar em casa, com meu par afetivo, desta vez percebi nitidamente que a ausência de outros componentes do salão, em especial as outras pessoas, funcionou como uma espécie de retirada de um dos controladores do meu comportamento com meu par. Talvez algo semelhante ao efeito do álcool na flexibilização da autocensura. Senti que o respeito devido ao salão de muitos pares fazia o papel justo de me censurar apropriadamente com meu par. Mas sem este controle que um salão repleto de outras pessoas traz, alguns monstros fascinantes e sedutores acabaram liberados.

A dança que me convida à liberdade, no caso o soltinho, potencializou o desprendimento da formalidade, teve um efeito curiosíssimo. Vi-me experimentando um exibicionismo surpreendentemente ético, absolutamente dedicado ao meu par, como um tributo à fidelidade. Vi-me premiada por isto colhendo o resultado nos olhos, reações e energia corporal do meu cavalheiro. O suor brilhava trazendo a sensação maravilhosa de uma chuva fresca de verão, lubrificando o toque… a expressão não podia ser contida e a dança incendiou tudo…

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Bem, não vem ao caso relatar como a experiência terminou. Mas admito que como humanidade, mereceríamos dominar este tipo de vivência que aprofunda demais os vínculos afetivos que desejamos. Não sei que casal, sabendo da existência deste poder da dança, deixaria de alimentar o que tem de melhor apimentando-se dela e construindo uma aliança de ouro, muito mais forte e brilhante do que estas que usamos nos dedos por mera formalidade…

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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