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Dança de salão e o ápice da autorrealização

A dança de salão revela-se como atividade viva em diferentes níveis ou facetas das necessidades humanas, o que é digno de estudos mais aprofundados. Mesmo nas preliminares destas especulações, descortina-se a realidade de que esta arte tem poder de contribuir não só com o suprir de necessidades, mas com a escalada humana rumo a autorrealização, objeto de estudo do referenciado psicólogo nova yorkino Abraham Harold Maslow.

No ano de 1943, Maslow publicou um trabalho científico intitulado “Motivation and Personality”, em que classificou as necessidades humanas em cinco níveis, popularizados por outros pesquisadores através de ilustrações de pirâmides ou escalas. A aceitabilidade da ideia resultou em um livro que, até hoje, é referência em diferentes áreas do conhecimento. Concebe-se que, para Maslow, os cinco níveis a serem alcançados por um ser humano correspondem a atender as necessidades: 1º básicas ou fisiológicas; 2º de segurança; 3º sociais ou de associação; 4º de status ou autoestima; 5º de autorrealização.

O autor postulou a existência de uma hierarquia, logo, quem buscasse sua autorrealização, de uma forma ou de outra, teria atendido as demais necessidades. Esta ideia de hierarquia foi criticada por autores que entendem ser viável atingir um nível elevado sem ter um mais básico contemplado. Entretanto, é possível conceber uma conotação da ideia de Maslow mais voltada à consciência da possibilidade de atendimento, do que ao atendimento propriamente. Ter fome e saber que se dispõe de meios para comer tem um efeito comportamental diferente de ter fome e não saber onde conseguir alimento. Em cada uma das situações, a concentração no primeiro nível é diferente, influenciando uma relação hierárquica.

Independente de críticas, derivações ou preciosismos, o exercício da ótica de Maslow pode ser útil ao abordar seus três últimos patamares no âmbito de certos aspectos da dança de salão. Por um momento, no que tange às proximidades entre dança de salão e sexo, vamos nos ater a estes três níveis.

Necessidades sociais ou de associação

A consensual interação proporcionada pela pragmática da dança de salão mostra-se eficiente no terceiro nível de busca do homem: atender necessidades sociais ou de associação. Aqui, poucas apreciações interessam, afinal, sua expressão é percebida coletiva e não individualmente.

Necessidades de status ou autoestima

Sob o olhar aqui proposto, é o nível de maior complexidade. Cada indivíduo tem sua forma particular de supri-lo. O desatendimento das necessidades deste nível em outros domínios da vida humana pode gerar certos comportamentos compensatórios durante a prática da dança de salão.

Consideremos um deles, partindo do triângulo humano geral, presente em cada dança de um salão, formado pelos pontos: dama, cavalheiro e observador(es). Há estudiosos que acrescentam música ou outros elementos, mas, do ponto de vista humano, tratemos aqui destes três.

Alguns dançarinos dedicam-se mais aos observadores do que ao seu par, resultando em desequilíbrio e desarmonia do triângulo que, desta forma, comporta perdas. Há tempos profissionais se referem a tal fenômeno. Para exemplificar, mais de uma década atrás, atendendo a solicitação de uma entrevista ao jornal paranaense Gazeta do Povo, sugeri que se convidasse mais uma profissional, colega competentíssima no que diz respeito ao tango, Vânia Andreassi. As entrevistas embasaram uma matéria que foi publicada na seção Caderno G, na qual se registrou a expressão “caras e bocas”, utilizada por Vânia ao referir-se a atitude cenográfica de certos dançarinos no salão. Em 2005, registrei em livro esta questão, já sob o enfoque da sensação de “poder” conferida ao dançarino que se entende admirado em seu meio social. Não são os únicos registros.

O observado é que, para o atendimento das necessidades do terceiro nível, alguns indivíduos se inserem em um grupo e depois iniciam a caminhada rumo ao quarto nível – lógica da hierarquia de Maslow. É neste ponto que, para obtenção de status, fortalecimento de autoestima, reconhecimento e aprovação social, passam a querer e a buscar atenção dos participantes do grupo. Durante a dança, especialmente no início da vivência do referido triângulo, seus olhares voltam-se aos observadores, procurando quem os está “admirando”. Ao encontrarem anteparo para este vetor visual, obtêm certa satisfação. Nota-se, eventualmente, que a percepção de ser observado acentua movimentos provocativos. O reconhecimento deste fenômeno, talvez tão antigo quanto a própria dança de salão, desnuda dançarinos promovendo cenas cômicas em pleno salão. Veem-se cavalheiros que não se preocupam em propor conduções minimamente compreensíveis à dama, uma vez que consideram a parceira apenas um complemento para enriquecer sua própria apresentação. O inverso também é verdadeiro.

Tal estratégia é frágil e, frequentemente, o preço pago inclui tropeções, desencontros e até quedas hilárias, capazes de desintegrar subitamente a citada satisfação. Quando a permanência neste nível de necessidades persiste ao longo dos meses ou anos, os vetores visuais ganham discrição, tornam-se indiretos e em certos casos, pela certeza absoluta de que se é “admirado”, somem. Alguns, com o tempo, reduzem seus erros visíveis conferindo algum equilíbrio ao triângulo. Mesmo assim, permaneceriam no quarto nível, ou talvez em transição ao quinto, uma vez que, segundo a concepção de Maslow, ainda não estariam no ponto de buscar autêntica autorrealização.

Necessidades de autorrealização

Estas são necessidades consideradas superiores, mais elevadas, correspondendo a exploração continuada do próprio potencial. É o topo da escala para Maslow, buscada pelos indivíduos que, a seu modo, obtiveram alguma superação dos níveis anteriores. Para dança de salão, este último nível pode ser entendido como o clímax, o prazer perfeito, chancela de autorrealização.

Cabe diferenciar sutilezas que podem confundir quarto e quinto níveis. No quarto nível, há vontade de obter satisfação pela admiração ou aprovação do outro, daí a necessidade de se mostrar, mesmo quando desprovido de certeza da qualidade do próprio desempenho. No quinto nível, há vontade de usufruir do resultado obtido com aprovação de si mesmo, conquistada a partir da construção de referenciais pautados em parâmetros globalmente sustentáveis.

Em um palco, o ápice da autorrealização ainda tem fulcro no domínio técnico absoluto e conforme o caso, na criatividade livre. Talvez o melhor exemplo seja o dançarino Jomar Mesquita, que vence a si próprio a cada novo espetáculo. Vejo sua postura mais compatível com o desejo de superar-se do que de ser observado, admirado ou aprovado por outro. Entendo que ele tenha a própria aprovação e seja o anteparo de seu vetor visual, que vai muito além da limitada ótica física. Ele compartilha talento com a pessoa da plateia que, em certos momentos, experimenta-se como voyeur de palco.

No salão, o indivíduo alcança este último nível quando há concentração em manter-se oferecendo ao par o produto da sua autorrealização. Dama e cavalheiro conectam-se, a dança de salão acontece, e aí sim a música tem seu papel, aí sim o prazer a dois é indescritível. Neste ponto, é possível a inserção do observador, não como referencial para aprovação e sim como compartilhante de um êxtase ou mesmo como um voyeur de salão. Finalmente, é possível um triângulo equilibrado e harmônico, formado por cavalheiro, dama e observador(es). Todos lucram.

No salão ou no palco é o nível cinco que oportuniza o momento mágico em que cavalheiro, dama e voyeur podem ser devolvidos a outra dimensão do nível um, convertendo a hierarquia de Maslow numa espiral, talvez, sem fim certo.

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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