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Dança de possessão

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Que deliciosa surpresa o baile de lançamento do novo portal Dança em Pauta! Pois foi neste clima de um dos clubes de Curitiba que remontam aos bailes do século passado, sob o contraste riquíssimo da banda El Merekumbé, que vi um jovem dançarino com perfil nítido de salão transformar-se em algo assustador, o que para mim, foi a cena de uma pessoa sendo possuída. A concepção de possessão referida aqui é aquela na qual muitos religiosos creem que entidades imateriais podem assumir temporariamente um corpo humano.

Fiz questão de dedicar meu tempo à observação daquele fenômeno, já que minha forma particular de relação com o conhecimento estava sendo desafiada pela visão de algo que, racionalmente, nunca me pareceu possível. Tentei estudar cuidadosamente aquele rapaz, o que fiz por algumas boas horas. Então, o vi em sua camisa branca, vendo o mundo por seus óculos, ora sentado à mesa, ora conversando, ora caminhando, dançando Samba, Chá-Chá-Chá… Mas ao vê-lo dançar Salsa, notei que era possuído por algo que não parecia com ele nas outras situações observadas, dava-se o nascimento de uma dança de beleza entorpecente…

Pouca ou nenhuma diferença fazia a parceira com quem ia para pista, fazia diferença sim, a música. Em detalhes, notei que não era raro abrir mão do contato físico com sua dama sem perder a conexão, como se a venerasse no escopo de par, tanto quanto à liberdade. Foi muito interessante perceber que olhava concentradamente sua dama, qualquer que fosse, e parecia não dar importância a outras pessoas, apenas atentando para ocupar o espaço que era só seu…

Enquanto dançava Salsa, parecia que nada lhe era proibido, e que a permissividade desmedida em absoluto improviso vinha da música, trazendo braços firmes ou largados, cabeça erguida ou pendendo para qualquer lado, coluna alinhada ou abandonada, pernas juntas ou desgarradas… e o sorriso, este era arbitrariamente libertado… Entendi que a Salsa estava para aquele rapaz, como um detonador, um canal mágico, que viabilizava um tipo de possessão que raríssimas pessoas experimentaram na vida e, sem dúvida, é uma das mais fascinantes.

Foto: Juciane Dubiel/Dança em Pauta
Foto: Juciane Dubiel/Dança em Pauta

A imagem era de alguém que voluntaria e controladamente oferecia seu corpo para ser usado por outro ser muito diferente. A entidade possuidora parecia fazer, sem qualquer planejamento, o que queria com o físico do moço. E bastava o encerramento da música para a possessão ter seu fim. Este ser que o possuía, o fazia com visível autorização, e esta permissão lhe era dada, precisamente, ao som da Salsa. O mancebo não só deixava como parecia desejar que o feitiço voltasse a acontecer repetidamente…

Havia técnica, visivelmente, mas apenas canalizando a ação de um aparente ser incorpóreo, a técnica era meio e não fim. Alguns dançarinos dedicam-se incansavelmente para o aprimoramento técnico, precisam dele e escoram-se nele avidamente, talvez por sentir que é um caminho para este desejado e inominável fenômeno de possessão. Mas são poucos que conseguem se deixar possuir indo tão além de uma mera escravização ou robotização técnica… chegando ao domínio de sagrar-se despudoradamente…

De algum jeito, comecei a dançar com o moço pelos meus olhos, tentando sentir a natureza do espírito possuidor. Salsa após Salsa o caráter daquela possessão, daquele ente, começou a se descortinar, até ficar muito claro, conhecido e reconhecido. Entendi que aquele fenômeno, aparentemente sobrenatural, se expressava, há muito, de outras formas, em outros dançarinos, outras danças, outros bailes, outras músicas…

Algumas danças, para alguns de nós, tem esta capacidade de permitir que sejamos tomados por este ser que vive acorrentado sob as mais variadas censuras, nas mais asiladas profundezas, sobrevivendo sozinho numa escuridão triste, ou congelado em algum de nossos polos, desesperado por uma fração qualquer de tempo quente e desatado. Mesmo sendo o mais atraente, puro e extasiante de todos os seres, ele não tem o direito de andar solto por aí, porque também é o mais perigoso, só pode ser desencarcerado em dia de contentamento, se não, é monstruoso, daí sua regra de clausura. Este ser é visto sadiamente só em momentos a exemplo destes, em que o dançarino social conseguia, encolhendo-se num lugarzinho contido de sua compleição, lhe dar espaço ao som da Salsa. Feliz de quem conseguiu experimentar o sortilégio desta alforria de tanta euforia, porque tal instituto impalpável, de tantos fascínios e mistérios é apenas a fera, aquela parte mais louca e pura que todos sufocamos em algum canto inseparável de nós mesmos…

Foto: Pablo Contreras/Curitiba Social Club
Foto: Pablo Contreras/Curitiba Social Club
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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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