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Damas também são veículos

Por volta de 1996 decidi aprender a dançar como um cavalheiro. Inicialmente, esta idéia tinha a finalidade de me subsidiar para dar aulas, mas com o tempo muitos outros aspectos interessantes surgiram nesta caminhada.

A primeira dificuldade foi o fato de que ninguém queria ensinar uma dama a dançar como cavalheiro. Quem realmente fez diferença nesta esquisita empreitada, foi minha irmã, colega de aulas. Como uma grande dama, teve paciência em me dizer gentilmente, movimento a movimento, o que sentia como uma boa condução e o que era desconfortável ou impossível entender. Foram anos aprendendo, mas nós duas tivemos até o privilégio de viver o palco de um conhecido teatro curitibano. Ela, como a linda dama que é e eu, no papel do cavalheiro Mário S. Trella, de terno, chapéu, sapatos masculinos, uma peruca e até um bigode.
Embora minha grande parceira até hoje seja minha irmã, depois de algum tempo, eu já dançava no salão com uma diversidade de damas: parentes, colegas, amigas, alunas e mesmo desconhecidas. Danço com todas as que não se constrangem com o convite, entendendo que não há nada de sexual nisto, há apenas o simples prazer de viver a dança e suas possibilidades. Desde então, tenho experimentado este lado encantador da dança de salão.

Mês passado, discuti no artigo intitulado “Cavalheiros são veículos” a visão que a dama tem de seu cavalheiro, como se ele fosse um veículo que a transporta. Agora, é momento de trazer a visão do cavalheiro que conduz uma dama, como se ela fosse o veículo.

Uma das coisas que mais me impressionou desde o início, foi reparar que o peso físico da pessoa não a define como dama. Já dancei com damas obesas que se mostraram muito leves, como veículos com direção hidráulica, uma delícia de dirigir, não importa o peso que ostentem. E o inverso também é verdadeiro, damas magrinhas podem ser “pesadas”, difíceis de tirar do lugar como um leve carrinho de mão com roda quadrada.

Há carros que apresentam a famosa “folga no volante”, com isto, fazem a curva um tempo depois de você começar a guiá-lo para tal. Tem damas que são bem assim, respondem uma condução quando você já está conduzindo outra coisa. Há as que parecem um carro com o cabo do acelerador engatado em alguma coisa, não adianta tirar o pé do pedal da direita ou frear, elas sempre saem a sua frente e você tem que se virar para conduzir correndo atrás, o que lembra o filme “Velocidade Máxima”, frustrante. Mas acho que um dos tipos mais difíceis de dama é o que se comporta como um avião em piloto automático que não desliga, faça o que você quiser que não vai adiantar nada, ela já decidiu onde e como ir.

Já dancei com damas muito experientes, que são lindas dançando com outro cavalheiro, mas quando você as tira para dançar, percebe que estão cheias de vícios. A primeira marcha tem segredinho para engatar, se puxar o freio de mão um pouco forte, fica com ele na mão, a lanterna não funciona e você tem que andar de luz alta, a luz interna dá mau contato, tem que ligar o interruptor e apertá-lo ao mesmo tempo, ou não acende. Mas há damas absolutamente precisas, você as atrai para realizar movimentos mais do que as conduz, entretanto, como um helicóptero, se você não sabe muito bem o que está fazendo vai acabar com uma hélice no nariz e a culpa será sua.

Tem também damas que parecem uma montanha russa, não obedecem, nem conduzem, apenas estão no trilho delas, na velocidade delas, que não é igual a da música necessariamente, e você passa cada frio na barriga que nem tem como descrever. Algumas gostam de se desculpar por tudo, como um carro sem seguro 24h que fosse resultar em um problemão a qualquer hora. Outras aparentam não ter nenhum parafuso para prender as peças, seus braços, por exemplo, parecem não estar presos a nada. Você já dirigiu um carro com problema de alinhamento? Pois é, há damas que se penduram em seu ombro direito e o esforço para compensar este desalinhamento é enorme e inútil.

Tem carros com cintos de segurança que não deixam você se mexer, são fixos e apertam mais do que o necessário. Várias damas fazem isto, principalmente na mão esquerda do cavalheiro. Elas apertam de um jeito que o dedão deles vai ficando vermelho e se não falarem nada, fica roxo, amortece, e parece que ao fim da dança cairá fora. Nem pense em girar uma dama destas. E há ainda aquelas que já saem para uma rodada com os air-bags explodidos para fora, com estas é bom cuidar, a maioria não quer só dançar. Também já guiei uma dama que parecia confiar absolutamente no seguro contra roubo e, por isto, ficava com as portas destravadas, facilitando para outro motorista. Falando em portas, você já viu um carro abrir a porta ao fazer uma curva? Pois é, há damas que você tem que segurar firme, senão a mão solta e vai parar em um terceiro provocando constrangimentos. Uma vez vi um caminhão que inclinou um pouquinho e a carga foi toda para o chão, como damas que a qualquer movimento que incline, o vestido cai e aí você é o depravado que quer vê-la nua, dá vontade de dançar segurando a veste, como aqueles pescadores que dirigem o “carro” segurando a vara de pescar do lado de fora.

Damas certas são fantásticas para cavalheiros certos. Elas parecem fazer parte de você sem perder a própria personalidade, são como um veículo que se ajusta a você com o conforto de uma extensão do seu próprio corpo. São estas as damas que oportunizam seu melhor desempenho, fluir pelas veredas mais inebriantes da dança de salão.

Seja como for, sempre é um privilégio conduzir uma dama e deixá-la confortável, esmerar-se para conseguir um sorriso ao combinar o movimento com a música. Acredito que, como cavalheiros, temos a missão única de fazer nossas damas felizes, tenham elas defeitos de fábrica e vícios ou não.

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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  1. Este texto lembrou-me um antigo filme “Firefox” que seria um avião-caça soviético que operava somente pelo pensamento do piloto. Os americanos tentavam roubá-lo mas não sabiam “pensar em russo”. Assim, há damas tipo “Firefox” que adivinham seus pensamentos antes de cada passo da dança. Fazem até melhor, se a gente erra o passo elas “erram” junto e ninguém que observa de fora consegue perceber o erro. São fantásticas!

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