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Cultivando a atitude de aprendiz

Neste recomeço de ano, tenho a satisfação de voltar a escrever nesta coluna abordando um tema muito importante e pertinente, já que tratamos dos processos de ensino e aprendizado, que é a atitude de aprendiz quando estamos na posição de alunos.

Para ilustrar o assunto, começarei narrando um pequeno conto fictício:

Era uma vez o Dr. Waltz que, honrando seu nome, se considerava exímio dançarino. O termo doutor, não era por acaso, o pé de valsa, era médico de formação e tinha a pediatria como especialização. Não por necessidade, mas convencido por sua esposa, foram juntos tomar aulas de dança. A proposta da mulher era fazerem uma atividade em conjunto, prazerosa e que ainda auxiliaria num dos programas sociais que o casal mais gostava: sair para dançar!

Chegando à aula, as coisas não aconteceram da maneira em que o casal imaginava. Durante o aquecimento, frente ao espelho, Dr. Waltz logo perguntou: “Se vamos dançar em pares, porque tenho que fazer esses movimentos sozinhos em frente ao espelho?”. O professor, muito solícito e aproveitando a oportunidade, parou o aquecimento e explicou para toda a turma como seria a estrutura das aulas de dança e os motivos pelos quais aquelas atividades eram importantes. Em seguida, se voltou novamente para o espelho e concluiu a parte inicial da aula.

Durante o resto da aula, o que mais se ouvia eram as indagações e comentários do Dr. Waltz: “Mas eu já faço isso professor, veja só”; “Professor, prefiro abraçar da maneira como fazia antes, não gostei da maneira proposta por você”; “Mas porque tenho que ir com minha perna esquerda ao invés da direita a frente?”. E essa foi a tônica da aula. Infelizmente, nosso conto não terminou com um final feliz, Dr. Waltz e esposa só ficaram algumas semanas na aula de dança. O motivo: a incapacidade do médico de se colocar como aprendiz.

Casos como o que relatei acima são comuns nas salas de aula por aí e o que quero trazer a tona é, justamente, a mudança de comportamento na hora de nos colocarmos na posição de aluno. Penso numa aula como o processo e não um fim, como um caminho a se percorrer e não um objetivo. O fim ou o objetivo virão ao término do processo e, por isso, temos que nos entregar a ele primeiramente, vivenciá-lo da maneira mais aberta possível, para aí sim colhermos os resultados, analisá-los e julgarmos se os mesmos foram bons, se o que alcançamos era o que queríamos ou esperávamos do trabalho.

Um professor trabalha com a mudança, com o desafio e com o provocar as pessoas a sair de sua zona de conforto. Tal fato faz com que instintivamente nos armemos e com que ergamos nossas defesas, se não nos policiarmos colocamos justificativas em tudo, para tentar minimizar os incômodos surgidos das propostas desafiadoras do condutor da aula. O “mestre” esta sempre nos pedindo algo a mais, sempre estimulando novas possibilidades, e aqueles que são bons maestros, percebem os menores avanços e sem pestanejar os elogiam, fazendo nosso ânimo revigorar e gerando motivação para irmos adiante.

De maneira alguma quero dizer que o aluno deve se calar para tudo o que o professor propõe, ou ser passivo e submisso na aula. Alunos bons são aqueles participativos e que sugestionam, são aqueles que debatem e argumentam com o professor, mas essa postura não é defensiva e sim de construção do conhecimento.

E quando esse aluno é um profissional da área, será mais difícil uma aula, sem que este entre em conflito com a proposta?

Foi essa a pergunta que uma amiga me fez, dias atrás, quando falávamos deste artigo que escrevo agora. O que disse a ela foi que o profissional, em qualquer área de conhecimento, tem que continuar a estudar para atualizar-se e aperfeiçoar suas práticas, pois o mundo esta cada vez mais competitivo e a informação corre rápida, fácil e barata por aí, só não a possui quem não se interessa. Com isso, frequentemente, profissionais se encontrarão na posição de aluno, e mais do que os amadores, terão que desenvolver a entrega às propostas, como citei nos parágrafos anteriores. A diferença, em minha opinião, vem na hora do julgamento do resultado do processo, pois como esta pessoa tem mais conhecimento sobre o assunto, tem maior crítica para analisar o produto que foi conseguido. Tenho certeza que será desafiador para esse profissional, que agora esta na posição de aluno, tomar a postura de aprendiz como sua atitude, pois o mesmo verá certamente suas crenças, valores e práticas sendo contrariadas.

Cabe ao professor que esta ministrando esta aula para o profissional-aluno, trazê-lo para seu lado e o fazê-lo entender que se trata de experimentar e vivenciar as coisas por uma nova perspectiva. Em dança, as coisas podem ter vários caminhos e uma verdade única é rara e improvável, afinal de contas, estamos tratando de arte e o resultado disso tudo será posto em prática no cotidiano do aluno ou não, de acordo com a vontade do mesmo.

Finalizando, até mesmo o ministrante da aula deve ter uma postura de aprendiz, pois invariavelmente e frequentemente, podendo até mesmo referenciar em meus próprios exemplos, aprendemos com nossos alunos. Não é surpresa para ninguém que um pupilo traga uma solução ainda não pensada por nós mesmos. Então, a frase de Guimarães Rosa cabe como uma luva, para encerar esse artigo:

Fotos: Daniel Tortora e Daniele Pimazoni

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Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

4 Comments

  1. Ótimas reflexões…a atitude de aprendiz já tem sido debatida em várias outras modalidades em que dar aula para colegas que também estão em formação faz parte da titulação (como Pilates, Axis Syllabus e outras). O desafio é duplo: o aluno deve estar disponível, cordial e comprometido (caso não deseje comportar-se assim, pode optar por não estar ali; se estiver, deve estar colaborativo). O professor deve cultivar a autoconfiança baseada em um sólido conhecimento, e lembrar que os alunos proficientes em outras áreas também tem os momentos em que desejam ser cuidados e orientados.
    A dança, em particular, por ser uma área academicamente nova, ainda mostra várias situações em que a posição de aluno e professor é alternada, como em simpósios, congressos e outros cursos de aperfeiçoamento. Frequentemente um professor tem aula com alguém que já foi seu aluno, e vice-versa. Isto é salutar e demonstra que os que vivenciam de forma madura esta situação estão se desenvolvendo com profissionalismo e respeito.
    Parabéns pelo texto, professor Cristóvão!

  2. Excelente texto concordo em gênero, número e grau, e lembro um comentário de Freud, não há aprendizado sem sofrimento. Aprender é ter que lidar com o estranho, com o diferente, e isso só é possível com certa dose de insegurança, medo, ansiedade, pois nos tira do lugar seguro que estávamos e nos joga para o desconhecido.

  3. Felicito a vc Cristóvão pela excelente visão contextualizada no texto, pois o que nos move é a redescoberta de novos caminhos em cada aula ou em cada novo aluno e quando nos propomos a aprender, será preciso um processo de abertura em todo nosso “SER”, para que isto aconteça naturalmente…abraços Vavá e Equipe(mais um texto a ser debatido em aula, com a devida aprovação sua)

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