Colunas, Dança a dois em cena

Criação Coreográfica em Danças de Salão

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Por ser um primeiro artigo que escrevo para vocês, não posso deixar de começar me apresentando, bem como apresentando o assunto principal para o qual fui solicitado a tratar. Sou Jomar Mesquita, diretor da Mimulus Escola de Dança e da Mimulus Cia de Dança, de Belo Horizonte. A escola foi inaugurada em 1990, pelos meus pais, Baby e João Baptista Mesquita, primeiros a fundar uma escola especializada no ensino das danças de salão, em Minas Gerais, e os grandes responsáveis pelo meu trabalho com a dança. Seguimos ensinando todos os gêneros das danças de salão, em suas formas tradicionais, para todos os níveis e idades.

Em paralelo ao funcionamento da escola, em 1992, formamos um primeiro grupo, que foi o embrião da Mimulus Cia de Dança. Seguimos como um grupo vinculado à escola, até o ano 2000, quando fundamos a Associação Cultural Mimulus e a companhia passou a fazer um trabalho independente da Mimulus Escola de Dança, apesar de funcionar no mesmo espaço. A companhia se tornou referência, no Brasil e no exterior, na criação de espetáculos que tomam como base as danças de salão e as leva para o palco com uma proposta artística. Talvez seja a única companhia profissional, estável, com esta proposta.

É sobre este tema que vamos conversar aqui neste espaço: Criação Coreográfica. E não poderia ser em outro meio de comunicação, visto que a mesma qualidade pela qual este website preza, é a qualidade pela qual os coreógrafos da dança de salão devem almejar ao criarem seus trabalhos.

ballet_ballroom_footVocê sabia que o balé clássico nasceu no mesmo espaço onde nasceram as danças de salão? Há alguns séculos, nos salões da corte francesa. As raízes são as mesmas, porém os galhos se dividiram, a dança clássica direcionou-se para os palcos, como uma dança cênica, enquanto as danças de salão permaneceram nos salões de baile, como danças sociais. Apenas nas últimas décadas, as danças de salão chegam aos palcos consolidando-se também como uma dança cênica. Não que já não viessem frequentando os teatros e outros espaços para apresentações há mais tempo, no entanto não o faziam com uma proposta artística, mas sim como entretenimento.

Ora, qual seria a diferença entre a arte e o entretenimento? Pergunta difícil de responder… Inclusive porque em muitas situações ambos se misturam. E não queremos dizer que um seja melhor ou pior do que o outro, mas apenas diferentes. Vou utilizar esses dois conceitos sob pontos de vista bastante pessoais, somente para nos situarmos melhor ao tratarmos de composição coreográfica. Normalmente, quando assistimos ou nos deparamos com algo artístico, aquilo nos incomoda, nos marca de alguma forma. E pode ser que passados meses ou anos, ainda nos recordemos. Talvez até por não termos gostado, mas nos marcou. Já o entretenimento cumpre o seu papel de nos divertir. Aqueles que assistem, aplaudem, sorriem, se divertem. Porém, no dia seguinte, talvez nem se lembrem mais.

Quando falamos em composição coreográfica, até temos algumas “receitas”, técnicas, que podem nos garantir sorrisos, elogios e aplausos por parte do público. No entanto, não existem fórmulas para uma proposta artística. Compor uma coreografia de qualidade, com cunho artístico é correr um grande risco. Pode ser que não sejamos aplaudidos, pode ser que não gostem do que assistiram, mas ainda assim irão se recordar. Por outro lado, corremos também o gostoso risco de não somente sermos aplaudidos, mas de sermos aplaudidos de pé, ovacionados, de pedirem bis, de gritarem: “Bravo!!!”. É este tipo de risco que o artista se propõe a correr.

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Fotos: Daniel Tortora/Dança em Pauta

Nunca vou me esquecer do elogio recebido por um coordenador da área de dança da Funarte, no ano de 1998, em Recife, após uma apresentação. Ele me disse mais ou menos assim: “Parabéns, pois foi a primeira apresentação de dança de salão que eu assisti e que não saí com a sensação de já ter visto isso antes, em algum outro lugar”. Percebam que ele não fala que foi bonito, que gostou, aliás, pode até ser que tenha odiado, mas ainda assim considero um dos melhores elogios já recebidos, por ter me trazido o conforto de estar conseguindo correr os riscos a que me propunha: o de não utilizar os mesmos clichês, as mesmas “receitas”. As danças de salão são muito ricas em possibilidades de criação para utilizarmos sempre os mesmos estereótipos.

Finalizo deixando algumas reflexões para vocês, antes do nosso próximo encontro: paradoxalmente ao que acabo de dizer, será que o “fazer diferente” também não tem se banalizado ou se tornado hoje, o lugar comum? Por conseguinte, será que transgredir, atualmente, não seria justamente dançar da maneira mais tradicional possível?

Uma dica… assista a série de documentários “Coreografia, o desenho da dança no Brasil”, no canal Arte 1. Em breve, um episódio sobre o nosso trabalho.

E desperto o interesse e curiosidade de vocês para alguns dos nossos próximos artigos:

  • O corpo do salão e o corpo do palco
  • A aula de dança para o salão e a aula para o palco
  • Fusão de técnicas ou desconstrução da técnica?
  • Dançarino X Bailarino
  • Coreografar é contar uma história?
  • Quais são os “limites” que DEVO DESrespeitar?
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Professor, coreógrafo e bailarino, dirige a Associação Cultural Mimulus, a Mimulus Cia. de Dança e a Mimulus Escola de Dança desde 1990, desenvolvendo extenso trabalho de pesquisa das danças a dois em seus países de origem. Criando uma linguagem própria e inovadora, que se renova a cada espetáculo, alcançou prêmios e críticas favoráveis em todo o mundo. Desenvolve também trabalhos como professor e coreógrafo de outros grupos profissionais de dança e teatro, destacando-se: São Paulo Companhia de Dança, Balé Teatro Castro Alves, G2 do Teatro Guaíra, Grupo Galpão, Cia. Jovem da Escola do Teatro Bolshoi, Cia. Burlantins, Cia. Sociedade Masculina e Cia. de Dança de Minas Gerais.

1 Comment

  1. Olá,
    Antes de mais nada, gostaria de dizer que sou grande fã do seu trabalho com a Mimulus. Moro em Belém e assisti uma apresentação da Cia quando estive visitando amigos em Belo Horizonte. Depois disso, passei a acompanhar seu trabalho pelas redes sociais e youtube. Espero ter oportunidade de assistir outra apresentação de vocês.
    Este ano comecei a estudar dança de salão, mas gostaria de sua opinião sobre que caminho devo seguir no que se refere ao estudo, já que meu objetivo é seguir o caminho dos palcos.
    Agradeço desde já sua atenção e parabenizo o portal Dança em Pauta por trazer profissionais renomados para compartilharem seu conhecimento com os leitores.
    abç,
    Malu

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