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Convite à Dança de Weber, um espelho da vida

Foi no século XIX que a dança de salão se consolidou, pela prática intensa da Valsa em muitos países. Nesta época, parte importante do que se produzia em termos de música, tinha como finalidade a dança. E não faltaram compositores de Valsa. Destaco aqui Carl Maria Friedrich Ernest Von Weber, compositor, maestro e pianista de considerável importância histórica.

Weber nasceu na Alemanha em 1786 e faleceu em Londres, no ano de 1826, viveu sua infância no mundo teatral por influência de seu pai, um empresário da área cênica. É reconhecido por ter começado o Romantismo musical alemão, influenciando grandes nomes como Wagner, Berlioz e inspirando o nacionalismo musical em outros países. Weber compôs, entre 1819 e 1820, a obra para piano “Aufforderung zun Tanz”, ou “Convite à dança”, que também ficou conhecida como “Convite à Valsa”.

(Se desejar, continue lendo o artigo enquanto ouve “Convite à Dança”, de Weber, clicando no player abaixo.)

Composta de forma muito cuidadosa, totaliza mais de oito minutos, e é de uma época na qual cada som tinha um significado particular no todo da obra. Curiosamente, teria sido produzida para ser ouvida, sendo considerada a primeira Valsa de concerto, e a pretensão do compositor recém-casado fora dedica-la a sua esposa.

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Ao ouvirmos a orquestração de “Convite à dança” proposta por Berlioz em 1841, é possível ver o cavalheiro se dirigir à dama, convidá-la para dançar sem desistir à primeira resistência feminina e atingir seu intuito com uma delicada insistência. Os sons graves do violoncelo representam o cavalheiro e os agudos do clarinete, a dama. Após o convite, ambos se dirigem ao salão para uma Valsa cheia de emoções, alegrias, entusiasmos e também furacões. Ao final, o cavalheiro acompanha a dama de volta ao seu lugar, dá-se a despedida.

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Pintura de Leonard Afrimov

É uma obra que vale a pena ser ouvida nos dias atuais, não apenas como uma reminiscência estética da dança de salão do século XIX, mas como um espelho da vida. Weber propõe uma sequência cronológica, de começo, meio e fim de um relacionamento dançante, organiza no tempo o momento de conhecer, tirando para dançar, em seguida de ir ao salão, começar a viver das emoções mais tênues às mais tensas e concluir com uma separação. A música, no entanto, enseja os sentimentos de inúmeras histórias de relacionamentos afetivos a exemplo dos efêmeros dançantes. A própria obra guarda, hermética, a diversidade. São variadas as formas de se conhecer alguém, viver em par um tempo e seguir apartado, como se este encontro tivesse sido uma dança.

Mas hoje notamos em sua própria obra a variedade dos modelos de relacionamentos dançantes e afetivos, percebendo início e fim em diferentes pontos da música. Não necessariamente o cavalheiro vai até a dama hoje e com tantas mesuras a leva para o salão, como um homem não procede sempre assim para unir-se a uma mulher e vice-versa. Todo o encontro, do começo ao fim, pode ocorrer em um momento transtornado ou tranquilo. Cada trecho da música é um mundo em particular, afinal, conhecemos pessoas ao sermos formalmente apresentados, mas também conhecemos nas mais inesperadas situações, até mesmo em meio a fortes emoções e grandes tormentos.

Nosso instinto de sobrevivência resiste, mas tudo tem seu fim, e é neste mesmo universo que nem sempre temos tempo de nos despedir das pessoas que entram em nossas vidas, como o cavalheiro de Weber pode fazê-lo com sua dama no “Convite à Valsa”. Às vezes o encontro começa, ou mesmo acaba, em meio a uma turbulência, quando nossa expectativa era outra.

Pintura de Vladimir Pervunensky
Pintura de Vladimir Pervunensky

Mas enquanto estamos vivos, querendo ou não, espelhamos em nossos relacionamentos esta obra fantástica de Weber, e podemos, a cada momento, conhecer calmamente as pessoas com quem vamos dançar a existência ou, simplesmente, sermos interpelados por elas num capricho do destino. Podemos nos despedir, nos reencontrar, e simplesmente nos perder sem qualquer previsão. Podemos experimentar tantos começos e fins quantos couberem em nosso tempo e, se tivermos a chance de dançá-los, a vida será muito mais doce!!!

 

 

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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