Colunas, Dança & Comportamento, Danças de Salão

Consumo, Moda e Dança de Salão

Felizmente vivemos uma época na qual já se reconhece a necessidade de mudar hábitos para que as próximas gerações encontrem o mundo, pelo menos, habitável. Somos mais de 7 bilhões de pessoas no planeta, e este número continua crescendo.

A revista “Proceedings” da Academia Nacional de Ciências dos EUA publicou, em junho de 2014, um artigo de autoria de Corey Bradshaw e Barry Brook, no qual os pesquisadores consideram que seria sustentável uma população humana entre 1 e 2 bilhões de pessoas. Mas, o problema permanece como um tabu. Juntemos a esta realidade a solidificação atual de comportamentos consumistas avassaladores para o ambiente. Trazendo toda sorte de consequências, as áreas verdes são ceifadas brutalmente para abastecer este tamanho populacional crescente em suas futilidades e necessidades por energia, água, alimento, moradia, saúde, transporte, lazer, vestimenta…

Esta avalanche trilha-se na fabricação de uma quantidade enorme de produtos de rasa durabilidade que acabam, em poucos meses, engordando nossos coalhados sistemas de recolhimento e destinação final de resíduos. Mas a maioria de nós vive sem saber o preço deste rumo. Afinal, é constante o estímulo no sentido de ter sempre o último lançamento em tudo, nisto inclui-se a nova moda em trajes e acessórios. Alimenta-se a necessidade irreal de ter um sapato novo, um vestido com tal característica, uma calça último tipo. Não faz mal se a qualidade é ruim, logo estes produtos serão substituídos por outros mais modernos.

Como um oásis neste caos está a dança, em especial, a Dança de Salão. Quem frequenta bons salões para esta prática sabe que a moda ali muda pouco, como registra Lorene Soares em seu livro “É preciso dois para bailar um tango”. Nos espaços em que a Dança de Salão acontece, a pressão midiática a favor de uma moda tão fugaz quanto voraz exerce reduzida ou nenhuma pressão. Um bom vestido para dançar na década passada, ou retrasada, ainda o é hoje. O mesmo vale para calçados e acessórios de boa qualidade. A verdade é que fazemos uma relação íntima com os sapatos, eles tomam a forma de nossos pés como se fossem parte deles, abrigam e viabilizam a vida dos movimentos criados na pista e assumem a missão de ficar entre nosso peso e o mundo enquanto sentimos o corpo cintilar.

Nossos bons calçados de baile são extensão da pele, são memórias de grandes momentos e com a passagem do tempo, carregam um precioso conjunto de emoções. Mesmo nossos acervos mais robustos guardam em todos os seus pares a finalidade de viver incontáveis danças. Não nos desfazemos com facilidade de um velho calçado de dança, afinal, os mais novos são os piores, virgens inexperientes, brutos e despolidos, sem forma, sem personalidade, sem caráter, sem história, são apenas iniciantes e o serão por muitas rodadas pelos salões. Nada como um sapato com a maturidade que só coleções de danças podem desenhar.

Nos tempos do início das Danças de Baile, até as primeiras décadas do século XX, os trajes passavam ao longo de gerações, sendo minuciosamente cuidados, remendados, ajustados e customizados para acompanhar as lentas tendências da moda.

Esta foi uma realidade mesmo entre os mais abastados. A população humana era numericamente sustentável e, no que diz respeito às roupas, a quantidade de resíduos que a vida inteira de um indivíduo gerava era muito menor do que atualmente. Alguns trajes históricos, usados em variadas ocasiões, chegaram a ficar famosos.

Detalhe da pintura “O Juramento da Princesa Isabel”, de Victor Meirelles

Um excelente exemplo no Brasil é o vestido que a Princesa Isabel utilizou no ano de 1871, durante o juramento como Regente do Império do Brasil. O momento foi registrado em uma das obras de arte de Victor Meirelles. A exemplo de muitos outros, este vestido foi usado em diferentes ocasiões ao longo de anos, inclusive em 1888, quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que foi comemorada com um baile. A veste encontra-se restaurada e destacada entre outros trajes de baile, como peça mais importante no acervo do Museu do Traje e do Têxtil, em Salvador, na Bahia.

Vestido usado pela Princesa Isabel em diferentes ocasiões, incluindo o baile em comemoração a assinatura da Lei Áurea, em 1888.

Os tempos mudaram e hoje as pessoas estão afeitas a ter mais e mais roupas, calçados e acessórios. Raramente paramos para pensar, mas está aí mais uma contribuição da Dança de Salão para formação de bons hábitos. Nossa moda muda pouco, nossos trajes permanecem apropriados para os melhores salões por anos. E, principalmente, nossos calçados fazem parte da arte, por isto, são tratados com carinho e respeito, cada par nos acompanha por muitas e muitas danças que, por sua vez, também os moldam ao seu modo. Chegamos a sentir orgulho e prazer ao vê-los desgastados e os aposentamos quando realmente terminaram seu tempo e não conseguem mais dançar.

A moda no salão não é de desperdício desenfreado, ela segue um trajeto independente, que contraria o sistema massificado de desmantelamento ambiental fútil e sem volta que ameaça o futuro da própria humanidade. Nossa arte segue incólume, mantendo uma necessidade de consumo rara nos dias de hoje, que devia ser exemplo para sociedade como um todo.

* Agradeço à Claudia Boscheco Moretoni pela sugestão de redigir este artigo.

Fotos: Daniel Tortora/Dança em Pauta, Déborah Godoy/Dança em Pauta, Acervo Museu da Moda e do Têxtil e banco de imagens

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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