Colunas, Dança & Comportamento, Danças de Salão

Conduzir e mandar, histórias diferentes

Há uma espécie de consenso sobre a ideia de que a condução na Dança de Salão, em razão do momento histórico de seu surgimento, tem um significado relacionado a “comandar” ou mesmo “mandar”. De fato, este momento histórico tinha como característica uma dominação masculina apoiada em um modelo de sociedade patriarcal, com severas restrições às mulheres. Muito provavelmente, este viés permeou a maioria dos ambientes sociais e de dança. Entretanto, o estudo mais aprofundado sobre a pequena ética do restrito espaço aristocrático que desenhou o berço no qual viria a surgir a primeira Dança de Salão, nos traz uma perspectiva muito diferente.

Efetivamente, não são encontrados registros bem fundamentados demonstrando que a condução do cavalheiro, nos primórdios das danças de baile, tivesse relação com “comandar” ou “mandar”. Neste contexto, a condução parecia relacionada a significados que remetem a proporcionar, agradar e servir a dama, atitudes que se manifestavam pela polidez, gentileza e cortesia, trazendo em seu âmago a integridade dos indivíduos.

Para estudiosos que são referência na literatura sobre o processo civilizatório, a educação do nobre francês, na época de Luis XIV, foi meio de distinção social, afirmação de uma hierarquia e até dominação. Também foi uma importante forma histórica de controle da violência. Na corte de Luis XIV, que governou de 1643 a 1715, colocando a França como referência cultural para diversos outros países, fez-se uso do termo “etiqueta” referindo-se a regras de conduta social dos nobres, o que viria a incluir o comportamento nos salões de dança. Como parte da boa educação, mestres de dança ensinavam aos nobres danças de baile a exemplo dos minuetos, por eles desenvolvidos fora dos salões. O atrelamento existente entre o aprendizado das danças de baile e a formação do cavalheiro e da dama daquela época, delata um significado da palavra condução incompatível com as ideias de “comandar” ou “mandar”, que se contraporiam ao vigente escopo comportamental cortesão. A dança fora coadjuvante do que hoje, sob um novo olhar, entendemos como formação para a civilidade.

Este foi o cenário para a Valsa, primeira Dança de Salão, se desenvolver como tal e chegar ao seu auge no século XIX. Esta dança permitiu que, pela primeira vez, um casal se independesse de outros. Isto exigiu que o cuidado com a dama e a tarefa de servi-la, ou seja, a condução, passasse a ser ainda mais importante e necessária, exigindo maior conexão entre os componentes do par. Enquanto isto, a capacidade de um homem reconhecer e atender as necessidades de uma mulher era valorizada até em regras como, por exemplo, abrir a porta para sua passagem, puxar uma cadeira para que sentasse, oferecer um casaco, disponibilizar seu braço como apoio, entre tantas outras atitudes. Mais uma vez, o cerne da formação do cavalheiro não se compatibiliza com uma postura de “comandar” ou “mandar” em uma dama durante a dança, por mais que a sociedade como um todo parecesse imbuída desta concepção. Aliás, a palavra cavalheiro surgiu no português a partir da palavra cavaleiro, com a finalidade de distinguir o civilizado do rude. Cavalheiros, diferente de cavaleiros, serviam suas damas. Também é realidade que, entre a nobreza, muitas mulheres foram rainhas e isto não seria fato se a única possibilidade para uma mulher fosse submissão a um homem que nela mandasse. O salão de baile do Palácio de Buckingham, um dos mais importantes da Europa no século XIX, se não o mais importante, foi construído a mando de uma mulher, a Rainha Vitória.

Lembremos que, com ou sem pressão em favor de um aceite, a decisão final de dançar ou não era da dama e não do cavalheiro. A dama exercia o seu domínio, afirmando a origem etimológica da palavra que a denomina, selecionando o cavalheiro com o qual dançaria. Por certo aspecto, ela sim dirigia as ações do cavalheiro que a servia, levando-o então, a satisfazê-la. Isto se fazia possível pela permanente observação e atenção do cavalheiro à satisfação demonstrada pela dama, o que exige conexão e comunicação constante durante toda a dança.

Muitos manuais de civilidade publicados até o século XIX reforçaram esta premissa, o mesmo ocorre com os tópicos de etiqueta dos livros dedicados à dança. Para exemplificar que esta linha mestra era fidedigna, um dos livros disponibilizados à venda para o público em geral no Brasil, ao final do século XIX, mostra com clareza a função do cavalheiro em relação à dama:

“O cavalheiro a quem a dama concede a graça de pelo seu braço passear ou de a conduzir a outro qualquer logar, deve por todos os modos procurar ser-lhe agradável (…). Manifestando a dama desejo de se sentar, deve o cavalheiro conduzi-la ao seu logar, agradecendo-lhe o obsequio da sua companhia, o mesmo suocede se ao começar nova contradança outro cavalheiro se aproximar (…)”

O trecho acima está na página 36 do “Novíssimo e completo Manual de Dança, Tratado Theorico e Pratico das Danças de Sociedade”, 1890 – B. L. Garnier, Livreiro – Editor. É registrado como sendo da autoria do professor de dança Álvaro Dias Patrício, mas parece uma tradução com modificações da obra, publicada em francês, do italiano Carlo Blasis, de 1866.

O citado exemplo nos revela que a essência da condução, no ambiente de surgimento e florescimento da Dança de Salão, é de um cavalheiro que se submete à decisão da dama por dançar ou não e, em sendo aceito, age no sentido de fazer de tudo para agradá-la, conduzindo-a ao que ela deseja.

Estes manuais iam além de reforçar a formação do comportamento cavalheiresco, abriam os fundamentos da conduta civilizada para além dos círculos aristocráticos. Mesmo com esta democratização, a dança não se configuraria sempre como uma prática exclusivamente ligada a educação civilizadora, tornando-se, com certa frequência, órfã dela. Assim, o significado de condução sofreria corrupção, enfraquecendo a função do cavalheiro em atender aos desejos da dama.

Ao longo do tempo, posicionamentos sexistas interpretando ser cavalheiro e ser dama de forma ideologizada, podem ter contribuído com este enfraquecimento, reforçando, na essência da condução, a corrupção de servir para mandar. Possivelmente, assim houve certa perda da missão original do cavalheiro em satisfazer sua dama como forma de obtenção do próprio prazer, abrindo margem para egoísmo e sua consequente opressão, afastando-se do respeito à dama e também da civilidade. Um tipo de caminhada que não transcorreria sem a reação das mulheres.

Talvez por outra via e retornando a uma natureza, as conquistas das mulheres na sociedade tenham favorecido homens que, a exemplo do que se ensinava a cavalheiros do século XIX, reconhecem as vantagens de satisfazer uma mulher, também em outros âmbitos além da dança. Assim, hoje, há cavalheiros que retomam a originalidade do termo conduzir. Um exemplo é trazido no texto de Tiago Tonial: “(…) se existe uma pretensa vantagem do homem, essa vantagem virá da subserviência no sentido de obrigação de satisfazer a mulher”. Tiago, referindo-se ao cavalheiro e a dama que dançam, resgatou neste trecho a essência que parece ser original da condução no ambiente aristocrático em que a primeira Dança de Salão se estabeleceu. Uma retomada destes valores no sentido de robustecer a formação para integridade e civilidade de cavalheiros e damas pode ter consequências que extrapolam o âmbito da dança, atingindo a esfera civilizatória, democratizada na atualidade.

Os tempos mudam e experimentações sob outras óticas que podem trazer satisfação mútua também são bem vindas. Uma das mais importantes é a quebra da associação entre as funções de cavalheiro e dama na dança com os papéis de homens e mulheres na sociedade. Isto liberta todas as pessoas para vivenciarem ambas as funções ao longo de uma dança inteira ou alternando-as em seu decorrer. Outra delas é a possibilidade de que damas proponham conduções, como damas. Venho registrando estas ideias ao longo do tempo, algumas delas já há mais de uma década.

Mais recentemente, uma proposta ousada foi trazida por Míriam Medeiros Strack, a dissolução da condução na dança a dois. Uma ideia digna de atenção, aprofundamentos, confirmações e ampliações experimentais em diversos âmbitos, especialmente no salão. Miriam nos faz pensar em uma prática distinta desta primitiva Dança de Salão esculpida na condução que um cavalheiro faz para levar sua dama ao prazer e assim realizar-se. Mesmo que abalem cláusulas pétreas históricas desta arte, são experiências diferentes e absolutamente pertinentes nesta discussão.

Precisamos nos aprofundar em estudos e vivências reais sobre o significado histórico da condução, transmitindo-o a cada indivíduo que inicia nesta arte. E recriá-lo sempre é uma possibilidade válida. Assim, estaremos mais preparados para abalar, ou não, os pilares da Dança de Salão que de fato são conhecidos, agregando experiências diferentes e ampliando as formas de se viver a dança a dois sem deixar de explorar as compatibilidades de nossos desejos, como damas, como cavalheiros ou como nenhum deles.

Imagens: Ilustração de Pearson Scott Foresman, ilustrações da coleção Le Bon Genre, detalhe da pintura “O Minueto” de Frederick Hendrik Kaemmerer

Veja também:

Literaturas citadas no texto

  • Blasis, Carlo. Nouveau manuel complet de la danse, Traité théorique et pratique de cet art depuis les temps les plus reculés jusqu´à nos jours. Paris. Paris Librairie Encyclopédique de Roret Dole Typ. Ch. Bind. 1866.
  • Patricio, Alvaro Dias. Novíssimo e completo Manual de Dança, Tratado Theorico e Pratico das Danças de Sociedade. Rio de Janeiro. B. L. Garnier, Livreiro – Editor. 1890.
  • Strack, Míriam Medeiros. Dama ativa e comunicação entre o casal na dança de salão: uma abordagem prática. Monografia. Especialização em Teoria e Movimento da Dança com Ênfase em Danças de Salão da Faculdade Metropolitana de Curitiba. 2013.
  • Tonial, Tiago. Dança de salão e lazer na sociedade contemporânea: um estudo sobre academias de Belo Horizonte. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, 2011.

 

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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