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Condução e prazer

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No último artigo discutimos características históricas da condução, demonstrando que em seu significado seria abrangida a ideia de que o cavalheiro, quando aceito pela dama para uma dança, agiria no sentido de satisfazê-la e este seria o caminho para seu próprio prazer. A exploração e o treino neste sentido levariam a recompensa do prazer contínuo e mútuo ao longo da dança toda, talvez até ao ponto da caminhada que se antecedeu ser esquecida.

Esta estratégia, de um indivíduo que busca satisfação ao se subsidiar com as reações do outro para proporcionar-lhe prazer, é eficiente, foi até testada e selecionada como método de manutenção para muitas formas de vida. Analisando uma história evolutiva mais longínqua, de milhares de anos, constata-se que este é um modelo semelhante ao que ocorre em muitas espécies além da humana, quando a fêmea seleciona os machos que a procuram. Em grande parte das espécies são os machos que servem a suas fêmeas, fazendo ninhos que elas avaliam se interessam ou não, trazendo presentes, exibindo-se para elas, dançando com total empenho, como no caso extraordinário das aves do paraíso. Combina com a ideia humana de civilidade e é natural o modelo de machos esmerarem-se para conquistar e manter fêmeas. Isto não foi inventado por nós, humanos, nos antecede, logo, funciona a mais tempo do que nossa existência.

Do ponto de vista sexual, humano e heterossexual, também notamos ser um caminho que funciona para a satisfação mútua. A Dra. Carmita Abdo, fundadora do Projeto Sexualidade do Instituto de Psiquiatria da USP e autora do livro Descobrimento Sexual do Brasileiro, identificou que o primeiro medo da maioria dos homens é não conseguir satisfazer sua parceira. Em suas palavras:

“(…) a meta da relação sexual está calcada na satisfação do parceiro, assim como em ter a comprovação de que o próprio desempenho é bom (…)”

Lembremos que a fisiologia do prazer masculino permite uma realização mais objetiva, rápida e previsível, diferente da fisiologia do prazer feminino, mais subjetiva, lenta e complexa. Este contraste biológico gera a necessidade de comportamentos também diferentes quando se pretende uma conexão para satisfação mútua. Ao ser entrevistada por Drauzio Varella a Dra. Carmita afirma: “Como é difícil para a mulher adiantar-se, determinar esse compasso caberia ao homem”

Resumidamente, para a especialista, na relação sexual entre um homem e uma mulher, que possuem fisiologias de prazer muito distintas, o homem tem papel importante na participação do processo de levar a mulher à satisfação como forma de auto realização e até autoafirmação. Isto se viabiliza quando o homem se concentra nas reações e expressões femininas que o guiam à satisfação da mulher, comprovando o sucesso de seu próprio desempenho. Naturalmente, é indispensável que a mulher tenha condições de reagir autenticamente. Assim, fica fácil entender que fingir prazer é ensinar o caminho errado ao parceiro e condenar-se à insatisfação. Notemos que a atenção do homem às reações fidedignas da mulher diante do que ele próprio faz permite uma conexão plena entre ambos. Este é um dos caminhos possíveis, bastante lógico para a combinação dos modelos distintos de fisiologia dos prazeres masculino e feminino, que permite aos dois saírem plenamente satisfeitos.

Como percebemos, é um tipo de estratégia que mostra vantagens em diferentes áreas, talvez por isto tenha inspirado o modelo mais primitivo de condução na Dança de Salão. As “fisiologias” das funções de cavalheiro e de dama, independente do sexo de quem as assume, têm semelhanças com as fisiologias de prazer do homem e da mulher. O cavalheiro tem possibilidade de obter prazer mais objetiva e rapidamente pelo simples fato de estar na função de condutor. A dama tem mais dificuldade para realizar-se por estar na função de conduzida. Quando o cavalheiro não tem como objetivo realizar a dama, como parte da regra, o estabelecimento da conexão assume outro tom.

Particularmente, reconheço que me sinto uma dama completa ao ver um cavalheiro se realizar por ter trabalhado concentrado nas minhas reações até me trazer prazer. E, como cavalheiro, nada se compara a ver o sorriso da minha dama porque acertei ao servi-la, proporcionando o que a deixa contente e me mostrando que posso ser competente nesta função.

Mas, este equilíbrio não é uma regra vigente em todas as relações dama-cavalheiro. Muitas damas sentem submissão e insatisfação frente ao comportamento corrompido de comando que certos cavalheiros adotam, exigindo obediência e esquecendo do marco civilizatório histórico que desenhou as relações do par na Dança de Salão. É neste contexto que notamos, como com os homens, a existência de dois tipos básicos de cavalheiros, aqueles que fazem questão de ver suas damas satisfeitas e… os outros. Também existem as damas que, mesmo diante de cavalheiros que se desdobram para satisfazê-las, resistem, desejam negar-se ao movimento que fora proposto visando agradá-las, e saem a satisfazer-se por conta. Neste modelo, também como as mulheres, há dois tipos básicos de damas, as que se entregam e reagem honestamente indicando o caminho do próprio prazer ao cavalheiro, dando a tranquila oportunidade para que ele tente e… as outras. Para que se desfrute da condução original das danças de baile é sábio cada um descobrir a laboriosa tarefa de ser dama ou de ser cavalheiro, no sentido mais intenso e primogênito de seu significado.

Estudar e vivenciar com mais profundidade o escopo do complexo funcionamento da primitiva Dança de Salão permite uma percepção muito harmônica e eficiente da condução. Neste caminho, por determinado âmbito, pode haver um resgate expressivo, reequilibrador da relação entre cavalheiro e dama na Dança de Salão atual. Sem dúvida, não é a única concepção de condução, mas pode levar muitos de nós a redescoberta de um modelo de realização mútua tão plurivalente e antigo quanto eficiente.

Fotos: Daniel Tortora/Dança em Pauta

Veja também:

 

LITERATURA CITADA NO TEXTO:

 

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

3 Comments

  1. Acho interessante as abordagens na matéria porém em estudos mais atuais há a constatação de que essas alegações são bem ultrapassados já, haja visto que a grande parte das pessoas não se identificam com a dança de salão, uma porcentagem muito pequena da população tem coragem ou se identifica com esta modalidade.
    Amo a Dança em Casal e justamente por isso venho estudando a 24 anos e estamos num momento da história da dança em casal que é necessário deixar para traz essas teorias que colocam mulher apenas na posição de reagente na parte da dança. É muito chato para as mulheres que tem sensibilidade musical ficarem a merce dos homens que por força da cultura da dança ganham o COMANDO por regras e não por relacionamento. Elas escutam e sentem coisas na música e são obrigadas a suprimir essas sensações para acompanhar o homem.
    A dança em casal precisa ser mais estuda e desenvolver o poder de liberdade nos seres humanos… e a liberdade real vem da sabedoia. É necessario ensinar a todos sobre o poder sentimental da música e desenvolver esse poder dentro de cada um. Precisamos para de eleger condudores sem sensibilidade musical e sim desenvolver esta sensibilidade primeiro.
    Justamente por um didática ultrapassada e com bases estruturadas em meras regras para facilitar a execução de passos sem a valorização do sentimento mais interior de cada um é que tão poucas pessoas praticam danças de salão. Existe uma máscara de relação interpessoal baseada no mínimo contato emocional e mais em contato de movimentos para que as pessoas possam “dançar” com o máximo de pessoas sem o mínimo de proximidade e com abraços verdadeiros sem serem poses dançantes. A Dança em casal chega a não ser humana pois tem regras e obrigações de aceitações mesmo que você não concorde e para participar deste mundo tem que concordar. Tudo isso muita gente sente e não fala.
    Diante de tudo que digo parece que não gosto de dança em casal…..muito pelo contrário … amo Dança em casal. Não gosto com o que o mercado da dança de salão faz com a dança em casal.

    1. Oi Luís!
      Agradecemos sua participação neste espaço para um debate saudável e construtivo para a dança, mas acredito que você não entendeu corretamente o conteúdo do artigo. Ele fala exatamente desta nova forma de dança a dois (que já nem é tão novidade assim – o texto é de 2013) em que a mulher deixa de ser uma coadjuvante, que recebe “ordens” do parceiro, para ser participante ativa na criação dos movimentos, junto com o parceiro.

      Temos vários textos aqui no portal sobre o tema que, acredito, podem ser interessantes para você que estuda o assunto. Seguem os links para você conferir:
      http://site.dancaempauta.com.br/conduzir-e-mandar-historias-diferentes/
      http://site.dancaempauta.com.br/conducao-diferentes-possibilidades-a-cada-danca/
      http://site.dancaempauta.com.br/cavalheiros-sao-veiculos/
      http://site.dancaempauta.com.br/damas-tambem-sao-veiculos/
      http://site.dancaempauta.com.br/o-dialogo-dancante-da-dama-contemporanea/

      E aqui, alguns artigos interessantes com relação a musicalidade na dança:
      http://site.dancaempauta.com.br/a-importancia-da-escolha-do-repertorio-musical-no-ensino-da-danca-de-salao/
      http://site.dancaempauta.com.br/o-tempo-da-danca-e-a-danca-do-tempo/
      http://site.dancaempauta.com.br/a-vida-pede-pressa-e-a-danca/
      http://site.dancaempauta.com.br/escutando-sua-danca/
      http://site.dancaempauta.com.br/o-dialogo-entre-musica-e-danca-de-salao/

      Todos os textos tem referências bibliográficas, para fundamentar o conteúdo, que também podem te ajudar em seus estudos. Aproveitando, achei bem interessante estes dados que você apontou sobre a pouca identificação da população com a dança de salão, sempre achei que este fosse o gênero com que a grande maioria das pessoas mais se identificasse, exatamente por serem mais populares. Se puder, nos informe a fonte destes dados por email (contato@dancaempauta.com.br), pra gente fazer matéria sobre o assunto.

      abç e Feliz 2018! 😉

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