Colunas, Dança & Comportamento, Danças de Salão

Condução, diferentes possibilidades a cada dança

Quando estamos em um salão, vivendo a experiência única do abraço e da comunicação entre os entes que formam o par, a unidade da Dança de Salão, assumimos, querendo ou não, uma ideia sobre condução. Esta ideia define a natureza da comunicação que estabelecemos com nosso par. O momento em que vivemos uma dança em um salão é também um momento no qual optamos por uma forma de relacionamento definida pela escolha que fazemos por uma ou outra concepção sobre condução.

Nos dois últimos artigos discutimos aspectos de uma concepção histórica sobre condução. Particularmente vejo que esta concepção encerra extrema sofisticação de conexão, alto grau de complexidade do mecanismo de realização mútua e permite, conforme o contexto, absoluta sensualidade. Em suas características primogênitas, parece pouco explorada na atualidade.

Neste artigo, proponho a discussão de outras concepções, partindo de algumas experiências pessoais, de colegas e ideias registradas, visando apresentar um pequeno panorama sobre diferentes concepções que podem ser adotadas a cada dança.

No início da experimentação do papel de cavalheiro que conduz uma dama, foi inevitável questionar o conceito de condução associado as ações de comandar ou mandar. A ideia de que o cavalheiro mandava e a dama obedecia, sem nem ao menos poder recusar-se a dançar, era uma constante nas escolas de dança. Os raros materiais textuais da época seguiam a mesma linha. Jovem, inexperiente e com a sabedoria típica de uma pós-adolescente, cheguei a achar que precisávamos revolucionar a Dança de Salão. Afinal, as mulheres também deveriam ter direito a mandar. Sem dúvida era uma opinião pautada mais em um sentimento pueril ideologizado, reforçado por uma prática e ensino de relação corrompida entre cavalheiro e dama, do que em conhecimento histórico, técnico e artístico. Leitura, vivência e o tempo, cerca de vinte anos, fizeram seus papéis para que o entendimento sobre condução ganhasse outro patamar.

Assim, houve o momento no qual acreditei que uma mulher pudesse assumir a função de cavalheiro na dança e vice versa. E apesar da proibição desta conduta em muitos salões, com o tempo, aprendi que isto não era novidade. Até Henri de Toulouse Lautrec já havia produzido a obra “Deux femmes dansant au Mulin-Rouge” retratando esta situação, no ano de 1892. A obra localiza-se na Galeria Nacional de Praga.

Alternar quem conduz durante a dança, trocando-se os papéis de cavalheiro e de dama, o que inclui a mudança de postura, mostrou-se imediatamente viável, apesar da distinta compleição média dos corpos femininos e masculinos. Trocar de função na mesma dança exige permanente atenção durante toda a sua prática, afinal, a qualquer momento em que estamos conduzindo, nosso par pode assumir a condução, seja porque a entregamos, porque nosso par a pede e, cordialmente a devolvemos, ou porque seguimos determinada regra de troca para que a prática se viabilize sem cortes ou quebras de comunicação. Mal sabia eu, na época destas experimentações, que nos bailes homossexuais já se praticava alternância das funções do cavalheiro e da dama entre os dois componentes do par. Mais uma vez, nenhuma novidade.

Experiências com conduções simultâneas não deram frutos, foram semelhantes a duas pessoas falando ao mesmo tempo. Foi uma confusão na qual ambos “falavam cada vez mais alto” na tentativa de serem ouvidos. Por isto, não acredito na eficiência de propostas terminológicas que sugerem simultaneidade de conduções, mesmo sob outras interpretações. Mas isto não quer dizer que alguém, algum dia, não tenha sucesso ao estabelecer novas regras que viabilizem ambos do par conduzirem ao mesmo tempo.

Em determinado momento, acreditei que uma dama pudesse conduzir um cavalheiro, como dama, o que ia bem além de aproveitar todos os espaços possíveis para ela fazer o que quisesse sem atrapalhar o que fora proposto pelo cavalheiro. Conduções feitas pela dama pareceram experimentalmente viáveis em determinados momentos e sob regras claras de uso, muito embora, as referidas compleições médias dos corpos masculino e feminino aliadas a postura própria da Dança de Salão tenham se mostrado como fatores dificultadores para a dama conduzir o cavalheiro. Mas, o processo de ensino e aprendizagem, tanto para damas quanto para cavalheiros, superaria tal dificuldade. O maior problema neste momento era a resistência contra este tipo de ideia nas escolas e nos salões. De qualquer forma, parecia algo novo.

Ao longo do tempo foi possível amadurecer e publicar textos sobre determinadas concepções, algumas mais novas outras nem tanto, mas todas agregando diferenças em relação ao modelo histórico de condução. Vários outros autores propuseram abordagens interessantes e inovadoras para o estudo da condução como um todo, sabiamente, indo muito além de uma dança específica como modelo para uma generalização. Destaco para a finalidade deste artigo, Milton Saldanha, Leonor Costa, Sheila Santos e Míriam Medeiros Strack.

Assim, notamos a existência de diferentes concepções sobre condução, o que revela uma significativa diversidade. Abaixo apresento um apanhado destas concepções, que, naturalmente não deve ser dado por concluído, mas, pode auxiliar o início da construção de um elenco comparativo destas informações.

  • Concepção histórica: cavalheiro homem, aceito pela dama mulher que convida para dançar, tem como meio de atingir a própria realização, servir, atender cordialmente e satisfazer sua dama, precisando para tal, manter total atenção às reações dela, que por sua vez, são fundamentais para o estabelecimento da conexão (ver manuais de civilidade e livros de dança publicados mais intensamente no século XIX);
  • Concepção histórica alternada: Os papéis de dama e cavalheiro são iguais aos da Concepção histórica, porém, independem do sexo dos indivíduos que os assumem e podem se alternar entre os componentes do par, inclusive no decorrer da dança (ver artigo “Mulheres no comando da condução”, de Milton Saldanha);
  • Concepção histórica acentuada: Concepção histórica acrescida do silêncio na condução, momento em que o cavalheiro, ainda visando satisfazer sua dama, oferece à ela uma liberdade temporária maior para que produza os movimentos que deseja de forma mais livre (ver artigo “O diálogo dançante da dama contemporânea”, de Sheila Santos);
  • Concepção histórica ampliada: o cavalheiro é o condutor preponderante e a dama, sem sair de seu papel, pode propor conduções para o cavalheiro (ver artigo “E se as damas conduzissem?, de Maristela Zamoner);
  • Concepção corrompida: cavalheiro manda, dama obedece e não pode nem recusar a dança (ensino em várias escolas e materiais textuais produzidos principalmente a partir do século XX);
  • Concepção revolucionária: dissolução da condução (ver monografia de Míriam Medeiros Strack).

Um artigo que vale a pena ser lido para ampliar nossa visão sobre a condução é “A dança de salão é um jogo”, de Leonor Costa, publicado em 2008 no Jornal Falando de Dança. Então, apenas como forma de exercício, lembremos que a dama do jogo de Xadrez é mais poderosa que o rei e os demais componentes do jogo. São peças de um jogo e não pessoas. São funções e não indivíduos. Quando movimento a dama do Xadrez, assumo a função da dama. Quando movimento o rei, assumo a função do rei e assim por diante. Igualar as funções das peças, como se assim fosse feita uma justiça não demandada para a existência do jogo, faz com que deixe de ser o milenar Xadrez que atravessou tantas gerações. Isto não tem nada de ruim, pelo contrário, diversifica possibilidades, traz algo diferente, propõe um novo jogo, que, naturalmente merecerá também um novo nome, posto que deixará de ser o Xadrez.

Da mesma forma as funções históricas de damas e cavalheiros na Dança de Salão podem ser rediscutidas trazendo diversidade para a Dança de Salão e talvez até figurando como o processo embrionário do surgimento de outras modalidades de dança.

Não sabemos o que nos reserva o futuro no território da condução. Mas, é fato que temos evoluído, se não por reconhecer concepções corrompidas ao resgatarmos princípios históricos, por termos coragem de reinventá-las de variadas formas.

Imagens: Daniel Tortora/Dança em Pauta e Banco de Imagens

Veja também:

SUGESTÕES DE LEITURA:

  • Blasis, Carlo. Nouveau manuel complet de la danse, Traité théorique et pratique de cet art depuis les temps les plus reculés jusqu´à nos jours. Paris. Paris Librairie Encyclopédique de Roret Dole Typ. Ch. Bind. 1866.
  • Costa, Leonor. A dança de salão é um jogo. E a condução é pressuposto necessário para que esse jogo funcione. Rio de Janeiro. Jornal Falando de Dança. Fevereiro de 2008.
  • Feitoza, Jonas Karlos S. Cocondução: procedimento corporal de comunicação relacional nas Danças de Salão. In: Perna, Marco Antonio [org]. 200 anos de Dança de Salão. Volume 2. Amaragão Edições de Periódicos. Rio de Janeiro. 2012.
  • Massena, Mariana. A sedução do brasileiro: Um estudo antropológico sobre a dança de salão. Dissertação de mestrado. Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2006.
  • Patricio, Alvaro Dias. Novíssimo e completo Manual de Dança, Tratado Theorico e Pratico das Danças de Sociedade. Rio de Janeiro. B. L. Garnier, Livreiro – Editor. 1890.
  • Saldanha, Milton. Mulheres no comando da condução. São Paulo. Jornal Dance. Junho de 2006.
  • Santos, Sheila. O diálogo dançante da dama contemporânea. Revista Dança em Pauta. 20 de maio de 2013. Disponível em:http://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/o-dialogo-dancante-da-dama-contemporanea/. Acesso em 21 de maio de 2013.
  • Strack, Míriam Medeiros. Dama ativa e comunicação entre o casal na dança de salão: uma abordagem prática. Monografia. Especialização em Teoria e Movimento da Dança com Ênfase em Danças de Salão da Faculdade Metropolitana de Curitiba. 2013.
  • Tonial, Tiago. Dança de Salão e lazer na sociedade contemporânea: um estudo sobre academias de Belo Horizonte. Dissertação de mestrado. Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Universidade Federal de Minas Gerais. 2011.
  • Zamoner, Maristela. E se as damas conduzissem? Curitiba. Revista Dança em Pauta. 14 de março de 2011. Disponível em: http://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/e-se-as-damas-conduzissem/. Acesso em 13 de agosto de 2013.
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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

4 Comments

  1. Otimo artigo, outro dia ouvi a seguinte frase : Precisamos começar a pensar na dança de salão, nao em uma dança em que duas pessoas dancem, cada uma em seu papel, mas sim em uma fusão de dois corpos que passam a se tornar apenas um corpo de dança.

  2. Tudo depende do ponto de vista!!!
    Na dança, se formos analisar por outro ângulo, o cavalheiro propõe o que só a dama consegue fazer de forma bem peculiar, que é desenvolver a dança e finalizar com estilo! A mulher desenvolve a dança, ela quem da elegância e beleza a dança, nisto o cavalheiro a apoia com sua força, onde ele oferece auxílio propondo para a mulher os passos, e se ela quiser ela irá desenvolver tendo ali um apoio gentil de um cavalheiro! É um contato recíproco, onde ela se diverte sabendo que poderá realizar certos passos onde a mesma sinta segurança de desenvolver. A dama precisa do auxílio do cavalheiro para alcançar seu principal objetivo, ser majestosa em passos onde só podemos realizar se tivermos o apoio e segurança de um cavalheiro!! ele por sua vez prestará este auxílio, sabendo que se deleitará em ver os passos e a arte do corpo da mulher. Na dança o corpo da dama recita um poema, e todo o cavalheiro se sente privilegiado em poder contribuir para que este poema seja recitado com perfeição!!!

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