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Comportamento de risco na Dança de Salão

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Recentemente vimos pelos noticiários nacionais, e até internacionais, o caso de um garoto de 11 anos que transpôs a primeira barreira de segurança da jaula de um tigre em um Zoológico de Cascavel, no interior do Paraná, e, em seguida, começou a invadir com mãos e braços a segunda barreira de segurança para provocar insistentemente o felino. O animal acabou reagindo contra o garoto, dilacerando um de seus braços que, por fim, precisou ser amputado.

Não faltam situações na história da humanidade de pessoas que foram atacadas por felinos depois de desrespeitar normas de segurança conhecidas. O histórico consolida um comportamento como de risco, já que outras pessoas agiram da mesma forma no passado e o resultado foi um dano. O citado episódio reabriu discussões sobre segurança, finalidade dos zoológicos e conduta educacional.

Ressalvadas as diferenças, a Dança de Salão não foge deste padrão de aprendizado humano. É conveniente considerar que está tudo bem, mas cedo ou tarde ocorre um caso que denuncia hábitos perigosos e alerta para seus prejuízos. Lesões não são novidade na vivência da Dança de Salão e, mesmo existindo recomendações de segurança, há pessoas que optam pelo comportamento de risco. Ao serem alertadas, algumas contestam, minimizam, criticam, justificam, ignoram, outras ridicularizam, e agravos físicos seguem ocorrendo.

Ao final deste artigo, apresento um breve histórico de registros textuais sobre casos de danos físicos ocorridos durante a prática da Dança de Salão. Este histórico revela que é bem conhecida a possibilidade de se machucar nesta prática, pois a recorrência de casos denuncia comportamentos de risco. A Dança de Salão, por si, é atividade artística e ao mesmo tempo de lazer social, nada justifica que imponha qualquer risco à integridade física de seus praticantes. Por isto, coloco aqui em discussão algumas possíveis razões para que, mesmo havendo conhecimento disponível, pessoas continuem se ferindo.

Nesta vertente, penso inicialmente em duas razões, passíveis de interconexão, que aqui chamarei de complexo pessoal de sensações e relação individual com o conhecimento. Não são as únicas, sem dúvida, mas serão o foco neste momento.

A primeira razão que aponto, o complexo pessoal de sensações, é, aqui, a forma com que cada um sente os eventos que transcorrem ao longo da vida. Um evento que para uma pessoa é extremamente marcante e provoca emoções prazerosas, para outra pode não ter significado algum ou até mesmo ser desagradável. Todos buscamos sentir prazer ao dançar. Alguns perdem de vista que precisamos conhecer e respeitar as fronteiras salutares para esta busca, tanto físicas como psicológicas. Mas enquanto uns estão dispostos a adotar comportamentos de risco para atender seus desejos, outros não estão. Assim, o que algumas pessoas sentem e almejam sentir dançando pode afetar a responsabilidade com que o fazem. Isto implica não só nas sensações proporcionadas pela dança em si, mas, no caso da Dança de Salão mais especificamente, também na relação estabelecida com o par, na forma de conhecer e respeitar seus limites e desejos. Qualquer abuso que pode trazer consequências deletérias precisa ser identificado e coibido. Este fator do complexo pessoal de sensações tem intrínseca relação com o amor próprio e com o respeito pelo par.

A relação individual com o conhecimento, aqui, é a forma com que cada um lida com os saberes já produzidos pela humanidade. Diz respeito a maneira como conduzimos nossa história de vida para construir e articular o acervo próprio de conteúdos. Não me refiro apenas ao simplismo de um diploma que obtemos em um momento pontual de nossas vidas. Educação formal é importante, conforme o caso é uma exigência básica a ser cumprida, pertinente especialmente a quem atua profissionalmente. Entretanto, pouco adianta cursar uma graduação ou pós-graduação, pendurar o diploma na parede para que todos possam ver e se comportar como se a tarefa estanque da aquisição de conhecimento estivesse finalizada. Pesa aqui, efetivamente, o que estamos dispostos a fazer para aprender, o nível individual de necessidade por obtenção de conhecimento e também a importância que damos ao saber acessado. A leitura, plena, é parte deste contexto, é um dos mais valiosos caminhos até o conhecimento que, hoje, está facilmente acessível, diferente da realidade de alguns anos passados. Acredito que se não temos tempo para ler, precisamos rever nossas vidas. É difícil conceber exercício pleno de cidadania sem leitura. Uma vez que qualquer risco já tenha sido detectado, professores, treinadores, monitores, instrutores, dançarinos, meros praticantes sociais e parceiros serão beneficiados ao buscar o saber constantemente, se apropriando dele e trazendo-o para prática. Cada dia é menos justificável que alguém se machuque praticando Dança de Salão por desconhecer riscos cujos registros podem ser lidos por qualquer pessoa.

Neste contexto, cabe notar que existem indivíduos com capacidade de leitura e compreensão, com condição de acessar o conhecimento, mas com dificuldade para assimilar sua importância. Vejo que ter a capacidade de entender determinado conteúdo lido sem distorcê-lo e não conseguir compreender a importância de trazê-lo à prática pode ser uma forma sofisticada de analfabetismo. Não são poucos os casos de pessoas que tem contato com o saber e por algum mecanismo particular interpretam-no atribuindo importância menor do que de fato tem, justificando, assim, condutas insalubres que por fim servem apenas para dar vasão à necessidades emocionais de outra ordem.

O entendimento sobre a própria condição física também é parte do conhecimento que se adquire, neste caso, sobre si mesmo. É válido tentar entender nosso próprio corpo, o que implica até em nossa história familiar, para que possamos respeitá-lo em suas peculiaridades e, principalmente, possíveis vulnerabilidades. Aqui, é indispensável a inclusão do profissional de saúde, dos exames periódicos e das ações imprescindíveis à manutenção do bom funcionamento do organismo como um todo.

É também pela forma que nos relacionamos com o conhecimento que assimilamos, ou não, as mais variadas ideias sobre o fenômeno da condução. Concepção de condução é algo que já foi discutido aqui na Revista Dança em Pauta com razoável profundidade, estando intimamente relacionada a capacidade de respeito próprio e entre os polos do par praticante da Dança de Salão.

É tempo de fazermos uma Dança de Salão que proteja nossos corpos, favoreça nossas mentes e nos oportunize décadas de prática salubre. É tempo de termos damas que entendem e exigem concepções harmônicas de condução limitando o espaço de cavalheiros descompensados. É tempo de termos, nas pistas e nos espaços da vida, cavalheiros com conhecimento suficiente para entender a relevância histórica e prática de satisfazer sua dama. Estes cavalheiros têm profundidade e são conscientes dos riscos de se perderem pelo desejo fútil e perigoso de saciarem seus próprios caprichos forçando, além dos limites, o corpo e a essência de uma dama.

Quando as pessoas que fazem a Dança de Salão conseguirem adquirir, assimilar, respeitar e trazer para a prática o conhecimento consistente que existe, os relatos de lesões devem diminuir e, talvez até, desaparecer.

Clique aqui e confira alguns recortes históricos que, em conjunto, delatam a existência atual do comportamento de risco.

 

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

1 Comment

  1. Gostei bastante do que foi dissertado aqui, essa auto-consciência, não só do corpo mas, de tudo que envolve dançar a dois é muito importante. Um dia agente chega lá!! 😉

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