Colunas, Dança & Saúde

Com que salto eu vou?

Diante da grande procura por informações sobre calçados para dança de salão no site da Dança em Pauta, optamos por voltar ao tema, aprofundando um aspecto muito relevante: o uso de salto alto.

O significado dos sapatos de salto alto no universo feminino já foi objeto de interessantes colocações na sociedade contemporânea. “Não sei quem inventou o salto alto, mas todos os homens devem muito a ele”, disse Marilyn Monroe há mais de 40 anos. Sarah Jessica Parker, ícone de moda e cinema, pontuou: “A expressão de uma mulher de salto alto é diferente daquela de uma mulher com salto rasteiro”. Paola Jacobbi, no interessante livro “Eu quero aquele sapato!”, julga que “o sapato de salto alto é o objeto que mais diferencia os homens e as mulheres de nossa espécie”. E Marcel Danesi, em sua obra literária “Of cigarettes, high heels and other interesting things…”, utiliza expressões como “deliciosa tortura” e “eroticamente excitante” para ilustrar a gama de emoções envolvidas no uso deste utensílio. Bem, ainda que seja um tema fascinante, é mais prudente deixarmos a cargo de antropólogos, sociólogos, psicólogos, estudiosos de semiótica e outros mais credenciados o aprofundamento deste aspecto.

O que queremos neste artigo é chamar a atenção para o quanto tornamos os sapatos de salto alto um acessório indispensável para a prática da dança de salão e, a partir disto, as consequências para nossa saúde e nossa técnica de dança. Que altura de salto escolher para cada prática e ocasião de dança?

Cada tipo de salto tem particularidades geométricas, determinando a maneira como a biomecânica do pé vai se comportar. Ou seja, conforme o formato do salto, ele vai permitir ou atrapalhar o movimento adequado das articulações, e também o equilíbrio. Veja alguns tipos de saltos de sapatos bastante comuns no mercado nacional:

Sabemos que o pé deve ter um contato firme e muito bem articulado com o piso, tocando ou afastando-se do chão com sutileza e sequenciamento. Em linguagem figurada, dizemos que o pé deve “lamber o chão”, e não mover-se “em bloco”. Daí já fica evidente a importância do salto para atender estes requisitos. Os saltos plataforma, os geométricos e outros mais exóticos são, por este motivo, considerados inadequados para a prática de dança de salão.

Veja (com bom humor) as imagens abaixo, que dispensam comentários!

O salto robusto, com a base larga, o salto cone e o salto carretel, todos até 5 cm, são muito comuns nos sapatos vendidos especificamente para a prática de dança de salão. Abaixo, observe dois modelos com salto carretel, ambos adequados para a prática de dança de salão, e também exemplos dos outros saltos.

Salto Carretel

A esquerda sapato de marca específica para dança e a direita sapato de loja convencional com características apropriadas para dança.

Salto Robusto

Salto Cone

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Salto Anabela

O salto anabela é muitas vezes confundido com o salto plataforma, mas – atenção! – eles não são iguais. O anabela permite a adequada articulação dos artelhos (dedos dos pés) porque não apresenta a elevação característica da plataforma no antepé (parte da frente dos pés). Além disto, a base do salto é mais extensa e larga, proporcionando maior equilíbrio. Se não for maior que 5 cm, pode ser uma ótima opção para dançar, conforme ilustram os modelos abaixo:

Salto vírgula

O salto vírgula também é uma boa opção em alturas moderadas. Ele pode dar a impressão visual de um salto agulha, mas alarga levemente a base do salto, proporcionando maior estabilidade.

Em alguns ritmos, a técnica e o próprio estilo exigem determinada altura de salto. O tango, por exemplo, está fortemente ligado à imagem do salto agulha, havendo inclusive detalhes de técnica feminina (“adornos”) que são executados em função do salto do sapato. Entretanto, é comum vermos, em Buenos Aires, professoras de tango que optam por sapatos de estudo para dar aulas. Está correto, devido à grande carga horária de trabalho; assim, preservam a saúde de todo o sistema articular. Há marcas conhecidas que fabricam estes sapatos, semelhantes a tênis, com sola flexível em camurça, e saltos até 4 cm. Mas também já presenciamos a professora e bailarina Dana (da dupla Pablo e Dana) ministrar aula calçando sandálias de praia (tipo havaianas), em plástico transparente com um pequeno salto, em perfeita execução de seu estilo de tango!

Salto Agulha

Para dançar bem em salto agulha é necessária uma técnica apurada. Não apenas o pé, mas todo o alinhamento corporal deve estar correto; abdome tônico, manutenção da curva lombar natural (e não exagerada), alongamento de toda a musculatura posterior da coxa e panturrilha são essenciais. Dançar bem em saltos altos é tão difícil quanto dançar em sapatilhas de pontas!

Sapatilhas

Já ritmos como o zouk e o forró pedem, tradicionalmente, sapatos ou sandálias de saltos baixos e até rasteirinhas, desde que bem presas aos pés. Além da questão de estilo, o tipo de movimento desenvolvido se beneficia com a maior estabilidade plantar no piso. É bastante difícil, e até insalubre para a coluna, executar as tortuosidades do zouk em saltos altos. Veja abaixo alguns modelos de sapatilhas e tênis específicos para dança disponíveis no mercado nacional:

E botas? Bem, além da questão do salto, cabe lembrar também a menor mobilidade de tornozelo, dependendo da altura do cano da bota. Prefira as de couro macio, salto adequado e que não apertem a panturrilha, se optar por dançar de botas em uma festa.

Não podemos deixar de mencionar algo sobre sapatos de plástico, muito em moda atualmente, com modelos aparentemente adequados para dançar: saltos moderados, tiras sobre o dorso dos pés, tipo “boneca”. Contudo, não são específicos para a prática continuada de movimento, podendo gerar instabilidade e umidade excessiva com a sudorese dos pés.

E para explorar bem o leque de opções, já temos disponíveis modelos de sapatos que permitem a troca do salto. Ao optar por este tipo para dançar, prove movendo-se, e certifique-se da estabilidade do calçado no pé.

A grande dificuldade de escolher parece ser realmente nas festas de dança de salão, em que haverá músicas de diversos ritmos, e para cada uma preferiríamos estar com um salto diferente. Minha sugestão é o meio-termo: nem agulha, nem rasteiro. Prefira um salto robusto, cone, vírgula, carretel ou anabela, até 5 cm. A diversão é certa, sem riscos de tombos na pista!

Enfim, procuramos fazer um elenco de opções, que limitam-se a ser sugestões. Cada bailarina fará sua escolha, baseada em características pessoais (biotipo, estilo), ambiente e ocasião. Mas deve estar sempre consciente de que há sutis diferenças de técnica ao usar diferentes alturas de saltos, que podem interferir na sua saúde e na harmonia de movimento com o parceiro.

Acima de tudo pratique com boa orientação e busque o autoconhecimento para, aos poucos, fazer suas próprias (boas) escolhas. Esteja à altura do seu salto e dance para sempre!

Outros textos sobre o tema:
Como escolher sapatos para dança de salão
A pisada masculina na dança de salão


LEITURAS RECOMENDADAS: 

– DANESI, MARCEL. Of cigarettes, high heels and other interesting things: an introduction to semiotics. New York; St. Martin’s Press, 2008. 215 p.
– JACOBBI, PAOLA. Eu quero aquele sapato! – Tudo sobre uma obsessão feminina. Ed. Objetiva, 2005. 136 p.
– JUNIOR. A., SILVA. A., FREITAS. T. Biomecanica da marcha e da postura com calçado de salto alto / Biomechanics of gait and posture with high heels shoes. Fisioter. Bras. 5(3):183-187, mai.-jun. 2004. graf.
– SANTOS, C. L., et al. Repercussões biomecânicas do uso de salto alto na cinemática da marcha: um estudo retrospectivo de 1990 a 2007. Revista de Educacao Fisica 2008;143:47-53. Rio de Janeiro (RJ) – Brasil.

http://www.salto15.com.br/como-escolher-sapatos-com-salto-superior-15cm.php 

http://vilamulher.terra.com.br/tipos-de-saltosparte-2-9-7073857-2841-pfi-cassiastana.php

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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

4 Comments

  1. Fico feliz por encontrar um texto desta categoria -claro, objetivo, bem elaborado, com fotografias ilustrativas, referências bibliográficas e leituras complementares sugeridas – direcionado ao público leigo. Obrigada!

  2. achei muito util, eu pelam idade tenho dificuldade em encontrar sapatos principalmente bonitos para sair a noite dançar ( treinar) e achei algunas dos seus bem bonitos. vc pode me dar dicar de onde comprar ops sapatos?? prefiro ou ir a loja ou fazer sob encomenda.
    grata

  3. Tirei minhas duvidas, faco aula de danca de saao e agora ja sei como coprar meu primeiro sapato de danca, ha e tbm sei como cuidar dele e dos meus pes . Mto obrigado pelasdicas.abc.

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