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Coisa de Pele

Existe na dança a dois um componente que vai além da técnica da dança de salão. É uma química, uma coisa de pele que faz com que rapidamente estejamos harmônicos e empáticos com alguns de nossos pares e com outros não. A coisa mais comum é escutarmos comentários de amigos dizendo que adoram dançar com determinada pessoa que, para nós, não é uma experiência tão boa, e vice-versa.

Um fato corriqueiro nos salões de baile e aulas de dança de salão é quando olhamos para uma dama ou cavalheiro e nos encantamos com sua dança, admiramos por um tempo a forma daquela pessoa se movimentar e surge o desejo de experimentar um par de músicas com aquele alguém. Enchemos-nos de coragem e chamamos a pessoa para a pista, ou mesmo para fazer uma aula, e, para a nossa surpresa, no final das contas, a experiência com o admirado parceiro não é tão boa. Outras vezes, acontece justamente o inverso, pensamos que não será bacana a experiência de dançar com determinada pessoa e, ao final, o resultado é delicioso. Normalmente, tais situações até independem do nível técnico dos parceiros em questão.

A partir dessa percepção, vamos montando nossas “listas” de preferidos para dançar nos bailes e fazer as aulas, pois, independente do motivo que nos leva a pratica cotidiana da dança de salão, o prazer tem que ser algo a se encontrar quando, juntos, realizamos nossas piruetas por aí.

Entendido o assunto, vamos falar sobre algumas repercussões dele. Primeiro, temos que entender que isto é comum e normal, que não somos nem melhores nem piores dançarinos por existirem alguns pares que não nos completam bem. Porém, também é necessário saber que, quando tratamos do assunto dança de salão, nos referimos a um ambiente social, então teremos que conviver com estas situações no nosso cotidiano relacionado a prática da dança a dois. Quando digo “estas situações”, deixo subentendido que elas envolvem o ato de dançar com estas pessoas, por algumas vezes.

Certamente na aula de dança, ou mesmo num baile, uma destas pessoas com as quais não temos uma sintonia natural irá nos convidar para dançar. Alguns, ao receber este convite, o aceitam educadamente e tentam, durante a dança, desenvolver a maior cumplicidade possível, procurando se harmonizar com o par e transformar aquilo que naturalmente poderia não ser muito prazeroso, em algo agradável. Com tal atitude, aliada a técnica de dançar a dois, conseguimos, muitas vezes, reverter nossa visão de falta de afinidade ao dançarmos com determinado parceiro. Não resta dúvida que uma pessoa mais preparada e experiente em dança de salão, terá mais facilidade em gerar empatia e cumplicidade com seu par.

O nervosismo, a timidez ou um dia conturbado, podem ser fatores que atrapalham a harmonia e sintonia de uma primeira experiência dançando com o novo par. Assim, temos a obrigação de tentarmos, pelo menos mais uma vez, em outro dia, uma nova dança com este que foi seu parceiro.

Para muitos, um dos principais motivos de praticar dança de salão é conseguir aliar uma atividade física prazerosa com a interação que a mesma propicia. Então, nada melhor do que ampliarmos nossa “lista” de preferidos e conseguirmos nos relacionar bem, dançando com o maior número de pessoas possível. Com frequência, casais de namorados ou cônjuges, chegam às aulas de dança não aceitando dançar com outras pessoas que não os seus homens ou mulheres. Porém, depois de um tempo de vivência no ambiente da dança de salão, fazem novos amigos e entendem o quão saudável e importante é dançar com outros pares. Os avanços em técnicas de condução e resposta, criatividade e musicalidade, são enormes quando variamos nossos parceiros de dança, sem contar na adaptabilidade, fundamental para a dança de salão, quando vista de maneira social.

Com o passar do tempo, ficamos mais rápidos em nos adaptar com novos pares, pois, como tudo na vida, é a prática que nos desenvolverá em nossas habilidades. Desta forma, é bom estar atento e nos aproximar daqueles que temos afinidade natural para dançar, mas também vale a pena o desafio de conseguir isso com aqueles em que essa coisa de pele não é tão imediata. Já vivenciei isso muitas vezes, com alunas e até mesmo parceiras de companhia de dança, e, acreditem, o desenvolvimento dessa afinidade é muito prazerosa e consolida laços de afeto e amizade que nos trazem muitas energias boas.

Então, aqui fica a sugestão e o desafio: que tal em nossa próxima oportunidade, seja num baile ou aula, dançar com uma pessoa diferente e, independente da impressão inicial, terminar a dança com uma sintonia maior do que no início? Aguardo os depoimentos dos corajosos!

Fotos: Daniel Tortora/Dança em Pauta e banco de imagens

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Dançarino, coreógrafo e professor de dança de salão, coordena o curso de capacitação para professores de dança de salão, certificado pela Faculdade da Serra Gaúcha (FSG/RS) e pela Faculdade SPEI, de Curitiba.

10 Comments

  1. Prá variar um pouco, texto explêndido, fala de maneira direta de uma das maiores conquistas da dança de salão, a harmonia entre os casais, como professor, sempre procuro incentivar os cavalheiros a aceitarem o desafio e dançarem com quem ainda não tiveram esta experiência e às damas que sejam receptivas, mesmo que a primeira impressão não seja a melhor. Como praticante há mais de 20 anos, afirmo que o resultado de parcerias diferentes é sempre muito proveitoso e dificilmente não me harmonizo com uma nova parceria, a variedade nos aperfeiçoa cada vez mais. Um grande abraço.

  2. Muito bom o texto professor Cristóvão. É muito bom dançar com quem a gente tem afinidade, mas também, é desafiante dançar com pessoas com quem não temos tanta química ou que ao menos nunca dançamos. A dança de salão desperta imensas sensações de satisfação ou insatisfação em quem dança. Vejo que cabe a cada um de nós sermos mais flexíveis com relação às pessoas com as quais não temos química para dançar. Pode ser um determinado ritmo ou uma determinada música que não nos satisfaz ou não estimula “aquela” química com determinado parceiro. Amo muito dançar com minha namorada e gosto muito de dançar com outras damas com as quais tenho afinidade na dança, mas como o professor mencionou no texto, desenvolver dessa afinidade nos dá um enorme prazer e fortalece bastante os laços de afeto e amizade.

  3. Parabéns Cristovao Christianis, seu ótimo texto vai ser muito bom para a dança de salão em geral… este é um ponto complicado de se tocar nas aulas quando simples mortais como nós tentam explicar (rsrs), mas vindo de você é mas fácil das pessoas entenderem =D

    Obrigado mais uma vez!

  4. Como estou dançando a pouco tempo, essas matérias tem sido meu combustível para continuar firme enfrentando os desafios.
    Um forte abraço e muito obrigado!

  5. Adorei o texto! Muito bom mesmo!! A propósito, outra coisa que influencia na qualidade e prazer da dança é a música que vc dança com o parceiro. Pode não dar sorte de pegar uma música pra qual vc ou seu parceiro estesteja melhor preparada. Talvez seja muito rápida, ou muito lenta, ou com batidas de acentuação e marcação diferentes das que vc conhece e domina (ou o seu parceiro). Ou seja, quando aquela música mudar, a química que parecia impossível, ou inviável, pode por surpresa aparecer! Experimente!! 🙂

  6. Aiiii, acabei de descobrir o site e vcs não imaginam a saudade que me deu de fazer aula de dança de salão depois de ler este texto………………….. Bom demais dançar com alguém e sentir esta química… Pra entenderem o quanto mexeu comigo, acabei de ligar pra 3 escolas aqui em são paulo pra pesquisar preço e horário… Demorou!! Dança de Salão tô de volta na área! Desejo muito sucesso pra vcs e que continuem produzindo matérias sobre dança de salão pra nós apaixonados por dançar agarradinho!
    beijos
    Sissi

  7. Admito que sou um tanto resistente sobre dançar com cavalheiros com quem já tive uma experiência anterior ruim. Também tem aqueles que a gente bate o olho e não inspiram confiança; aqueles que logo que abraçam p/ começar a dança, na primeira pegada, já percebemos que não tem pegada; aqueles que seguram demais, os que seguram de menos… Enfim, os problemas são muitos, mas depois de ler este texto ficou mais claro pra mim que o segurar de mais ou de menos, a falta ou o excesso de confiança, entre outros, tudo isso tem a ver com a química, ou seja, o cavalheiro tb pode estar pensando o mesmo de mim.
    Vou procurar fazer o que vcs recomendam, tomar coragem, abrir a mente, e entrar de corpo e alma, sem restrições, na próxima vez que for dançar com um parceiro onde a química não brota naturalmente… Não sei se vai dar certo, mas acredito que a sensação de realização se eu conseguir será absurdamente boa!!

    Grande abraço a toda a equipe da revista Dança em Pauta, sou super fã de vcs!!!

  8. Fato, é impressionante como ambas a situações acontecem mesmo, as vezes no mesmo dia, baile ou aula é realmente muito prazerosa esta experiencia a de tentar mais de uma vez com a mesma pessoa em outra oportunidade tambem. É muitas vezes um resultado mais que prazeroso, pois na maioria das vezes saio pensando será que sou eu o que eu posso ter feito de errado para a dança não ter fluido entre a gente, eu só me convenço ao tentar denovo e ai vem o entendimento do outro que as vezes é simples basta nos envolvermos mais deixar que a dança flua de forma natural que mesmo nao sendo harmonica a principio será prazerosa tenho certeza!!! Simplificando se dar a oportunidade de conhecer outras pessoas e a forma como elas interpretam a dança é a meu ver indispensavel para a minha própia evolução como dançarino!! Obrigado por me proporcionar uma leitura tão agradavel Prof. Cristovão abraço!!

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