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Chiclete X Mau hálito na dança de salão

Mascar chicletes durante aulas de dança sempre foi um hábito condenado, tanto por riscos à saúde quanto por questões de etiqueta e comportamento. Mas na dança de salão há uma particularidade: se vamos dançar próximos a um parceiro, não devemos estar com bom hálito? Não seria permitido, ou até recomendado, mascar chicletes?

Devemos perceber que a halitose (“mau hálito”) é um sintoma e pode significar que algo anda mal na saúde do portador. Mascar chicletes, balas, usar sprays ou qualquer outro subterfúgio que não vise reconhecer e tratar o problema pode ser uma solução temporária, e inadequada.

Uma halitose leve e fugaz pode ocorrer devido a variações da nossa rotina diária (horário, ciclos hormonais, estado de hidratação e alimentação, etc), e ser considerada normal, ou “fisiológica”. Um jejum maior que 4 horas pode gerar compostos químicos que são eliminados nos gases expiratórios, com um odor parecido ao da acetona. Algumas pessoas têm particularidades anatômicas, como língua saburrosa ou amígdalas crípticas, em que o relevo destas estruturas apresenta fendas ou orifícios, e favorece o acúmulo de alimentos, células descamadas, etc. O uso de aparelhos ortodônticos ou próteses de material poroso também favorece o acúmulo deste tipo de resíduo. É fundamental garantir uma boa escovação, não apenas dos dentes, mas também da língua, das bochechas, das gengivas e do palato. Usar fio dental e enxaguatórios melhora muito a eficácia deste ato tão importante que deve ser realizado várias vezes ao dia.

Mas também há situações em que a halitose é um alarme para doenças sistêmicas, ou seja, do organismo como um todo. Ela pode ser causada por doenças dos rins, do estômago, dos intestinos, dos pulmões, do fígado ou do sistema metabólico, que através de mecanismos bioquímicos alterados acabam produzindo compostos geradores de odor. Infecções da boca e vias respiratórias superiores, como faringites, sinusites, gengivites, cáries e micoses orais são frequentes causadoras de odores desagradáveis. O tabagismo, além de ser prejudicial a inúmeros aspectos da saúde, é um importante fator de risco para a halitose. E quem usa medicamentos que tem como efeito adverso deixar a boca seca (antidepressivos, anti-hipertensivos, relaxantes musculares e outros) também fica mais propenso a produzir odores na boca.

Algumas pessoas tentam medidas caseiras como sal de cozinha, cebola, pedaços de algas marinhas, cravo, canela e fumo, mas não há comprovação científica de seu benefício, e ainda podem ressecar ou machucar a mucosa bucal. O mais correto é manter a revisão de saúde em dia, tanto no aspecto clínico geral, quanto no específico. Os profissionais habilitados para cuidar da saúde bucal são os odontólogos ou estomatologistas (do grego estomato, que significa boca), podendo ser necessária também a avaliação do médico otorrinolaringologista.

É curioso observar, em várias fontes informais, que o hábito de mascar chicletes não é bem visto na dança de salão. Assim é também em vários esportes, onde esta prática é proibida pelos professores. É claro que as normas sociais evoluíram muito, estão mais abertas à espontaneidade, mantendo-se a essência da “etiqueta” que é o binômio respeitar-ser respeitado. Entretanto, não é apenas pelo ruído desagradável ou pelo mascar com a boca aberta que os chicletes são rejeitados nas atividades físicas. Há um motivo muito razoável para isto: a saúde de quem masca pode estar em jogo. Durante a prática corporal, nossa respiração fica mais acelerada, garantindo a entrada de oxigênio para ser usado por todo o processo de gasto energético. A presença de um corpo estranho não dissolvível na cavidade bucal (como a goma de mascar) aumenta o risco de asfixia. Parece raro? Pode ser, mas o risco não deve ser subestimado.

Em 2009, o jogador de futebol Aloísio, do Vasco da Gama sofreu uma asfixia ao participar de uma partida oficial mascando chicletes. Recuperou-se, mas garante: “Chicletes, nunca mais!”. Em 2005, um maratonista mexicano, Cuauhtémoc Larriba, faleceu durante a prova, asfixiado com uma goma de mascar. Além disto, há farta bibliografia científica demonstrando os prejuízos para a mastigação e o aumento da incidência de cáries dentárias, quando a goma for açucarada.

Então, vão aí algumas dicas para chegar na aula ou no baile sem precisar mascar chicletes:

  • Mantenha sua revisão clínica e odontológica em dia;
  • Evite dançar em jejum prolongado. Pouco antes da aula ou do baile, faça um lanche ou refeição leve, mas não esqueça que alguns alimentos ou bebidas podem provocar halitose. Se comer cebola, alho, ou ingerir bebidas alcoólicas, talvez você não seja o/a parceiro/a preferido/a do baile…
  • A escovação diária é uma recomendação óbvia, incluindo bochechas, língua, gengiva e palato (“céu da boca”). Antes da aula de dança é um momento em que não se deve esquecer de escovar os dentes;
  • Beba muita água; estar hidratado é uma das medidas mais eficazes para evitar a halitose (veja o artigo de março desta coluna);
  • Enfim, para aqueles que sentem-se mais seguros usando chicletes ou antissépticos há uma opção bastante razoável no mercado, atualmente. São as lâminas bucais refrescantes, feitas de gelatina e sem adição de açúcar. Em contato com a saliva, elas dissolvem rapidamente ou ficam aderidas ao palato por alguns instantes, sem necessidade de mascar. São facilmente encontradas no comércio em diferentes sabores. Mas não esqueça: seu uso não dispensa os cuidados anteriores!

Leitura recomendada:

  • BOSY A. Oral malodor: philosophical and practical aspects. J Can Dent Assoc; 63(3): 196-201, 1997 Mar.
  • FARELLA M, et al. Cardiovascular responses in humans to experimental chewing of gums of different consistencies. Arch Oral Biol; 1999 Oct;44(10):835-42.
  • FONTANA GA, et al. Changes in respiratory activity induced by mastication in humans. J Appl Physiol;. 1992 Feb;72(2):779-86.
  • PAINTER R., CUNNINGHAM DJ. Analyses of human respiratory flow patterns. Respir Physiol; 87(3): 293-307, 1992 Mar.
  • YAEGAKI K, et al. Tongue brushing and mouth rinsing as basic treatment measures for halitosis. Int Dent J; 52 Suppl 3: 192-6, 2002 Jun.
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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

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