Colunas, Dança & Comportamento, Danças de Salão

Cavalheiros são veículos

Fotos: Daniel Tortora

Já experimentei uma variedade enorme de transportes: patins, skate, patinete, carrinho de bebê, montanha russa, cavalo, burro, charrete, elevador, caminhão, bicicleta, moto, barco, bote, balsa, prancha, avião, trem, ônibus, Fusca, Mercedes, BMW, Ferrari… bem, este último eu imaginei como seria. Mas, seja como for, acabei conhecendo muitos meios de transporte e notei que cada um tem a sua particularidade. Até veículos de iguais anos, modelos, marcas, cores, são diferentes, cada um é um, com suas individualidades, como os cavalheiros em um salão de dança.

Meu primeiro carro, se assim posso chamar, foi um fusca 69, vermelho, ou multicolor, em tons avermelhados. Era um bom carro embora só eu achasse isto. Confesso que, às vezes, sentia que ele não chegaria ao destino ou que, se chegasse, algumas partes ficariam pelo caminho. Foi roubado e recuperado, um carro leal. Depois, tive um gol branco usado, realmente não nos acertávamos. Era um carrinho chato, parava muito freqüentemente. Então, comprei um Ká 0 km, aquele antigo, vermelho, todo mundo dizia que para ser carro faltava um “rro” e eu sempre tinha que dar uma risadinha, como se fosse engraçado, para não aumentar o constrangimento. Mas deste eu gostava, achava um carro de personalidade na aparência, corajoso, a relação potência peso, para mim, era ideal, nunca me deixou na mão… bem, fora uma vez que esqueci a luz interna acesa e no dia seguinte ele não ligava. Também foi roubado, infelizmente nunca mais o vi. Hoje, tenho outro Ká, novo, manhoso, barulhento, regurgita combustível, mas tem me levado onde preciso quase sempre.

Antes de adquirir meu primeiro veículo, comecei a aprender dança de salão. Isto faz realmente muito tempo. Mesmo assim, nesta época, comentava com minha irmã, colega de aulas, que os cavalheiros eram semelhantes aos meios de transporte, idéia que se manteve ao longo do tempo. Pelo menos a sensação que nos é proporcionada, como damas conduzidas, tem aspectos em comum com a de um passageiro em um meio de transporte.

Cada cavalheiro tem uma identidade. Estas individualidades expressam-se por um conjunto de pequenas atitudes que fazem com que nós, damas, possamos sentir prazer ou desconforto.

Sem dúvida, existem os veículos, digo, os cavalheiros, que nos deixam a impressão de que nos deslocamos no salão com os pés mantendo alguns centímetros de distância do chão. Como trens magnéticos, ou até mais de alguns centímetros, como a Discovery no espaço. Só precisamos um pouco de atenção porque é uma sensação semelhante a de se deslocar pelo ar. Também existem aqueles semelhantes a carrinhos de pipoca, que nos transportam e ao final da jornada temos a sensação de que viemos pulando, e chegamos bem estouradas. Há os Fiats 147, que ficam emperrando no caminho e a gente nunca sabe se termina, ou não, uma volta no salão. Tem até aqueles, tipo elevador, que só sobem e descem, aparentemente sem saber o que é sentido anti-horário.

Realmente, há de tudo, os que pedem desculpas o tempo todo porque vivem trombando no que há em volta e em você, como um carrinho “bate-bate” de parque de diversões; os barulhentos como um calhambeque, falam sem parar que todo mundo no salão atrapalha; os silenciosos, agradavelmente silenciosos como uma Mercedes, BMW ou um Jaguar. Alguns se igualam a conversíveis abertos em dias chuvosos, mesmo que sejam uma Lamborghini, você acaba encharcada mesmo. Outros, por mais que posem de Porche, fazem você se sentir dentro de um ônibus, equilibrando-se por uma barra lá no alto (mão dele), ou apertada por outros “tecidos”.

Há ainda os que parecem carregar saches perfumados, como se fossem um iate de luxo; os que exalam como uma Maria Fumaça; os que sempre respeitam o espaço que você precisa para respirar, como uma Limousine; os que fazem você tocar um sino sem parar ao erguer e abaixar sua mão ininterruptamente como uma daquelas bicicletas ergométricas; os que têm complexo de Fórmula 1, enquanto não passam de um Chevette envenenado e não conseguem conter a necessidade atávica de chegar em primeiro lugar, mesmo quando não há corrida alguma. Há também aqueles que parecem um transatlântico, estáveis, seguros, que não fazem lá muitas manobras, mas deslizam maravilhosamente bem. Um tipo incrível de cavalheiro é aquele que, quando olhamos de longe, nos parece um fusquinha bem ruinzinho, mas já na primeira rodada percebemos o New Beatle que é!

Com alguns, nos sentimos uma jóia rara em um carro forte, com outros uma madame cafona no Trem de la Muerte, rumando a Santa Cruz de La Sierra. Tem os que nos transportam e os que se transportam, os primeiros são os mais confortáveis. Há os que parecem deslocarem-se procurando outras damas enquanto dançam conosco, como se fossem um caminhão com uma caçamba enorme na eterna busca por carga. E há os que procuram nosso sorriso a cada movimento, como um singelo carrossel encantado, estes, nem se importam com o esforço de conduzir um Jinriquixá que acabam fazendo em alguns momentos.

Mas é quando entendem que na dança de salão temos uma caminhada sem destino certo, que eles nos transportam como num passeio improvisado sem fim em um versátil Hovercraft.

O outro lado da história é que, muito provavelmente, nosso comportamento como damas compõe parte do tipo de veículo que será o cavalheiro. Se eu deixar a luz interna acesa mais do que deve, o cavalheiro acaba sem energia. Se eu for uma dama que transmite certa pressão, assumindo uma postura subliminar de cobrança, motivarei alguns e frustrarei outros, o que refletirá diretamente no desempenho do cavalheiro. Enfim, parte do que um cavalheiro faz no salão acontece a partir da dama que é transportada por ele. Por isto, precisamos manter aguçada nossa sensibilidade natural a cada dança, para captar a natureza de nosso cavalheiro e adotar um comportamento receptivo, que torne a dança uma delícia para ambos. Muitas vezes é difícil, claro, mas, também é um desafio que pode nos levar a sensações incríveis.

Por fim, executar passos atendendo regras de condução, é coisa para qualquer par fazer. Criar uma atmosfera entre dois personagens vivos, no âmago de uma música que soa no salão, é coisa para cavalheiros que são bons veículos e damas inteligentes, que se permitem transportar pelo roteiro dos maiores prazeres da dança de salão.

Previous ArticleNext Article
Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

0 Comments

  1. Muito bom e criativo o texto. Acho fundamental que, tão importante quanto conhecer os passos, é entender o que significa a dança, compreender essa ideia elegante da condução, da entrega, da confiança e da atmosfera que ela deve gerar. Só aqui encontrei algo de valor sobre esse lado.

    Sinto falta dessas instruções sobre a condução nas aulas de dança. Temos a impressão de que dançar é executar uma sequência técnica infinita e chata de passos complexos, sem sentido algum. Parece um exame técnico. Só isso não é dança.

    Fiquei satisfeito ao encontrar suas ótimas explicações.

  2. RSRRS..Muito bom..eu na minha simplicidade e modestia, prefiro que minhas damas me definem…só elas podem dizer que modelo de veiculo eu sou, espero que digam a verdade, eu aguento…rsrsrsr..

    Quem dança ou já dançou com o Du chapéu, por favor deixem seu comentário..rsrsrs

    Parabens,
    Obrigado.
    Du Chapeu-BH

  3. Wow! Excelente analogia! Como cavalheiro que sou haverei de descobrir que tipo de veículo represento. Pensava, todo confiante, que seria uma Limousine mas agora fiquei convencido que estou mais para um transatlântico desgovernado em meio a um tsunami.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *