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Câimbras na dança

As câimbras (ou cãibras, forma alternativa também correta) são complicações frequentes nos praticantes de atividade física, inclusive entre os dançarinos de salão. Há muitas dúvidas e mitos acerca deste assunto. Vamos procurar desvendar alguns.

Você deve lembrar de alguns conceitos que já discutimos no artigo de fevereiro passado (veja “Dor muscular na dança de salão”). Nossos músculos são formados por milhares de fios finíssimos, chamados miofibrilas, que deslizam uns sobre os outros, gerando a contração muscular. Nos músculos chamados esqueléticos ou estriados, é o próprio indivíduo que controla esta ação, ou seja, o controle sobre o tecido muscular é voluntário. São estes os músculos que utilizamos para executar movimentos que decidimos realizar, como pegar um objeto, correr ou dançar; em contraposição a ações que não comandamos, como movimentar as paredes do estômago ou dos vasos sanguíneos, que são realizadas pelos músculos lisos, de controle involuntário. Também lembramos a importância de íons como o sódio, o potássio, o cálcio e o magnésio para o perfeito funcionamento da musculatura. Pois bem, as câimbras induzidas por exercícios são contrações espasmódicas, intensas, dolorosas e involuntárias de nossa musculatura estriada que ocorrem logo após um esforço físico.

Há uma idéia corrente nos meios de prática de atividade física, entre leigos e não leigos, de que as câimbras seriam ocasionadas por “falta de potássio”. A imagem do bem-sucedido tenista Gustavo Kuerten consumindo bananas durante treinos e competições, reforçou esta idéia de alguns anos para cá. Contudo, a observação nos fez questionar esta impressão. A grande maioria dos dançarinos que queixam-se de câimbras, apresentam o sintoma num grupo muscular que está sendo muito solicitado, e provavelmente não encontra-se apto para responder às exigências. Raramente algum deles está em situação de extrema sudorese, ou em outra situação clínica que favoreça a perda de potássio. E mais: para apresentar sintomas musculares por falta de potássio, em geral o indivíduo deve estar severamente enfermo, como um paciente em uma UTI, e já apresentando outros sintomas como arritmias cardíacas, insuficiência renal, alterações da pressão arterial e paralisia respiratória, entre outros de gravidade. Além disto, as câimbras induzidas por exercícios ocorrem apenas em grupos musculares envolvidos em contrações repetitivas, enquanto que anormalidades nos eletrólitos (potássio, sódio, etc) causam espasmos musculares generalizados, em todos os músculos do corpo. Portanto, é bastante improvável que a câimbra da sala de aula de dança, ou do final do baile seja devida a falta de potássio.

Historicamente, várias teorias foram propostas para explicar o mecanismo da câimbra induzida por exercício: a teoria de problemas inatos de metabolismo, a teoria da desidratação, a das anormalidades do balanço de eletrólitos (onde entra a questão do potássio) e a das condições ambientais extremas, como frio ou calor. Entretanto, em estudos recentes, não houve suporte a estas teorias, que foram levantadas a partir de relatos esporádicos e nunca demonstraram com clareza o mecanismo de ação da câimbra.

Atualmente, aparece com mais força a hipótese de que as câimbras induzidas por exercícios são secundárias à fadiga muscular. Segundo esta teoria, a exigência acentuada da musculatura inibe a regulação da resposta das miofibrilas, que é realizada por uma pequena estrutura sensível à tração, localizada entre o tendão e o músculo (órgão tendinoso de Golgi). Em outras palavras, de tanto usar o músculo, ele “para de entender quando não deve mais se contrair”. E, é claro, este “uso excessivo” é um conceito individual, e proporcional ao preparo físico de cada atleta/dançarino.  Daí a importância de uma boa preparação física para dançar.

Outro fator que aumenta ainda mais a predisposição à câimbra é a contração do músculo a partir de seu menor comprimento. Por exemplo: quando a dama executa o movimento de “meia-ponta” e já está usando sapato de salto, os músculos da panturrilha (“barriga da perna”) já estarão permanentemente contraídos para manter o equilíbrio sobre o salto. O esforço adicional de projetar o peso à frente, na meia-ponta, poderá sobrecarregar esta musculatura e ocasionar a câimbra. Aliás, os músculos da panturrilha (que incluem os gastrocnêmios, ou “gêmeos”, e o sóleo) são os músculos que mais sofrem câimbras em bailarinos.

Para “bater o martelo” e acabar de vez com os mitos: mesmo que a teoria do potássio estivesse correta, certamente a banana não seria a escolhida para corrigir esta deficiência. Há vários alimentos mais ricos que ela neste quesito: a banana encontra-se no grupo de alimentos que apresentam até 250 mg de potássio para cada 100g, assim como espinafre, tomate, brócolis, cenoura, couve-flor, batata, beterraba, kiwi, laranja, manga, melão, entre outros. Bem mais ricos em potássio são os alimentos que contem 500 mg do íon a cada 100g, como figos secos, frutas secas, abacate, farelo de cereais e germe de trigo. Portanto, ao ingerir bananas, nosso famoso tenista estaria sentindo-se melhor pela ingestão de carboidratos, pela melhora da reserva de glicogênio (combustível imediato para o exercício), por descansar num intervalo de jogo, ou até mesmo por efeito “placebo” (psicológico). Mas certamente não estaria evitando câimbras por estar ingerindo potássio.

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Então, lembre-se:

  • Quando tiver câimbras durante um exercício físico, nada de sair correndo atrás de bananas!
  • Procure alongar imediatamente o músculo contraído; esta medida será mais eficiente se for feita de forma passiva, com alguém lhe ajudando a posicionar o segmento corporal na manobra;
  • Se as câimbras acontecerem com frequência, é um aviso: você não está bem condicionado fisicamente para executar os movimentos que está pretendendo;
  • Procure um educador físico ou fisioterapeuta e inicie um programa complementar ao seu programa de dança de salão. Inclua reforço muscular e alongamento; ambas as valências são importantes;
  • Entre as modalidades indicadas, estão incluídos o Pilates, o Gyrotonics, as aulas de ballet clássico, yoga, atividades aquáticas, etc. Pratique sempre com supervisão profissional;
  • É claro que, antes de tudo, você deve certificar-se, na revisão periódica com seu médico, de que está com a saúde em dia, e apto à prática de exercícios.  Fora do contexto da atividade física, as câimbras podem ter outras causas, como doenças neurológicas, glandulares, vasculares, uso de medicamentos, gravidez, etc.

Questione, fique atento sempre e prepare seu corpo para dançar. Assim, dá certo!

* Ilustrações: Greg Brown

Leitura recomendada

  • CLARKSON, P.M.; HAYMES, E.M. Exercise and mineral status of athletes: calcium, magnesium, phosphorus, and iron. Medicine and Science in Sports end Exercise; 27(6): 831-43, 1995 Jun.
  • MAQUIRRIAIN, J.; MERELLO, M. Abordaje clinico del deportista con calambres musculares/ Clinical approach to athletes with muscle cramps. Revista de la Associación Argentina de Ortopedía y Traumatología; 70(4): 367-372, dic. 2005.
  • NYBO, L. Commentaries on Viewpoint: Fatigue mechanisms determining exercise performance: Integrative physiology is systems physiology. Journal of Applied Physiology, 104, 1543-1546, 2008.
  • SCHWELLNUS, M.P. et al. Aetiology of skeletal muscle ‘cramps’ during exercise: A novel hypothesis. Journal of Sports Sciences, 15, 277-285, 1997.
  • ZILTENER, J.L.; LEAL, S. Exercise-associated muscle cramps. Rev Med Suisse, 2(74): 1787-91, 2006 Jul 26.
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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

0 Comments

  1. Prezada Carolina;
    Obrigada por seu contato.
    Quando as câimbras estão restritas a um grupo muscular, e não acometem o corpo inteiro, provavelmente são devidas a um esforço que aquele grupo não estava preparado para executar. Quando são por desidratação ou desequilíbrio nutricional, temos contraturas em vários grupos musculares, independente de esforço físico.
    No seu caso, pelas informações da mensagem, possivelmente você estava executando movimentos do forma inadequada pela dor na coxa, e em consequência, outras partes do seu corpo procuraram compensações. Este esforço compensatório excessivo pode ter gerado as câimbras.
    Mas tudo isto são apenas suposições. O correto, agora, é você fazer uma avaliação médica que inclua aspectos clínicos, articulares e biomecânicos.
    Uma dica: ao apresentar sintomas, nunca coloque sua dúvida via e-mail ou qualquer tipo de mensagem virtual. Seu caso pode necessitar de um grau de privacidade e brevidade que sites informativos (por melhores que sejam) podem não lhe oferecer. Procure um pronto atendimento médico, onde você será presencialmente questionada e examinada; esta é a forma adequada de fazer um diagnóstico e lhe dar a orientação correta de conduta, ok?
    Esperamos que melhore rapidamente e volte a dançar com todo o entusiasmo!

  2. Oi, esta madrugada tive uma forte câimbra, deve ter durado uns 15 à 20 minutos… Estiquei,puxei, tentei me acalmar, desliguei meu condicionador de ar, me cobri,pro meu corpo ficar mais quente, levantei, andei, deitei,meu marido quis me ajudar, mas um dedinho apenas, ao tocar na planta do meu pé direito, bem abaixo dos dedos já projetava consecutivas dores.
    Realmente, depois que li seu texto, percebi que estou ingerindo pouco líquido e que a minha alimentação está péssima. Porém, eu gostaria de saber o seguinte; senti essas dores pois enquanto dançava zouk, senti um mal jeito próximo a virilha, bem no iníciozinho da coxa; não dei tanta atenção,mas dancei com menos entusiasmo. E então de madrugada quando estava relaxada, ao me virar, essas dores ocorreram.
    São raras as câimbras que eu sinto. Depois dessa meus dedos estão um pouco duros e o ligamento do dedão está um pouco saliente.
    É razão de emergência?

    ESPERO RESPOSTA O MAIS BREVE POSSÍVEL.

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