Colunas, Flamenco em Pauta

Buleria: um dos ritmos mais festivos da cultura Flamenca

Queridos leitores da coluna, antes de continuar a historiografia do flamenco no seu contexto social e cultural, proponho uma reflexão mais leve.

Vamos falar de festa?

Dentro do Flamenco temos várias subdivisões de ritmos. É comum desenharem uma árvore com o tronco sendo o gênero Flamenco e vários galhos e subgalhos (e “subsubgalhos”) de diferentes ritmos. Nessa gama imensa de possibilidades dentro do gênero Flamenco, temos alguns estilos “festeiros”, sendo que um deles é a Buleria.

Amado por uns e temido por outros, ouso dizer que é consenso que todos sentem vontade de dançar, tocar palma, incentivar (jaleos), ou seja, participar de alguma forma quando soa uma Buleria. Quando digo todos, é todos mesmo! Inclusive quem nunca escutou a palavra Flamenco ou Buleria na vida. Isso porque o ritmo é super dançante, alegre e o que acontece a partir dele, muito divertido.

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Foto: Letícia Volpi

Se é tão bacana assim, por que disse “temido por outros”?

Penso que porque temos uma incrível capacidade de racionalizar o que deveria ser puro instinto e, assim, complicamos. A música e a dança sempre estiveram presentes na história da humanidade, comprovando que não é necessário ter horas de aulas e ensaios para se divertir, porque não precisa saber passos, expor virtuosismo, basta sentir o ritmo e se deixar levar.

A Buleria festeira me remete a esse costume ancestral de dança e celebração. As pessoas se colocam em um círculo e quem se sente motivado vai ao centro e faz alguma brincadeira com o corpo. É como se no meio da roda estivesse a fogueira, quem se sentiu incendiado pela música vai ao centro aquecer a todos. Enquanto isso, ao redor, unidos pelo pulso do ritmo, as outras pessoas cantam, tocam palma e incentivam quem foi ao meio. A ideia é essa: brincar e compartilhar.

Workshop de Dança Flamenca no Festival de Dança de Joinville 2017, ministrado por Miri Galeano e Jony Gonçalves. | Foto: divulgação
Foto: Festival de Joinville/divulgação

É também uma mandala, onde cada um leva sua cor, seu sentimento, criando um todo cheio de energia. A roda é um espaço muito democrático, não há líder, todos têm a oportunidade de se expressar. Adoro ver vídeos de anônimos bailando por Buleria, eles estão sempre se divertindo e compartilhando a alegria independente de idade, gênero ou habilidade e consciência corporal.

Sou de uma geração que brincou de roda com os amigos. Como era bom, cantar, dançar e compartilhar todos no mesmo pulso e com a intenção apenas de se divertir, sem julgamentos. Não sei se hoje as crianças ainda vivem essa experiência. Um pouquinho mais crescidinha, lembro de ficar em círculo com as amigas comentando alguma coisa engraçada ou que havia entristecido. Em ambas as hipóteses havia acolhimento e troca. Na Buleria, quem vai ao centro quer contar a sua história e ser acolhido. Quem está ao redor, tem a oportunidade de vibrar junto e dizer com os olhos: “eu vejo você e o que vem com você. Sou grato!”.

Acho que essa é a magia do flamenco e em especial dos ritmos festeiros, eles são acessíveis, orgânicos e acolhedores (ou ao menos deveriam ser).

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Quer experimentar?

Uma oportunidade é participar da 1ª Festa da Buleria de Curitiba, que o Grupo Perla Flamenca promove no dia 01 de dezembro. O evento que é inspirado na tradicional Festa da Buleria que acontece todos os anos na cidade de Jerez, Espanha, contará com uma tarde inteira de atividades com profissionais e artistas de diferentes segmentos – violão flamenco, percussão, cante, artes plásticas, dança e história.

A programação completa da 1ª Festa da Buleria e a inscrição estão disponíveis no link: www.sympla.com.br/flamenco-1-festa-da-buleria

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Integrante do Grupo Perla Flamenca, dirigido por Miri Galeano (Perlita) e Jony Gonçalves, adora ouvir e contar histórias, seja com palavras, com a dança ou com imagens. Jornalista, formada pela UFPR e bacharel em Direito pela Unicuritiba, pós-graduada em Estética e Filosofia da Arte pela UFPR. Cursou mestrado em Sevilha, onde se perdeu muito pelas ruas, tirou fotos com famosos e mergulhou na cultura flamenca.

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