Pintura de Vladimir Pervunensky

De início, lembremos que há uma espécie de consenso sobre o surgimento da primeira Dança de Salão, a Valsa, ao final do século XVIII. Seu auge teria ocorrido em muitos países, durante o século XIX. Neste período já registraram-se danos físicos ocorridos com seus praticantes. Para exemplificar, veremos dois deles.

O primeiro, no ano de 1891, periódico baiano “Pequeno Jornal” datado de 22 de outubro, página inicial:

Morrer dançando – Morrer dançando é morte macabra, que seria deliciosa se não fosse horrorosa para os pares ficados vivos. Foi um accidente raro que commoveu em um dos domingos do mez passado aos camponios de Pudersbock.

Este texto citado segue informando sobre um concurso de dança para mulheres casadas em um salão de baile de uma localidade rural. O prêmio seria dado à dançarina que dançasse mais tempo sem interrupção. A vencedora fora Regina Corremans, uma senhora sexagenária empolgada, que teria dançado uma hora seguida sem parar. Já premiada, fora convidada por um cavalheiro para uma valsa, durante a qual acabou falecendo. Por fim, cita-se que a dançarina não conhecia os efeitos do violento exercício sobre os órgãos de uma sexagenária, alertando para que: “conheçamo-nos a nós mesmos, como ensina o philosopho”.

“A parisian ball-dancing at the casino” / desenho de Winslow Homer

O segundo, é do ano de 1893, periódico mineiro “Minas Geraes” de 8 de dezembro, página 8, no qual lemos, sob o título “FACTOS DIVERSOS”:

Todas as pessoas apaixonadas pela dansa seguirão com interesse os debates de um processo que será proximamente julgado pelos tribunaes inglezes.
Segundo o Medical Pres and Circular, uma jovem dama de Newark fracturou uma perna em resultado de uma quéda feita no momento em que ella dansava; esta dama acaba de intentar acção contra o seu cavalheiro, que ella reputa responsavel, baseando-se em que aquelle fez prova de uma grande falta de dextreza, causa única do deplorável acidente de que foi victima.

Apresentação do dançarino Bob Thomas

Avançando cerca de um século, em 7 de março de 1999, Robert Craig Thomas, conhecido em diversos países como dançarino, professor de Lindy Hop, Rock-and-roll, Jitterbug e East Coast Swing, escritor, professor na área de pedagogia da dança na Universidade de Bielefeld na Alemanha, publica o texto intitulado “Aerials in Swing, Jitterbug, and Lindy Hop” incluindo os subtítulos “Let’s Talk About INJURIES” e “Anatomy of an Aerial”. Neste texto o autor registra lesões como fraturas de pés, danos a joelhos, cotovelos, queixos e/ou testas, músculos, rupturas de ligamentos em ombros e problemas nas costas, concluindo com as frases “However, even with experience, many dancers have experienced injuries working with aerials. Doing aerials is not to be taken lightly” (Todavia, mesmo com experiência, muitos dançarinos já se machucaram ao executar passos aéreos. Passos aéreos devem ser levados a sério).

A dançarina profissional Rusty Frank

Em 2000, a dançarina, escritora, produtora, coreógrafa Rusty Frank, que praticava Lindy Hop desde 1996, sofreu um incidente gravíssimo, segundo ela mesma, treinando na citada dança o passo aéreo “Front-dive”. No incidente, quebrou o pescoço em 5 lugares e lesionou seriamente sua medula. Rusty acabou sendo internada no Hospital Northridge, em Los Angeles, e tendo os movimentos do corpo temporariamente impedidos. Levou três meses para voltar à atividade e passou a conviver com dor e fraqueza nos braços. A descrição do evento está na sessão “Frequently asked questions”, como resposta à pergunta número 24, “How did Rusty break her neck, and how is she now?”, disponível no site que leva o nome da própria Rusty Frank. Ao final da resposta é disponibilizado um link para um vídeo que mostra o passo.

Em 2001, o educador físico José Henrique Ramos publica no 3º Congresso Brasileiro de Atividade Física & Saúde, em Florianópolis, o trabalho “Prevenção de Lesões em Dança de Salão”.

Intentando despertar a atenção para os riscos em sala de aula, há 10 anos passados, em 2004, chamei a atenção para a questão das lesões corporais no contexto do ensino, no artigo “Formação de professores de Dança de Salão, uma discussão necessária”, publicado no “IV Congresso Nacional de Educação – Educere”. Afinal, tais incidentes são conhecidos. Sabe-se, por exemplo, que há vários anos, em Curitiba, uma dama, que objetivava apenas o salão de dança, esteve em uma aula de Tango na qual o professor optou por incluir o ensino de um passo aéreo do qual a aluna saiu com a perna fraturada.

No ano seguinte, 2005, os educadores físicos Renata Verani Behr e José Henrique Ramos publicam nos Anais da “I Jornada Catarinense de Dança de Salão” o texto “Lesões em dança de salão? Como prevenir?”. Os autores elencam problemas na prática da Dança de Salão em geral, como: dores musculares, cãibras, contusões, problemas de tornozelo e joelho, dores na coluna vertebral, desidratação, desmaio, tendinite, bursite, luxações e subluxações, apontando como causas principais o que chamaram de “acrobacias” e a repetição excessiva de movimentos. Ao final do texto são feitas recomendações de prevenção.

No mesmo ano de 2005, no livro “Dança de Salão, a caminho da licenciatura”, registro meu próprio caso passado de hérnia de disco cervical relacionada à prática do Zouk e dedico um capítulo às “Lesões corporais”.

Em 2007, os pesquisadores da área da fisioterapia Leonardo Santos Mósca e Fábio Sprada de Menezes publicaram na revista Pergamum, da Udesc, o artigo científico “Incidência de lombalgia em praticantes de Zouk (lambada) do sexo feminino do sul do Brasil”. O estudo faz uma das análises mais consistentes e relevantes do ponto de vista científico, a partir da avaliação estatística de um grupo de damas praticantes de Zouk, concluindo que 76% delas passaram a sofrer de lombalgia após iniciarem esta prática.

No ano de 2010, Izabela Lucchese Gavioli publicou na Revista Dança em Pauta, o artigo “Cuidados com a coluna na dança de salão“. A autora, de forma brilhante, mostrou, com didática e fundamentação ímpares, os riscos aos quais podemos expor a coluna vertebral na prática da Dança de Salão. Fez relevantes recomendações.

Em 3 de março de 2011, Bobby White, um professor internacional de Balboa e Lindy Hop, membro da Fundação Frankie Manning, publica em seu blog denominado “Swungover” o texto “Things I’ve learned about dancing and having a bad back, no qual aponta a relação entre a prática de passos aéreos e uma lesão de disco intervertebral em sua própria coluna lombar. A imagem que ilustra a publicação é de um exame médico de coluna vertebral.

Em 2012, Duncan Graeme Macdonald Stuart cria um espaço virtual, em uma rede social, dedicado a discutir lesões decorrentes da prática de danças como a praticada por ele desde 2009, Lindy Hop. A leitura dos textos ali publicados permite a constatação de vários depoimentos de diversos indivíduos que sofrem com uma variedade de lesões. A ilustração principal deste espaço virtual é um exame médico de imagem.

Ano de 2013, mais uma vez, Izabela Lucchese Gavioli publica na Revista Dança em Pauta o artigo: “Zouk, cambre e a dor na coluna“. Desta vez, a autora foi mais enfática, não deixou margem para nenhuma dúvida sobre o risco e encarou de frente o fato de que o Zouk não é indicado para ser praticado por pessoas com determinadas vulnerabilidades físicas.

 

Foto divulgada no site “Daring to Dance”, da dançarina Luciana Lua

Para concluir este histórico, no ano de 2014, a dançarina Luciana Lua, imbuída pela forte emoção da profunda mágoa consigo mesma e com seu parceiro, o denuncia destemidamente em seu site “Daring to Dance“, acusando-o de ser o responsável por uma hérnia de disco cervical que a incapacitaria para dançar. Ela reconhece ter permitido o abuso, em outras palavras, ter adotado um comportamento de risco. Divulga juntamente com seus textos as imagens dos exames médicos de sua coluna. A Dança de Salão em questão seria, novamente, o Zouk, e a repercussão aponta um problema muito maior do que esta ocorrência.

Certamente, os casos reais e registros não se resumem aos aqui citados e, de forma alguma, são exclusivos de uma ou outra Dança de Salão. É muito provável que a maioria das lesões ocorridas em variados espaços nos quais se pratica Dança de Salão nunca tenham sido registradas. Desta forma, o que há publicado pode amostrar uma realidade silenciosa muito mais inquietante. Assim, este apanhado de recortes se presta apenas à tarefa de exemplificar textualmente constatações e o conhecimento sobre os riscos existentes há muitos anos.

Enquanto não há conhecimento, não se sabe o que é comportamento de risco. Entretanto, os exemplos citados falam por si. Principalmente os artigos da médica Izabela e dos fisioterapeutas Leonardo e Fábio, que saem do campo dos meros “depoimentos” e avançam ao universo da análise profissional.

Está na hora lidar com os riscos de forma responsável. Afinal, a partir da constatação de publicações como estas, livremente acessáveis por qualquer pessoa, como se explica o fato de lesões continuarem ocorrendo devido a adoção de comportamentos sabidamente de risco na prática da Dança de Salão?

Voltar para o texto: Comportamento de risco na Dança de Salão

Leitura sugerida:

  • Behr, Renata Verani; Ramos, José Henrique. Lesões em dança de salão? Como prevenir?. In: Anais I Jornada Catarinense de Dança de Salão. Florianópolis, 2005.
  • Frank, Rusty. Frequently asked questions. How did Rusty break her neck, and how is she now?. In: Frank, Rusty. Acesso em agosto de 2014, disponível em: http://rustyfrank.com/faqs.asp#24
  • Gavioli, Izabela Lucchese. Cuidados com a coluna na dança de salão. Revista Dança em Pauta. Curitiba, 18 de dezembro de 2010. Acesso em 5 de agosto de 2014, disponível em: http://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/cuidados-com-a-coluna-na-danca-de-salao/.
  • Gavioli, Izabela Lucchese. Zouk, cambre e a dor na coluna. Revista Dança em Pauta. Curitiba, 21 de outubro de 2013. Revista Dança em Pauta. Curitiba, 10 de maio de 2011. Acesso em 5 de agosto de 2014, disponível em: http://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/zouk-cambre-e-dor-na-coluna/
  • Mósca, Leonardo Santos; Menezes, Fábio Sprada. Incidência de lombalgia em praticantes de Zouk (lambada) do sexo feminino do sul do Brasil. Revista Pergamum. UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA Udesc. 2007. Acesso em : 5 de agosto de 2014, disponível em: <http://www.pergamumweb.udesc.br/dados-bu/000000/000000000008/000008B0. Mosca.pdf>.
  • Overton, Drika. Bob Thomas. 2010. Consulta em agosto de 2014, disponível em: http://www.jazzandtap.com/mad/bios.shtml
  • Ramos, José Henrique. Prevenção de Lesões em Dança de Salão. In: Anais 3º Congresso Brasileiro de Atividade Física & Saúde. Florianópolis. 2001.
  • Stuart, Duncan Graeme Macdonald. I don’t want dancing to f**k my knees/back/ankles. Desde 2012. Acesso em agosto de 2014, disponível em: https://www.facebook.com/groups/387194701353549/
  • Thomas, Robert Craig. “Let’s Talk About INJURIES; Anatomy of an Aerial”, In: “Aerials in Swing, Jitterbug, and Lindy Hop”, 7 de março de 1999. Consulta em agosto de 2014, disponível em: http://www.havetodance.com/articles/aerials.html#anchor51951
  • White, Bobby. Things I’ve learned about dancing and having a bad back. In: White, Bobby, Swungover. 3 de março de 2011. Acesso em: 5 de agosto de 2014, disponível em: http://swungover.wordpress.com/2011/05/03/things-ive-learned-about-dancing-and-having-a-bad-back/
  • Zamoner, Maristela. Dança de Salão, a caminho da licenciatura. Editora Protexto. Curitiba, 2005.
  • Zamoner, Maristela. Formação de professores de Dança de Salão, uma discussão necessária. In: Anais IV Congresso Nacional de Educação – Educere. Curitiba, 2004. Acesso em agosto de 2014, disponível em: http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2004/anaisEvento/Documentos/CI/TC-CI0166.pdf

 

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