Colunas, Flamenco em Pauta

Bata de cola: moda que virou acessório da dança flamenca

Dia desses, conversando com uma conhecida, ela me disse que entendeu o que era o tal Flamenco quando assistiu a um vídeo que eu tinha acabado de compartilhar no Facebook. Ela confessou que, até então, me imaginava fazendo parte da torcida organizada do Flamengo e participando de coreografias nos jogos ou em eventos do time. Essas confusões sempre acontecem. Nós do Flamenco já estamos acostumados.

O que realmente achei interessante foi observar o vídeo que ela viu e, nas suas palavras, finalmente a fez entender o que era aquilo que eu dançava. Eu já havia compartilhado outros vídeos, inclusive de apresentações do grupo Perla Flamenca, de Curitiba, do qual faço parte, mas o vídeo que a fez “entender” era este que você confere abaixo, de um baile antigo, bem tradicional da Escola Sevilhana, em que baila Matilde Coral.

Isso me fez pensar que, provavelmente, o Flamenco que está no imaginário popular, pelo menos no nosso contexto brasileiro, é o estilo de baile da Escola Sevilhana – um baile menos rítmico, quase sem sapateados, como se bailava antes da Guerra Civil Espanhola e antes de Carmen Amaya. Nesse estilo de baile, também conhecido como “baile de mulheres”, alguns acessórios são fundamentais: bata de cola, mantón e castanholas.

Reparando nessa figura da “bonequinha bailaora sevilhana”, penso que fica evidente, mais uma vez, a interculturalidade do flamenco, porque esses acessórios e tantas outras coisas que hoje dizemos que são a “cara” do Flamenco possuem origem em outros povos e outras culturas.

A bailaora Pastora Imperio.

Vamos olhar para a bata de cola, aquela saia com cauda, que hipnotiza a plateia com seus voos. Ela foi incorporada ao flamenco por Rosario Monje La Mejorana (1862-1922), mãe de Pastora Império, que por sua vez foi maestra de Matilde Coral, aquela do vídeo que fez minha amiga entender o que era o “flamenco que eu tanto falava”.

A origem do vestuário não tem nada místico: é apenas o que estava na moda na Corte Francesa e era copiado por toda a Europa. Os registros históricos mostram que não havia muita distinção entre o que se usava nas ruas e os trajes usados nas apresentações de Flamenco. La Mejorana era uma artista consagrada que se apresentava nos locais mais populares da época, como o Café Silvério e o Burrero, ambos em Sevilha. É fácil compreender que ela não gostaria de se apresentar em locais tão importantes de forma deselegante e fora da moda da época. Assim, temos a notícia de que foi a bailaora que primeiro subiu ao palco com uma bata de cola.

La Mejorana é vista como uma das revolucionárias do baile, porque, além de incorporar a bata de cola, ousou erguer os braços mais do que era o normal naquele momento, o que aportou mais elegância e altivez ao baile. Mas a revolucionária teve uma carreira curta, apenas entre os 16 e 19 anos de idade, parando de se apresentar quando se casou – aparentes contradições que nos impõem olhar com muito respeito ao contexto cultural e social do período. Jornais da época registraram que La Macarrona rivalizava com La Mejorana no uso do novo adereço, mas foi com Pastora Império e Antonia Merce que, no início do séc. XX, o uso da bata de cola realmente se consolidou nos espetáculos de Flamenco.

Como tudo no Flamenco, o uso da bata de cola evoluiu e se profissionalizou. De simples traje de moda, ela passou a ser usada com imenso virtuosismo. Matilde Coral chegou a escrever o livro “Tratado de la Bata de Cola”, com detalhes da técnica e defendendo seu uso. A imensa habilidade atual na utilização do acessório ao compasso da música e como uma extensão do corpo da bailaora chega a ser alvo de críticas dos mais conservadores, que defendem que “malabarismos” não fariam parte de um Flamenco autêntico. No entanto, todos parecem concordar que com a bata “no se pelea”, ou seja, não se deve jogá-la abruptamente de um lado para outro, pois a delicadeza e a precisão rítmica são fundamentais.

Junto com a técnica que foi sendo desenvolvida, também evoluiu a forma de se confeccionar a agora típica vestimenta. Uma boa bata de cola para dançar precisa ter peso e tecido adequado. Além disso, o tamanho da cauda e o início dos babados são cuidadosamente calculados para facilitar o voo. Registros históricos contam que os primeiros vestidos com batas de cola eram de tecidos de cor clara, meia-manga e decote arredondado. Hoje, são utilizadas todas as cores, estampas e modelos, sendo mais comum que sejam confeccionadas saia e blusa separadas, a fim de facilitar o transporte entre um ensaio e outro.

A bailaora Patricia Guerrero com bata de cola em espetáculo de dança flamenca, nos dias atuais. | Foto: Letícia Volpi.

Outra transformação visível são os experimentos feitos por homens utilizando a vestimenta. Tive a oportunidade de ver Manuel Linãn com sua bata e fiquei maravilhada. Quanto aos ritmos (palos) em que se costuma utilizar a saia com cauda, não há regras, mas é mais comum o uso nas alegrias, caña e seguiriya. Eu, particularmente, fico completamente hipnotizada com as Alegrias de Cádiz com bata de cola – acho que a cauda e os babados lembram o mar e as ondas.

O bailaor flamenco Manuel Liñan em apresentação com bata de cola.

E você, quando o uso da bata de cola te fascina mais?

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Integrante do Grupo Perla Flamenca, dirigido por Miri Galeano (Perlita) e Jony Gonçalves, adora ouvir e contar histórias, seja com palavras, com a dança ou com imagens. Jornalista, formada pela UFPR e bacharel em Direito pela Unicuritiba, pós-graduada em Estética e Filosofia da Arte pela UFPR. Cursou mestrado em Sevilha, onde se perdeu muito pelas ruas, tirou fotos com famosos e mergulhou na cultura flamenca.

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