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Balés de repertório: remontando clássicos

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Foi no período romântico, com o fascínio pelo sobrenatural, pelo etéreo e místico, que o terreno foi preparado para abraçar as grandes criações dos chamados balés clássicos de repertório.

Em sua maioria recheados de magia, e endossados pelo conteúdo dos libretos que deram asas à imaginação, os balés de repertório transportaram o público para um mundo onírico, capaz de provocar a catarse e a comoção, onde a realidade e a fantasia se combinavam e as emoções eram extravasadas com todo seu potencial. São esses clássicos que ainda hoje nos arrebatam e nos fazem querer revisitá-los em sua beleza e integridade.

Por terem sido inspirados, em sua grande maioria, em histórias fantásticas, os balés de repertório foram então conceituados como sendo obras dançadas, que seguem uma narrativa, se valendo da dança, mímica e música. No entanto, quando aqui falamos de repertório do balé clássico, incluímos também obras sem narrativas como o Grand Pas de Quatre (Jules Perrot) e Les Sylphides ou Chopiniana (Michel Fokine). Por fim, quando nos referimos aos clássicos de repertório, estamos falando de obras que foram criadas mais precisamente no final do século XVIII até final do século XIX, e que foram preservadas durante todos esses anos devido ao critério adotado nas remontagens ter sido bastante rigoroso.

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São Paulo Cia de Dança em apresentação de La Sylphide | Foto: Wilian Aguiar/divulgação

Repertório significa coleção ou conjunto, podendo ser o conjunto das obras teatrais, de um autor, de uma escola ou de uma época, ou ainda, o conjunto das obras de uma companhia teatral, de uma companhia de dança ou de uma orquestra, entre outros. Obras que são criadas para uma companhia de dança – inéditas ou reposições – passam a fazer parte do repertório dessa companhia.

A coleção adotada como obras do repertório da dança clássica, não pertence a um autor ou a uma instituição, a maioria delas, coreografias e músicas, entraram para o domínio público, que segundo a convenção de Berna, setenta anos após o falecimento de seu autor, deixam de ter seu uso restrito. No entanto, sempre é preciso verificar os direitos autorais, lembrando que, mesmo que a obra seja de domínio público, o autor deve ser citado.

Ballet Bolshoi da Rússia em apresentação do clássico Dom Quixote | Foto: Damir Yusupov/divulgação
Ballet Bolshoi da Rússia em apresentação do clássico Dom Quixote | Foto: Damir Yusupov/divulgação

Dos balés de repertório mais remontados, encontramos os românticos, obras de coreógrafos do período homônimo (1832-1870) como Jean Dauberval, Jean Coralli, Jules Perrot, Arthur Saint-Léon e Auguste Bournonville e os clássicos acadêmicos (1863-1901) criados na Rússia e assinados por Marius Petipa e seu discipulo Lev Ivanov.

Na época de sua criação, assim como os ensinamentos da dança clássica, pouco ficou formalmente registrado e grande parte da transmissão e reposição das obras do repertório foi feita pelos artistas que delas participaram, respeitando a música e a coreografia originais.

A bailarina Ana Botafogo, no palco do Teatro Muncipal do Rio de Janeiro, interpretando Giselle, outra obra clássica do ballet de repertório. | Foto: divulgação.
A bailarina Ana Botafogo, no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, interpretando Giselle, outra obra clássica do balé de repertório. | Foto: divulgação.

Infelizmente devido à crise econômica em que o Brasil está mergulhado, o orçamento das renomadas companhias públicas nacionais tem sido insuficiente para manter em seus programas grandes montagens.

Em geral, ao retratar histórias que envolvem a nobreza ou o sobrenatural, faz-se necessário um número expressivo de bailarinos, figurinos complexos, adereços, sapatilhas de pontas, cenários e espaços apropriados onde locar o espetáculo, requisitos onerosos e que dificultam a aprovação quando estas obras são propostas. Assim sendo, obras do balé de repertório vêm perdendo espaço em nossas companhias para um número cada vez maior de criações que não requeiram tanto investimento. Apenas trechos de grandes clássicos vêm sendo remontados e apresentados em festivais de dança pelo país.

Cientes disso nos perguntamos: por onde começar? onde nos referenciar? o que propor?

Precisamos prevalecer-nos do crescente interesse apresentado pelas mostras de dança, para incentivar e orientar as escolas participantes a preservar e divulgar da melhor maneira as obras de repertório.

O que devemos levar em consideração quando planejamos remontar uma obra do repertório do balé clássico?

O quesito número um, para uma remontagem é pesquisar muito, separar mesmo o joio do trigo, porque as obras foram sofrendo alterações ao longo dos anos. Procurar saber a essência da obra, quando e por quem foi criada, para qual companhia e quem foram os primeiros interpretes. Após passar por essa triagem, fica mais fácil descobrir quais são as interpretações que se mantiveram mais próximas do original.

Tatiana Leskova, em 1955: bailarina russa naturalizada brasileira trouxe seu conhecimento das obras clássicas para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. | Foto: arquivo pessoal.
Tatiana Leskova, em 1955: bailarina russa naturalizada brasileira trouxe seu conhecimento das obras clássicas para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. | Foto: arquivo pessoal.

Podemos considerar como originais as obras que tiveram o privilégio de terem sido remontadas baseadas em anotações coreográficas ou a ventura de contarem com um artista que tenha participado das criações, como aconteceu com o Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro cuja mestra, Tatiana Leskova, é registro vivo dos grandes clássicos acadêmicos.

As grandes companhias de dança europeias são as que preservam o maior número de clássicos de repertório em seus acervos, então aconselho irem direto para essas fontes que são referências mundiais e se orgulham de perpetuar a memória viva dos grandes clássicos. Entre eles estão às companhias russas Kirov e Bolshoi, a Ópera de Paris e o Royal Ballet, de Londres.

A argentina Marianela Nuñez e o brasileiro Thiago Soares interpretando Cinderella em montagem do Royal Ballet, de Londres. | Foto: Tristram Kenton/divulgação
A argentina Marianela Nuñez e o brasileiro Thiago Soares no espetáculo Cinderella em montagem do Royal Ballet, de Londres. | Foto: Tristram Kenton/divulgação

Importante lembrarmos que adaptações são feitas segundo a necessidade das companhias, por vezes para enaltecer qualidades físicas, técnicas e dramáticas dos intérpretes e o próprio número de integrantes. Não há como sabermos apenas assistindo uma gravação, quais foram as obras que preservaram suas características originais. Aconselho comparar o máximo de versões disponíveis de uma mesma obra, apresentada por diferentes companhias de referência, examinar minuciosamente a ficha técnica e eliminar as mais contrastantes. Feita a escolha, convém indicar de onde a versão foi extraída e quem foi o responsável pela reposição e adaptações da versão que será apresentada.

Alertando que ao levarmos obras de repertório para mostras ou concursos, estamos sendo referência de um enorme público. Muitas vezes, a obra é premiada e acessada por outros interessados em apresentá-la. Por isso, atenção às adaptações! Se cada um que remonta uma variação, transforma um movimento, andamento musical, direção ou figurino, após três remontagens essa obra estará irreconhecível. Somos responsáveis por preservar essa história viva, que resistiu gerações para chegar até nós.

Ballet de Kiev em cena de A Bela Adormecida. | Foto: divulgação
Ballet de Kiev em cena de A Bela Adormecida. | Foto: divulgação

Para a escolha de sua remontagem, é preciso levar em conta o nível técnico e a idade dos intérpretes. É comum nos apaixonarmos por determinadas obras e querermos levá-las para o palco na primeira oportunidade. Alerto que nem sempre a obra é compatível, melhor começar com reposições mais simples que darão menos dor de cabeça e onde o resultado final poderá ser igualmente gratificante.

Obras como o Quebra Nozes, coreografada originalmente por Lev Ivanov, permitem acessar o universo dos grandes clássicos e possibilitam que seja criada a sua própria versão. Existem inúmeras versões coreográficas desta obra que, em comum, preservam apenas a música de Tchaikovsky e o enredo principal. O tema agrada a todos, o elenco pode ser constituído por artistas de idades e níveis técnicos distintos, além de ser uma ótima escolha para exercitar a criatividade. Um bom exercício de reposição neste caso é praticar a remontagem do grand pas de deux da Fada Açucarada com as qualidades e especificidades do original, já que a narrativa contempla em seus vários quadros uma viagem ao mundo dos sonhos.

Bailarinos do Birmingham Royal ballet, de Londres, no pas de deux da Fada Açucarada da obra O Quebra Nozes. | Foto: divulgação.
Bailarinos do Birmingham Royal Ballet, de Londres, no pas de deux da Fada Açucarada da obra O Quebra Nozes. | Foto: divulgação.

Escolhida a composição que será trabalhada, o próximo passo será encontrar uma reprodução musical limpa e no andamento que será usada. Nada de extrair direto de vídeos, com todo aquele som de fundo de auditório do qual frequentemente vem acompanhadas. O bailarino deverá condicionar seus movimentos à música, sendo ela a chave que o auxilia no desenvolvimento da expressividade e qualidade técnica. As coreografias de repertório devem primar pela musicalidade. Ouvir a música e conhecê-la profundamente fará o bailarino sentir-se confortável e confiante em sua performance, apropriando-se da coreografia e colocando sua própria identidade em sua arte.

Para que haja essa empatia, deve-se observar e explorar a personalidade, tipo físico, idade, maturidade, nível técnico e preferências do intérprete, evitando, por exemplo, colocar crianças interpretando personagens adultos e sensuais como Carmen ou Esmeralda! Existem outras criações apropriadas para cada idade. É nesse momento, que devemos levar em consideração a dramaturgia e a maneira de transformar o roteiro, escrito ou falado, em movimentos capazes de transmitir, diante de um público, as ideias contidas na obra, o que também dependerá da interpretação do artista. Jovens artistas possuem o frescor e a naturalidade de expressar personagens lúdicos e imaginários, já artistas maduros têm a vivência para interpretar papéis onde é exigida uma maior carga dramática.

Como os clássicos de repertório abordam em seus roteiros contos de fadas, países exóticos, seres místicos ou heróis épicos, ao elegermos uma obra, sua organização deve ser respeitada desde a dramaturgia dos personagens até a sua ambientação, que será revelada pelos cenários e figurinos. Cuidados importantes devem ser observados em relação a estes! Mesmo que tenhamos em nosso acervo um rico guarda-roupa e magníficos cenários de montagens anteriores, não podemos reutilizá-los a bel prazer. Um cisne branco só poderá ser apresentado com um tutu branco. Usar uma maravilhosa coroa húngara numa variação de Kitry, em Dom Quixote, fugirá do caráter do personagem. Um cenário campestre em Aurora, não fará parte da aristocracia oferecida pela narrativa. Então, muito cuidado, não só com o figurino, mas também com os adereços e cenários que poderão arruinar o esforço e a qualidade de uma remontagem.

Os bailarinos Thiago Soares e Ana Botafogo: diferentes gerações de profissionais e diferentes caminhos. Ela com carreira consolidada no Brasil, ele, talento nacional exportado para Europa.
Os bailarinos Thiago Soares e Ana Botafogo: diferentes gerações de profissionais e diferentes caminhos. Ela com carreira consolidada no Brasil, ele, talento nacional exportado para Europa.

Cientes desses pré-requisitos, vamos agora, sem medo, e prontos para maravilhosa função de preservar os grandes clássicos de repertório, incentivar e preparar nossos intérpretes!

Há uma significativa redução de artistas qualificados para protagonizar com maestria e dignidade as obras de repertório, e que são a referência e a motivação de novos bailarinos. O Brasil vem exportando nossos grandes talentos, refletindo na memória cultural que vai se tornando cada vez mais diluída, fugaz e efêmera. O balé clássico permanece vivo e atualizado no imaginário dos bailarinos e apaixonados pela arte no Brasil. Precisamos que nosso público tenha consciência dessa perda para que possamos restabelecer essa relação junto aos interpretes que estão saindo para o mundo em busca de reconhecimento. Contribuir para que possamos resgatar nossa arte, nossos sonhos e nossa história. Entender, respeitar e nutrir a memória nos faz lembrar que tudo é possível, principalmente dançar!!!

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Bailarina formada pela Escola de Danças do Teatro Guaíra, em Curitiba, complementou seus estudos no Centro Internacional de Dança Rosella Hightower, em Cannes, na França. É graduada em Dança pela Faculdade de Artes do Paraná (Licenciatura e Bacharelado). Atuou como bailarina solista na Companhia Nacional de Bailados em Portugal e em Freiburg, na Alemanha, e como bailarina principal do Balé Teatro Guaíra, uma das mais importantes cias de dança do país. É autora e ilustradora dos livros "Balés Ilustrados: Giselle", e "Balés Ilustrados: Uma Enciclopédia para Dança Clássica". Atualmente, é maître de dança do Balé Teatro Guaíra.

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