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As faces do plágio pelos bailes da vida

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Em geral, concebemos o plágio de forma reprovável, como a apropriação de algo que pertence a outro. Mas seu significado é aceito também como sinônimo de imitação. Plagiar pode ser má conduta, mas pode ser a única forma de uma dança de salão nascer e se manter viva.

São crescentes as revelações de plágios, inclusive muito antigos, dos quais a dança não escapou. Vejamos alguns casos particularmente interessantes no âmbito das danças de baile.

O livro ‘Novíssimo e completo Manual de Dança, tratado theorico e pratico das danças de sociedade’, editado pela Garnier, no Rio de Janeiro, foi anunciado à venda em periódicos brasileiros em 1890, seu autor seria Alvaro Dias Patricio. Mas este livro é muito semelhante a outro, de autoria do professor italiano de dança Carlo Blasis, editado em diferentes línguas e vendido por alguns países europeus em meados do século XIX. Uma das edições mais populares é francesa, de 1866, intitulada ‘Nouveau manuel complet de la danse, Traité théorique et pratique de cet art depuis les temps les plus reculés jusqu´à nos jours’.

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Folha de rosto dos livros disponível no website da Biblioteca Nacional da Espanha.

Carlo Blasis foi dançarino, coreógrafo, professor e escritor nascido na Itália em 1795. Viveu sob a reputação de docente rigoroso, vindo a falecer em 1878. Quando ambos os manuais são lidos, a semelhança entre eles chama a atenção. A sequência de assuntos é praticamente a mesma e, por exemplo, no capítulo ‘Utilidade da dança’ de Dias Patrício, encontramos os mesmos conteúdos do capítulo ‘Utilité de la danse’ do livro de Blasis. Parte considerável da publicação de Dias Patrício parece uma tradução do livro de Blasis sem qualquer menção ao autor original. Nos anúncios de aulas de dança que Dias Patricio publicou poucos anos antes do início das vendas de seu livro, já é possível notar que divulgava ensinar conteúdos do livro de Blasis. Chegou a publicar em 1886 que a Valsa Bostom era “completamente desconhecida de todos os professores do Rio de Janeiro” e que ele, Dias Patrício, teria feito um estudo teórico da “descripção que dá o verdadeiro autor”, da qual seria seu único possuidor. A dança Boston é detalhadamente tratada no livro de Blasis.

Outro caso histórico muito interessante data de 1835 e envolve o nome do professor Lourenço Lacombe, irmão de Luis Lacombe também mestre de dança. Lourenço declara-se nos jornais da época como antigo mestre e critica pessoas que teriam imprimido suas danças com erros. Esta seria a razão pela qual resolveu publicar sua coleção de 67 contradanças e mais duas galopadas. Naquela época não se improvisavam as danças no salão como hoje, elas eram criadas pelos mestres, por isto, a preservação da autoria tinha importância. Esta obra de Lourenço Lacombe foi disponibilizada à venda pela Laemmert, impressora da época. O interessante é que no mesmo ano em que a coleção é anunciada, Lourenço é acusado de ter se apropriado de duas galopadas criadas por outra pessoa. Em anos seguintes os anúncios da sua coleção não incluíram mais as duas galopadas.

Outros casos de plágio envolvendo a literatura e a iconografia sobre dança ao longo do século XIX vêm sendo descobertos. Da mesma forma que hoje é mais fácil plagiar, também é mais fácil constatar cópias desautorizadas.

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Já para dança de salão propriamente dita, os valores são outros. Pouco vale para uma dança, um movimento que não é plagiado, ou imitado, e a ela não se incorpora. Um iniciante não aprende uma dança de salão sem copiar o que os mais experientes já dominam. Passos nascem no clima fértil do salão, e ao serem assistidos por quem compartilha do mesmo espaço são naturalmente reproduzidos. As replicações sofrem erros que também passam a fazer parte da dança como variações. Danças improvisadas pedem por estas novas inspirações que brotam no calor do plágio, assim parece ter surgido cada uma das danças de salão. Este processo cria um espetáculo incrível de diversidade.

Em nossas pistas de hoje a criação de um movimento novo, frequentemente é resultado de um momento sensorial feito por um conjunto de vidas. A construção é coletiva e não individual, as autorias são sadiamente fusionadas. O produto final, mesmo em constante transformação, não é desta ou daquela pessoa, é de um povo que fervilha em grupo tempos propícios para concepção.

Por esta perspectiva, não há como negar que o plágio tem lá seus encantos honestos no salão e, ao seu modo, fez nossas danças serem o que são…

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

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