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Anda Esquecido? Vem Dançar!

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É crescente o número de pessoas que se queixam de perda de memória, esquecimentos fugazes e distrações no cotidiano. Ao mesmo tempo, vemos o aumento da longevidade populacional, tanto mundial quanto brasileira (cerca de 2% na última década), de modo que o declínio cognitivo se torna uma preocupação presente. Todos queremos viver mais, mas, é claro, aproveitando a vida, com capacidade de julgamento, boa memória e atenção preservada.

Muito se tem dito a respeito dos benefícios da dança, em suas diversas modalidades, estilos e técnicas: melhora cardiovascular, respiratória, metabólica, osteomuscular, psicossocial, e tantas outras nuances. As fontes de informação, leigas ou técnicas, são generosas em enaltecer a dança. No entanto, hoje queremos focar especificamente no potencial da dança sobre melhorar habilidades cognitivas, atenção e memória.

Antes de tudo, convém lembrar que esquecer as chaves, ou o nome de um artista famoso, não deve ser sempre um sinal de alerta. Não quer dizer, necessariamente, que seja um problema orgânico, ou que haja uma lesão cerebral. Em um mundo cada vez mais facilitado pela tecnologia, nosso cérebro pode “ficar de férias”. Não precisamos mais lembrar o número de telefone que queremos discar, porque o aparelho nos lembra; não precisamos mais interpretar um mapa, porque o aplicativo nos dá o trajeto; não precisamos lembrar uma palavra estrangeira nem a melhor forma de usá-la, porque o tradutor eletrônico faz isto para a gente. Neste sentido, a tecnologia pode estar atrapalhando um pouco a agilidade dos nossos centros de comando e decisão.

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Aquela palavra que “está na ponta da língua” e não vem, também não é motivo para assustar-se. Nosso cérebro escolhe o que deve lembrar, e as prioridades são dadas por motivos afetivos, frequência de uso e necessidade da informação, entre outros fatores. É normal e até desejável que não lembremos de tudo que acontece ao nosso redor. Nosso cérebro é seletivo, quer nós queiramos, quer não. Ele trabalha dentro do conceito de abstração, que é esse esforço de refinamento e seleção do essencial para obter-se um conhecimento.

O cérebro “aprende caminhos” para realizar tarefas; são trajetos de neurônios (células do tecido cerebral) em série, que ligam áreas estratégicas para a realização daquela tarefa. Se não usamos estes trajetos neuronais, é como uma estrada que fica abandonada: pode até ter sido bem pavimentada, mas com o passar do tempo vai ficando cheia de buracos, e em algum tempo, não se pode mais passar por ela.

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Muitos estudos unindo neurociências e dança (ainda que pequenos, e com limitações metodológicas) tem apontado achados interessantes:

  • Se o objetivo é melhorar o funcionamento do cérebro, parece que a dança leva vantagem sobre a caminhada e a corrida. Estas atividades melhoram o fôlego, mas não requerem tanta participação de funções executivas do cérebro. Funções executivas são um conjunto de habilidades que, de forma integrada, permitem ao indivíduo planejar, tomar decisões, avaliar a eficiência e a adequação de comportamentos, abandonar estratégias ineficazes em prol de outras mais eficientes, monitorar detalhadamente suas ações e, desse modo, resolver problemas imediatos, de médio e de longo prazo. A dança, sobretudo se realizada em pares, e também os esportes coletivos, parecem atender a estes requisitos;
  • old-couple-enjoyIdosos com prejuízo cognitivo leve parecem dar mais importância a atividades sociais que envolvam lembranças queridas, música e família. A prática de atividades envolvendo música e sociabilidade melhorou a memória implícita ou de procedimento, desencadeando lembranças positivas relacionadas ao conteúdo emocional das memórias de longo prazo. Ou seja: os sentimentos e emoções ajudam os procedimentos cerebrais de fixação de memórias. É fácil perceber que lembramos mais dos passos de uma dança que gostamos, ou que nos traz lindas lembranças…
  • Pesquisas com adultos maduros e idosos que tiveram vivências com dança e música demonstraram melhora no desempenho de atividades diárias, da movimentação (habilidades visuais-espaciais e planejamento de ações motoras; flexibilidade), do autocuidado, da imagem corporal, e da fala narrativa. Houve diminuição de comportamentos agressivos, agitação, ansiedade e percebeu-se um sentimento de identidade de grupo;
  • old-balet-dancerForam observados também efeitos no humor dos cuidadores de idosos que eram submetidos a programas de dança. Os familiares e profissionais de saúde relataram maior satisfação e qualidade na interação social com o sujeito cuidado. Quanto mais dançava, mais feliz ficava o idoso; e quanto mais feliz ficava, melhores cuidados recebia de seus cuidadores;
  • As modalidades praticadas nos estudos que mostraram estas evidências foram danças folclóricas e populares (afro, danzón), danças circulares, valsa, tango, foxtrot e ballet. Mas os autores alertam que a maioria dos estudos na área são apenas observações do que já acontecia nas rotinas dos indivíduos, ou pequenas intervenções, fazendo-se o que era possível. Não significa que outras danças não tenham os mesmos benefícios, ou ainda maiores. O importante é dançar!

Mas, afinal, como acontecem todos estes benefícios?

Parece haver uma relação com a angiogênese, que significa “formação de novos vasos sanguíneos”. Quanto mais exercitamos nosso corpo, mais oxigênio ele necessita; e para entregar oxigênio, necessitamos das células que circulam no sangue. Assim, é natural que um exercício realizado regularmente estimule a formação destes novos vasos. Isto acontece em todo o nosso corpo, inclusive no cérebro, melhorando o funcionamento deste complexo órgão.

 

Brain-waysEntão, aí vão dicas para tirar o melhor proveito da dança para nosso cérebro e atenção:

  • O cérebro ativo e com bom funcionamento não é preguiçoso; está sempre trabalhando fora de sua zona de conforto. Aprenda sempre novas sequências e movimentos. Dançar o que já se sabe, ou o que já se aprendeu há muito tempo, é muito agradável e exercita outros potenciais, mas não exige tanto de nossa concentração e memória;
  • Tarefas guiadas externamente (por exemplo, controle motor dependente de um ritmo musical e das ações de um parceiro) parecem estar associadas com a ativação de regiões envolvidas em funções de planejamento e gerenciamento. Ou seja, dançar no seu próprio ritmo e sem interação com um par pode ser bem mais fácil, mas muito menos desafiador. Utilize músicas de diferentes andamentos, siga o ritmo, aprenda as contagens características do aprendizado de cada dança, e sintonize-se com um parceiro. Seu cérebro será obrigado a adequar-se e a resolver problemas;
  • Aprenda e pratique dança ao som de músicas que você goste; elas ativam centros de controles de emoções, favorecendo a aquisição de memórias;
  • A aquisição de conhecimentos e habilidades está ligada à constância e à regularidade. Para que a dança proporcione resultados perceptíveis no funcionamento do cérebro – diferenças que você vai notar no dia-a-dia – não basta ir a um ou outro baile, ou dançar na festa de casamento dos amigos. Pratique regularmente e com disciplina;
  • Não esqueça de manter em dia sua revisão clínica para poder dançar com tranquilidade. Se os sinais de perda de memória e atenção persistirem ou avançarem de forma preocupante, o médico neurologista é o profissional a ser consultado.

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Bem, vários destes estudos são apenas iniciais, feitos com pequenas amostras e necessitam aprofundamento e confirmação. Entretanto, já conseguimos compreender melhor porque a dança é tão eficiente em nos fazer não apenas mais felizes, mas também mais atentos e espertos.

LEITURA RECOMENDADA:

  • Memory-fingerGarcia-Cairasco, N. O CÉREBRO E AS ARTES VISUAIS. III Congresso “Arte e Ciência” ECA-USP. Ribeirão Preto, nov 1998.
    Guzmán-García, A.; Hughes, J. C.; James, I. A.; Rochester, L. DANCING AS A PSYCHOSOCIAL INTERVENTION IN CARE HOMES: A SYSTEMATIC REVIEW OF THE LITERATURE. Int J Geriatr Psychiatry. 2013; 28: 914–924.
  • Moreira, A. G. G.; Malloy-Diniz, L. F.; Fuentes, D.; Correia, H.; Lage, G. M. ATIVIDADE FÍSICA E DESEMPENHO EM TAREFAS DE FUNÇÕES EXECUTIVAS EM IDOSOS SAUDÁVEIS: DADOS PRELIMINARES. Rev Psiq Clin. 2010; 37(3): 109-12.
  • Scaranto, F. RELAÇÕES ENTRE O PROCESSO ARTÍSTICO E O FUNCIONAMENTO DO CÉREBRO. Revista-Valise, Porto Alegre. Jul 2015; 5(9), 137-148.
  • Sevdalis, V., Keller, P. E. CAPTURED BY MOTION: DANCE, ACTION UNDERSTANDING, AND SOCIAL COGNITION. Brain and Cognition. 2011; 77: 231–236.
  • Tolocka, R. E.; Leme, L. C. G.; Zanuzzo, L. M. L. ATIVIDADES DE DANÇA, MARCHA E EQUILÍBRIO DE IDOSOS. Pensar a Prática, Goiânia. Set-Dez 2011; 14 (3): 1-11.
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Médica especialista em Reumatologia e Medicina do Esporte. Professora Assistente do Curso de Licenciatura em Dança da UFRGS. Mestre e doutoranda em Artes Cênicas/PPGAC UFRGS. Membro da International Association for Dance Medicine and Science (IADMS). Diretora, coreógrafa e bailarina no Grupo LAÇOS – Dança de Salão Contemporânea.

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