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A vida pede pressa, e a dança?

Em artigos anteriores para a Dança em Pauta, trouxe à reflexão a questão de ritmo, musicalidade e dança de salão, pois este foi o tema desenvolvido em minha especialização nesta área. Não só porque a questão musical passa, indiscutivelmente, pelo tempo, aliás, diretamente relacionado ao ritmo, mas por outras questões, este se constitui em um tema que me chama muito a atenção. Como bióloga, tive a oportunidade de estudar sobre os ritmos biológicos existentes nos seres humanos e demais seres vivos. Em nosso corpo, diversos processos como a frequência respiratória e cardíaca, a secreção hormonal, a produção de impulsos nervosos, entre outros, possuem ritmos já bastante estudados e estabelecidos, que se repetem em intervalos diferentes, porém, muitas vezes, relacionados.

A partir de uma experiência de cerca de oito anos como professora de dança de salão, reparo, constantemente, em uma tendência dos alunos em acelerarem o tempo de execução dos passos, tanto na presença da música, quanto, especialmente, quando estão treinando na ausência dela. Quando há música, poderíamos pensar que ela traga algum grau de excitação ou que instigue à necessidade de não atrasar a execução dos passos em relação a ela, mas quando não há música, nos perguntamos: por que essa aceleração tem sido uma constante em turmas e momentos diferentes e no treino de passos referentes a gêneros musicais também diversos? Isso teria como base uma crescente ansiedade ou necessidade de cumprir rapidamente as tarefas que nos são solicitadas?

Uma prática que tenho feito é deixar os alunos por vários segundos na frente do relógio da sala de aula, que, no caso, tem um ponteiro de segundos. Em princípio, eles ficam olhando o ponteiro oscilar de um em um segundo, depois, em um número cheio, fecham os olhos e tentam manter a contagem dos segundos, por pelo menos 30 segundos, sem ver o ponteiro. Resultado: a maioria também acelera a contagem quando está de olhos fechados! Assim, uma outra questão seria: se a variável tempo está inserida até mesmo em nosso funcionamento corporal, por que nossa percepção individual, interna, de intervalo de tempo está tão acelerada?

Não tenho a necessária formação para discutir em profundidade a questão psicológica que estaria por trás desse fato, mas, mesmo baseada no senso comum, muitas vezes assistimos ou lemos reportagens que tratam sobre o quão acelerada tem sido a vida moderna, em função de nossos vários compromissos, da enxurrada de informações visuais que recebemos nas ruas, na internet e via outros meios de comunicação, entre outros fatores. Como alternativa, cada vez mais têm sido propostas técnicas de meditação, ioga, pilates, massagem relaxante, entre outras, que nos levam a uma introspecção ou relaxamento suficientes para buscar retomar nosso ritmo interno e alguma tranquilidade, mesmo mediante as exigências da vida atual.

Nossa pergunta então seria: e a dança de salão, pode contribuir ou se relaciona com tudo isso de alguma forma?

Acredito que sim, se observarmos alguns fatores direta ou indiretamente relacionados a ela. No artigo publicado nesta revista eletrônica, “Música, cérebro e dança de salão: equação de emoções”, por exemplo, a autora Izabela Lucchese Gavioli já discorreu sobre a questão do gênero musical e seus diferentes efeitos psicológicos no ouvinte. Por exemplo, os ritmos de andamento mais rápido podem resultar em aceleração de nossas respostas emocionais e/ou psicofisiológicas, o contrário, podendo ser desencadeado pelos ritmos mais lentos. É sabido, inclusive, que ouvir música durante um aquecimento, pode até mesmo aumentar a potência de resposta muscular, por exemplo, em práticas matutinas de atividade física. Assim, isso pode ser considerado na hora de escolher qual tipo de gênero de dança de salão será o praticado, visto que se já estamos demasiadamente acelerados, ritmos como salsa, forró, sertanejo, samba, entre outros, podem potencializar esta aceleração quando entramos em contato, com as músicas que os definem. Pensando por este lado, ritmos mais tranquilos, como bolero e tango, poderiam ser mais indicados.

No entanto, dois outros aspectos se contrapõem. O primeiro: a prática de dança de salão também pode ser motivada por algum aspecto depressivo e, neste, caso, os ritmos mais acelerados voltariam a ser os mais indicados pelas mesmas razões expostas acima. O segundo: hoje em dia há uma enorme gama de tipos musicais inseridos na prática de um dado gênero de dança de salão, assim, pode ser que uma aceleração do organismo seja menos induzida por um samba canção ao invés de um tango eletrônico derivado do rock. Então, os ritmos não se definem por si mesmos em termos da resposta psicofisiológica que irão causar, mas tais aspectos podem e devem ser considerados pelos praticantes. E mais ainda, o professor de dança de salão pode, em princípio, alterar os ritmos e músicas selecionadas para suas aulas, conforme queira levar a um estado de maior excitação ou relaxamento corporal.

Mas voltando à questão da nossa aceleração causada pela vida diária atual, embora sem deixar de permear tudo o que foi discutido, atividades que nos ajudem a resgatar nossos ritmos internos, especialmente a regularidade dos mesmos, parecem melhorar respostas ou padrões psicológicos de bem-estar e autoconfiança. É impressionante, mas desde quando somos bebês, a regularidade diária estimulada pela vida familiar pode influenciar nossos níveis futuros de ansiedade, por exemplo, na fase escolar.

Considerando que a prática da atividade física, por si só, já é altamente reconhecida como fator indispensável para a saúde, aliada a isso, a da dança de salão traz fatores adicionais como a influência prazerosa da música e do resgate do contato real com outros seres humanos, contato tão, digamos, eletrônico, hoje em dia. Contudo, nossos ritmos fisiológicos teriam alguma relação com a prática dessa modalidade? Ou, vislumbrando as aulas de dança de salão como uma ampla fonte de saúde bio-psicológica, como nós, profissionais da área, fazemos a escolha de conteúdos que a preenchem?

Neste artigo, estamos apenas levantando estas questões temporais, que pretendemos voltar a discutir e ampliar posteriormente. Se possível, deixe sua opinião, ela é muito importante para ampliarmos as discussões da relação entre dança e saúde em um amplo contexto e, pode, sem dúvida, contribuir para melhorarmos nossas práticas e/ou escolhas de quais aulas optaremos por ministrar e fazer!

* Por Ana Maria Caliman Filadelfi
Especialista em dança de salão pela FAMEC; técnica musical em piano; mestre e doutora em Biologia pela USP, é docente do Departamento de Fisiologia do Setor de Ciências Biológicas da UFPR. Praticante de dança de salão desde 1993, atualmente é professora na Oito Tempos Escola de Dança, em Curitiba.

Leitura recomendada:

  • Chtourou, H.; Chaouachi, A.; Hammouda, C.; Chamari, K.; Soulssi, N. Listening to music affects diurnal variation in muscle power output. Int. J. Sports Med., v.33, 2012.
  • Escames, G.; Ozturk, G.; Baño-Otálora, B.; Pozo, M.J.; Madrid, J.A.; Reiter, R.J.; Serranol, E.; Concepción, M.; Castroviejo, D.A. Exercise and melatonin in humans: reciprocal benefits. J. Pineal Res., v. 52, 2012.
  • Gavioli, I.L. Música, cérebro e dança de salão: equação de emoções. Dança em Pauta, 11 jun 2012. (http://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/musica-cerebro-e-danca-de-salao-equacao-de-emocoes/).
  • Marques, N.; Menna-Barreto, L.S. Cronobiologia: princípios e aplicações. EDUSP, 2003, 3ª. ed., 435pp.
  • Monk, T.H.; Burk, L.R.; Klein, M.H.; Kupfer, D.J.; Soehner, A.M.; Essex, M.J. Behavioral circadian regularity at age 1 month predicts anxiety levels during school-age years. Psychiatry Res., v. 178, 2010.
  • Schaefer, M. O ouvido pensante. Editora Unesp, 1991, 399pp.
  • Steiner, R. Antropologia meditativa, Editora Antroposófica, 1997, 79pp.

 

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4 Comments

  1. Muito válidos os comentários aqui deixados! Agradeço, embora tardiamente (peço desculpas). Como tentei dizer no artigo, creio que tudo é uma reflexão e, acrescento, cada situação é diferente da outra, assim como cada aluno também.
    Prezado David, de forma alguma acredito que os ritmos mais acelerados não devam ser praticados, apenas que devemos ter consciência de alguns efeitos que eles podem ter, inclusive os benéficos, por exemplo, mas não só, no caso de alguém deprimido ou simplesmente que não teve o seu melhor dia… Aqui em Curitiba, aliás, precisamos deles para não congelar no inverno que não é fácil!
    Com certeza, todos queremos o bem estar dos nossos alunos, sem deixar que a toda a riqueza cultural que envolve a dança de salão seja divulgada e acolhida sempre!!
    Grata, saudações dançantes!!!

  2. Podemos pensar também em controle motor e tempo de reação frente ao estímulo seja ele musical ou o comando da voz “…sete e oito…”.
    Instigante texto……

  3. Meu trabalho junto as danças de salão é de desaceleração do cotidiano das pessoas que a mim chegam. Trabalho especialmente com Bolero e tango direcionados para suas práticas no salão. Costumo falar aos meus alunos que quanto mais lento o andamento das músicas mais dificultoso será de dançá-las. Porém, o controle de si e de todos os outros elementos musicais – a saber, ritmo, melodia e harmonias – caracterizarão o que se reconhece como MUSICALIDADE. Não que o contrário não ocorra com ritmos e andamentos mais acelerados, mas que o grau de dificuldade para com os mais lentos é sabidamente maior. O que isso significa em prática? Bem, observando meus alunos, noto controle de suas ansiedades, atenção, concentração, leveza e propriedade sobre o tempo principal: seu próprio tempo. Confirmo os resultados junto ao Bolero e Tango salão, mas me preocupo se o presente artigo, ao sugerir isso, em algum grau, não desqualifica outras danças de ritmos mais rápidos (salsa, samba, etc). Contudo, revista dança em pauta, e seus colaboradores, continuam a contribuir, a cada edição, com nossa estimada dança de salão brasileira. Parabéns!

  4. Como dito no artigo, as pessoas estão acostumadas com um cotidiano acelerado, tendo hora marcada para estudar, trabalhar, descansar…
    O relógio se tornou um ponto de referência no qual as pessoas executam suas atividades de acordo com o tempo cabível em um período acordado.
    Quando a pessoa não tem acesso a esse ponto de referência, se torna natural acelerar suas atividades, com receio de atrasar outro compromisso.
    Pessoas pouco pacientes serão tomadas pela ansiedade, gerando um grande desconforto por causa da incerteza de quando será o agora.

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