Colunas, Flamenco em Pauta

A política nas letras da música Flamenca

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Queridos leitores, depois de um longo período, retomo a nossa coluna sobre o Flamenco no Dança em Pauta. Continuando a reflexão do artigo anterior, toca agora fazer uma breve contextualização do flamenco no período da Segunda República Espanhola. Os historiadores, aficionados e flamencólogos concordam que esse foi o período em que houve mais compromisso político nas letras flamencas, o que é bastante compreensível, uma vez que era um período de forte ebulição social e cultural.

A Segunda República Espanhola é proclamada em 1931, ano em que começa o voto direto e também o voto das mulheres. Esse ambiente republicano era, portanto, de conquistas sociais e democráticas e o cante flamenco refletia a alegria popular com esses avanços. “De Bizco Amate a Manuel Vallejo, muitos foram contagiados pela ebulição dos assuntos públicos. El Nino de la Huerta, Cepero, Corruco de Algeciras, Angelillo”, diz o jornalista e flamencólogo José Luiz Ortiz Nuevo, no livro Pensamiento político en el cante flamenco.

Como exemplo dessa fase temos os Fandangos Republicanos do sevilhano Manuel Vallejo:

Al grito de ¡ Viva España ¡
Después de escuchar el himno
Al grito de ¡ Viva España ¡
Canto un fandango gitano
Y en él llevo puesta mi alma
Como buen republicano.
Por la libertad de España
murió Hernández y Galán
un minuto de silencio
por los que ya en gloria están
Suplico en este momento.

.
Também cantou por fandangos no contexto republicano Niño de la Huerta:

Son Hernández y Galán
Héroes republicanos
España con su bondad llora hoy por sus hermanos
que en su corazón están.

É desse mesmo período o popular Tangos da Niña de los Peines, que todos cantamos e adoramos bailar numa Fiesta. Esses tangos falam da beleza da ponte de Triana enfeitada com as bandeirinhas republicanas:

Triana, Triana
Qué bonita está Triana
Cuando le ponen al puente
Banderas republicanas
Que cuando le ponen al puente
Las banderitas republicanas

.
Os direitos sociais estavam em alta e tudo propiciou a formação do primeiro sindicato de artistas flamencos, que se originou da Unión General de los Trabajadores. O presidente do sindicato era nada menos que o cantaor de flamenco José Cepero.

A cantora de flamenco Niña de la Puebla.
A cantora de flamenco Niña de la Puebla.

Entre tantas histórias interessantes de luta e de conquistas, particularmente, gosto muito da figura de Niña de la Puebla, uma mulher sindicalista, anarquista, cega desde os cinco anos, que conseguiu não ser presa pelo regime de Franco, que viria na sequência.

Desculpem, mas por ser ressonante ao movimento atual das mulheres no nosso país, preciso falar um pouco mais dela. Ela, mulher, cega, sindicalista, anarquista era a cantaora mais famosa dos anos 30 e 40. Além de grande artista, foi empresária, tinha uma companhia própria de flamenco, a qual administrava e dirigia, levando junto grandes nomes, tais como Sabicas. Corajosa que só ela e consciente do seu papel, estreou em plena guerra civil (1937) o tema Campanilleros de la libertad: “En los pueblos de mi Andalucía/ van los campesinos al amanecer/ con fusiles y bombas de mano/ al fascio asesino lo quieren barrer”.

Chato de las Ventas, outro cantaor desta época, nos faz lembrar que esse período festivo durou pouco e o que veio na sequência foi muito duro. Ele foi fuzilado em razão de seus ideais republicanos logo que começou a Guerra Civil Espanhola.

Em 1936, início da Guerra Civil Espanhola, muitos flamencos, por serem considerados de esquerda e não favoráveis ao ditador, foram fuzilados, presos ou fugiram para outros países. Garcia Lorca é o grande exemplo, por ter sido executado em Granada. Miguel de Molina e Niño de Utrera são alguns nomes dos que fugiram para a Argentina.

Em razão do regime antidemocrático, muitas letras republicanas ou com conteúdo social não puderam ser cantadas por muitas décadas. É bastante significativo o que aconteceu com o ‘Tangos de Triana’ citado acima, que passou a ser cantado substituindo “Las banderitas republicanas” por “Las banderitas gitanas”.

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É certo que o flamenco, e de maneira mais clara o cante flamenco, desde a sua origem documentada, tem sido a voz da situação social, econômica e política. Em entrevista para o jornal espanhol Diagonal, o artista flamenco Manuel Molina contou por que durante o franquismo o flamenco foi menos político: “Porque você era preso na hora, as pessoas não se atreviam”.

Como um caleidoscópio da sociedade, no mundo flamenco também havia artistas simpatizantes do outro lado da política. Os que se aproximaram de Franco e aproveitaram que o franquismo se apropriou do flamenco para criar uma identidade nacional e vender uma ideia exótica da Espanha, triunfaram ou pelo menos não morreram de fome ou fuzilados.

Relembrar essa parte triste da história pode nos ajudar a não repetir os mesmos erros, ainda que seja por respeito a tantos irmãos flamencos que morreram em nome de conquistas que, muitas vezes, não valorizamos hoje em dia.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Integrante do Grupo Perla Flamenca, dirigido por Miri Galeano (Perlita) e Jony Gonçalves, adora ouvir e contar histórias, seja com palavras, com a dança ou com imagens. Jornalista, formada pela UFPR e bacharel em Direito pela Unicuritiba, pós-graduada em Estética e Filosofia da Arte pela UFPR. Cursou mestrado em Sevilha, onde se perdeu muito pelas ruas, tirou fotos com famosos e mergulhou na cultura flamenca.

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