Ballet em Pauta, Colunas

A importância da técnica para o trabalho em pontas

Sinônimo de bailarina clássica, a técnica de pontas remonta a Europa do século XIX.

Devido a mudanças políticas, sociais e culturais causadas principalmente pelas Revoluções Industrial e Francesa, novos ideais surgiram apoiados nos pensamentos filosóficos e políticos iluministas: liberdade de expressão, afirmação dos direitos e sentimentos do indivíduo, exaltação da natureza, entre outros, deram origem ao movimento romântico que, apesar de tardio na dança clássica, possibilitaram aos bailarinos e coreógrafos, subverter a rigidez dos gestos codificados e se debruçarem para fluidez e poesia do corpo.

O movimento romântico tinha como principais características o cultivo da emoção e da fantasia, a evasão para mundos exóticos, a exaltação da natureza, o gosto pela Idade Média, defesa dos ideais nacionalistas e o subjetivismo.

Litogravura de 1831 da bailarina Marie Taglione .

Os amantes da dança queriam se comover, e foi no bailado “La Sylphide”, nessa busca pelo sobrenatural e pelo etéreo que a bailarina Marie Taglioni surgiu como se estivesse flutuando, dançando sobre as pontas. Essa não foi a primeira aparição de uma bailarina sobre as pontas, mas foi sem dúvida a obra que marcou, definitivamente, a introdução da técnica de pontas no balé clássico.

Esse novo elemento, onde a ponta dos dedos dos pés esticados do artista, suportam todo o peso do corpo, é uma especificidade da técnica feminina, embora tanto homens quanto mulheres sejam capazes de realizar.

O trabalho de pontas é realizado usando sapatilhas especiais, que possuem um reforço em sua estrutura, que reduz e auxilia na distribuição correta do peso do corpo sobre os pés.

Uma séria avaliação e acompanhamento meticuloso são necessários para introduzir o trabalho de pontas.

Demi-plié | Ilustração: Regina Kotaka/livro Balés Ilustrados.

Fatores como, idade, força muscular, controle do alinhamento corporal devem ser observados pelo professor em seu aluno. Embora a idade não seja um pré-requisito, o trabalho de pontas exige que a musculatura dos pés e tornozelos estejam fortes o suficiente para que a carga do corpo não seja diretamente descarregada sobre os ossos, porque em média, até os 13 anos de idade, os ossos assim como a criança, ainda estão em processo de desenvolvimento e não atingiram sua rigidez, podendo ocorrer fraturas por trauma na placa epifisária capazes de interromper o crescimento adequado dos ossos. É possível um especialista verificar se os pés já se encontram suficientemente ossificados e prontos para dar início ao trabalho de pontas.

Diferente da idade, a força muscular das pernas, pés e tornozelos, o controle e consciência do alinhamento do corpo são requisitos obrigatórios e que darão suporte ao bailarino neste momento onde a base, que sustenta o corpo, ficará reduzida. Um bom parâmetro de avaliação, é a assiduidade e o comprometimento às aulas. Se o bailarino já consegue acompanhar com propriedade toda uma rotina de aulas, barra e centro, que contemple adágios, giros e saltos elementares, que consiga sustentar o en dehors e o equilíbrio sobre as meias pontas é um bom indicativo de que a técnica de pontas pode ser iniciada.

Relevé | Ilustração: Regina Kotaka/livro Balés Ilustrados.

O preparo dos alunos para técnica de pontas é gradual e deve ser introduzido, em média, um ano antes de calçarem as sapatilhas de pontas. Na barra com as duas mãos apoiadas dando suporte, exercícios de relevés em todas as posições e échappés são realizados para fortalecer pés, tornozelos e o alinhamento. Após os alunos estarem suficientemente familiarizados e fortes com os exercícios sobre dois pés, é que pas de bourrés e retirés poderão começar a ser solicitados. Durante a aula, após completarem os exercícios de barra e ao se deslocarem para o centro o professor deve continuar a enfatizar a sustentação do en dehors e o trabalho dos pés.

Após o preparo consistente é que o aluno passará a executar, já nas pontas, mas ainda de frente a barra, os mesmos exercícios realizados sobre as meias pontas antes de ir progressivamente para o centro. Esses exercícios de frente para a barra, se tornarão um ritual de aquecimento dos pés e deverão ser realizados independentemente do nível técnico conquistado pelo bailarino. Os exercícios do centro devem ser ministrados inicialmente sobre os dois pés para, gradualmente, elevar o grau de dificuldade e resistência, recorrendo a passos e sequências mais elaboradas e complexas, para que o bailarino adquira a cada dia mais confiança, desprendimento e naturalidade nas transições dos movimentos em pontas.

Echappé | Ilustração: Regina Kotaka/livro Balés Ilustrados.

Vale lembrar que o tempo musical para os passos realizados sobre as pontas deve ser em cima, ou seja, o demi-plié que prepara para a subida nas pontas não deve ter um valor exagerado, sua extensão e tempo de permanência é bem menor, a ênfase do movimento é dada já sobre as pontas onde o bailarino deve se sustentar o maior tempo possível.

Para verificar o alinhamento adequado, o bailarino deve, ao estar sobre as pontas, em uma vista frontal da perna, traçar uma reta imaginária que deve partir da crista ilíaca, passar pelo meio do joelho e do tornozelo e finalizar entre as articulações do hálux e do segundo dedo. Lateralmente, a linha imaginária deverá passar através do joelho, articulação do tornozelo e articulações do dedão do pé. Somente com o pé em pontas estando verticalmente alinhado com a perna, será possível adquirir a força suficiente para subir, ficar, girar e até mesmo saltar sobre as pontas.

Formas do pé de base e pé de ação: 1) pied a plat; 2) sur la demi-pointe; 3) sur la pointe | Ilustração: Regina Kotaka/livro Balés Ilustrados.

A técnica de pontas incorpora três diferentes métodos para o bailarino poder fazer a transição do pied plat (pé todo) para a ponta, são eles: por relevé e élevé, por sauté e por piqué. Neles, força, resistência, equilíbrio e controle são trabalhados. Cada transição contém sua especificidade e particularidade, que garantem ao bailarino transitar com qualidade entre movimentos de adágio, allegros e de controle.

Em todas as metodologias, os dedos dos pés ao subir nas pontas devem ser mantidos alongados, esse cuidado fará com que a musculatura de toda a perna seja ativada promovendo espaço entre as articulações, principalmente entre os ossos dos pés, evitando sobrecarga e excesso de peso sobre um único ponto. Observe as diferenças:

  • Relevé e élevé: O bailarino deverá sempre passar suavemente pelas meias pontas para depois estender totalmente os dedos e, só então, alcançar as pontas dos pés. O movimento tanto de subida como de descida deve passar pelas meias pontas sem perder o contato com o solo, podendo ser realizado em diferentes velocidades, sobre um ou dois pés.

    Elevé | Ilustração: Regina Kotaka/livro Balés Ilustrados.
  • Sauté: Desenvolvido por Enrico Cecchetti, o bailarino sobe nas pontas com um pequeno salto, o impulso é apenas o suficiente para perder o contato com o solo e aterrissar sobre as pontas dos pés. Mais vivo e brilhante é próprio para ser utilizado em allegros, já que a transição para as pontas é realizada de uma só vez, sobre um ou dois pés.
  • Piqué: o movimento de transição é realizado pela ação de pisar, de um pé para o outro, impulsionando e transferindo todo o peso do corpo sobre a ponta. A perna que receberá o corpo deverá manter o joelho e o pé totalmente esticados e sem retroceder. O piqué deverá obedecer a distância da perna esticada. O impulso deverá ser suficiente para que o corpo encontre um novo estado de equilíbrio.
Piqué | Ilustração: Regina Kotaka/livro Balés Ilustrados.

Conhecedores das advertências e princípios acima, o ideal seria que o professor acompanhasse o aluno na escolha da primeira sapatilha de pontas. Existem vários tipos e formatos de sapatilhas, pois os pés variam não só no tamanho e comprimento dos dedos, como também na largura e no ângulo de dorsiflexão, por isso a orientação do professor ser tão importante nesse momento.

Após a aquisição da sapatilha apropriada, costurar as fitas passará a ser tarefa dos próprios artistas, pois, assim como a sapatilha ideal, a descoberta da distância das fitas e elásticos será individual. Apenas o sistema de amarrar as fitas é que deve ser observado com atenção para que não incomodem no tendão e mesmo assim, as sapatilhas devem ficar firmes e confortáveis para dançar.

Normalmente o comprimento da fita na parte lateral externa da sapatilha, é maior do que o da interna, que permite posicionar o nó atrás do maléolo medial, onde há uma pequena depressão, ideal para esconder o nó e as pontas das fitas que sobram após a amarração.

Cuidados devem ser observados, pois dançar nas pontas não é tão sublime quanto parece, portanto é possível adotar algumas medidas preventivas:

  • Pescoço, ombros e braços não devem apresentar sinais de tensão;
  • Fortalecimento dos tornozelos, pés e centro do corpo são imprescindíveis para técnica de pontas;
  • Manter os dedos (artelhos) alongados e a musculatura da perna acionada;
  • Ter consciência de que os joelhos estão esticados quando estiver sobre as pontas, a não ser que seja propositalmente solicitado que estejam flexionados;
  • O atrito dos pés dentro das sapatilhas ao subir e descer das pontas pode resultar em formação de bolhas e/ou calos, que podem ser prevenidos com o uso de esparadrapos enrolados nas zonas de atrito e ou ponteiras de gel conforme a preferência do bailarino;
  • Escolher a sapatilha de tamanho apropriado para os pés e acessórios de proteção evita que unhas encravem ou ocorram contusões e hematomas nas unhas ou nos dedos dos pés;
  • Manter as unhas curtas evita que as mesmas cortem os dedos adjacentes;
  • Lesões devido aos desalinhamentos dos dedos podem ser prevenidas com o uso de espaçadores dos dedos.
Retiré | Ilustração: Regina Kotaka/livro Balés Ilustrados.

Mesmo com a devida atenção e precauções, algumas lesões podem ser adquiridas por traumas, sendo necessária a avaliação de um médico especialista para indicar possíveis tratamentos para casos como:

  • Deformidades como joanetes, bunionettes e dedos de martelo;
  • Inflamações como bursite, tendinite e sesamoidite;
  • Entorses;
  • Fraturas por estresse.

Sendo assim, a aplicação consciente da técnica de pontas, observando a idade e o preparo muscular para iniciação, embora possa parecer aos bailarinos um processo longo e com resultados demorados, pode proporcionar brilhantismo, segurança e longevidade no desempenho do artista.

Vale lembrar que a técnica é apenas o meio pelo qual o artista/bailarino transcende e, assim, expõe sua alma, sua dramaturgia e sua dança.

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Bailarina formada pela Escola de Danças do Teatro Guaíra, em Curitiba, complementou seus estudos no Centro Internacional de Dança Rosella Hightower, em Cannes, na França. É graduada em Dança pela Faculdade de Artes do Paraná (Licenciatura e Bacharelado). Atuou como bailarina solista na Companhia Nacional de Bailados em Portugal e em Freiburg, na Alemanha, e como bailarina principal do Balé Teatro Guaíra, uma das mais importantes cias de dança do país. É autora e ilustradora dos livros "Balés Ilustrados: Giselle", e "Balés Ilustrados: Uma Enciclopédia para Dança Clássica". Atualmente, é maître de dança do Balé Teatro Guaíra.

1 Comment

  1. LIndo artigo sobre o uso e os cuidados para aprender a dançar em “pontas” As explicações esclarecem muitos pontos que as futuras bailarinas precisam aprender como colocar as fitas nas sapatilhas. Eu não entendo nada de Ballet Clássico ,mas sou apreciadora desta arte. As pessoas nem imaginam sobre os requisitos físicos, anatômicos entre outros como rigidez, leveza de movimentos, alta dose de coordenação motora, equilíbrio, atenção ,rapidez de raciocínio e boa memória. Acredito que você só tem dado muitas contribuições para aperfeiçoamento do Ballet. Parabéns pelo Artigo !

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