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A importância da escolha do repertório musical no ensino da dança de salão

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Em artigos anteriores para o Dança em Pauta, discutimos aspectos diversos sobre as relações entre a dança de salão e a música. Consideramos que uma dança musical é aquela que tem coerência e poesia em relação à música que a embala. Neste artigo trago novos questionamentos sobre o assunto, mais especificamente sobre a escolha do repertório musical para as aulas. Existem músicas que favorecem os diversos níveis de aprendizagem e prática da dança de salão, sendo assim, é importante que o professor escolha as músicas a serem trabalhadas de forma consciente, levando em conta aspectos amplos, além do gosto pessoal do profissional ou de modismos.

Embora sejam ainda raras, as referências sobre música e dança de salão, em seu livro “Música para dança de salão”, a autora Sandra Ruthes também aborda a questão do repertório musical na prática e nas aulas desta modalidade de dança e, alguns dos aspectos aqui tratados, podem ser aprofundados através dessa importante leitura.

Um dos primeiros aspectos a merecer atenção para que a dança seja musical é que os alunos sejam capazes de perceber os tempos ou pulsos musicais e, dependendo do método de ensino de dança de salão, também o tempo forte, que é o primeiro tempo do compasso musical, cuja percepção auxilia, em muito, a situar conscientemente o passo básico a partir de uma dada relação com este tempo. Músicas que possuam marcação bastante evidente geralmente favorecem a identificação destas propriedades e, considerando-se a musicalidade como um dos fundamentos para a dança de salão, é importante utilizá-las nas aulas iniciantes para familiarizar os alunos com o tema. Por outro lado, músicas com pulso de difícil percepção ou acentos musicais incomuns, podem acabar funcionando como um entrave em situar o passo na música e, consequentemente, no aprendizado dos praticantes iniciantes, podendo até mesmo, desestimulá-los a continuar o aprendizado.

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Pode ser mais favorável para alunos iniciantes, por estarem em processo de aquisição de aprendizagem motora na dança, músicas de andamento relativamente lento (ou velocidade menor), que poderíamos chamar de “médio-lentas”, já que as excessivamente lentas podem comprometer o equilíbrio dos praticantes. E, em contrapartida, os alunos intermediários e avançados podem e devem ser desafiados com músicas médio-rápidas e rápidas para desenvolver cada vez mais sua agilidade na prática dos diversos ritmos musicais. Sempre se recomendando em aula, que quanto mais rápidas as músicas e, portanto, os movimentos dos alunos, que estes executem os passos em tamanho menor e com maior atenção ainda para com aqueles que estão em volta na pista de dança, a fim de evitar acidentes que algumas vezes são bastante desagradáveis e perigosos.

silhueta-pose-salaoOutro aspecto interessante, é que várias músicas tem breques ou paradas de seus instrumentos de acompanhamento, em sua maioria, os de percussão. Se a dança pretende ser musical, é recomendável que os dançarinos também parem de dançar ou enfatizem este momento. Quando surge um passo de efeito, como uma pose de bolero, é interessante associar o “momento da foto da pose” com uma parada musical que, em grande parte das músicas, vai coincidir com o tempo forte (daí a recomendação que a percepção deste seja um tema de trabalho com os alunos iniciantes). No entanto, diferentemente do primeiro aspecto tratado, o trabalho das paradas musicais na dança exige já algum domínio corporal, da condução e resposta e da técnica do ritmo em questão, de forma que este pode ser um trabalho interessante nas turmas intermediárias, porém complicado para as iniciantes. Por outro lado, para que mesmo os alunos iniciantes já comecem a se familiarizar com este tópico, os professores devem ser musicais nas suas exibições de aulas e fora delas, respeitando as paradas da música. Assim, o aluno ficará ávido por conseguir realizar o mesmo feito ao longo de sua trajetória como aprendiz.

Também mais adequado para alunos de nível intermediário e avançado, seria a percepção e o domínio corporal para execução da dança segundo a frase musical. As frases são similares a fragmentos repetitivos de uma história maior contada pela melodia da música. Assim, as músicas que apresentem frases mais evidentes são interessantes para iniciar esse trabalho. Por exemplo, quando a frase termina, o passo é momentaneamente interrompido até o começo da próxima frase, quando é retomado; ou, se a música tem diferentes planos melódicos, é possível evidenciar com os movimentos não só a melodia principal, mas também esses outros planos; é possível, ainda, utilizar-se de diferentes partes do corpo para mostrar todas essas nuances ou que o cavalheiro mantenha-se, em dado momento, mais focado no aspecto do pulso musical, e a dama possa evidenciar, com seus movimentos de braços, uma nuance mais melódica. Em artigo anterior já abordei o tema relativo a como usar a frase musical em exercícios de aula, assim, não vou aprofundar essa questão agora. Mas este é um aspecto essencial a ser trabalhado para chegar-se a uma prática dançante mais musical que, em seu auge, permite que praticamente escutemos a música através dos movimentos.

Também não podemos esquecer que os professores de dança de salão trabalham, fundamentalmente, interligando essas duas incríveis modalidades artísticas que são a dança e a música. Assim, o repertório que escolhem para as aulas e bailes está contribuindo também para que os alunos conheçam um pouco da história do ritmo que dançam e, mais ainda, na sua formação cultural. Neste aspecto, é bastante interessante que quando o professor utilizar músicas que contem um pouco da história daquele ritmo, fale sobre elas com seus alunos. No samba, por exemplo, músicas como “Baile no Elite” (Nei Lopes e João Nogueira), “Pistom da gafieira” e “Estatutos da gafieira” (ambas de Billy Blanco) contam de maneira divertida a história do samba de gafieira e das gafieiras em si, seus locais mais tradicionais de prática no Rio de Janeiro. Por outro lado, utilizar-se de um samba choro, como “Tico-tico no fubá” (Zequinha de Abreu) ou de um pagode paulista como “Cheia de manias” (Raça Negra, que tem, inclusive, versão mais antiga da década de 1990 e mais atual, de 2012), dentre vários outros estilos de samba, também é interessante para que os alunos conheçam esses estilos. Alguns deles, como o samba rock, por exemplo, tem sua própria prática dançante, diferente da do samba de gafieira, o que também é informação relevante para os praticantes do ritmo.

Para não deixar de mencionar outro ritmo genuinamente brasileiro, no forró, músicas como “Sala de reboco” (Luiz Gonzaga) são importantes historicamente e, outras como “Petrolina e Juazeiro” (Jorge Assis de Assunção ou Jorge de Altinho), contam um pouco da história dessas importantes cidades nordestinas. Aqui também, não se pode deixar de mencionar que o forró também tem seus diversos estilos e que músicas que os exemplifiquem para os alunos também seriam bem vindas!

Ainda a título de curiosidade e cultura, pode ser interessante utilizar músicas com versões diferentes, como por exemplo, “Disrtimia” (versão Martinho da Vila – samba e versão Zeca Baleiro – “bolero”) ou “Mais uma de amor – geme geme” (versão da Banda Blitz – pop rock brasileiro para dançar como soltinho e versão da Banda Seu Luiz – Forró do Sertão – forró), dentre várias outras. Especialmente no caso de alunos mais jovens, uma versão mais antiga da música pode não ser tão bem vista quanto a mais atual, e muitas vezes isso vai facilitar a apreciação de um clássico musical, por ouvi-lo com uma roupagem mais nova. Por serem meios, inclusive, de tornar as aulas mais interessantes, estes dois últimos aspectos, histórico e cultural, podem ser utilizados na seleção de repertório musical para turmas de todos os níveis, embora ainda respeitando, o que foi tratado no início do artigo.

Em resumo, há diversos aspectos importantes para que uma boa seleção musical seja de fato utilizada na prática da dança de salão. Consideramos importante que os professores tenham consciência dos mesmos e que se possível, possam buscar cada vez mais informações para aprimorar essa seleção, pois, com certeza, isso resultará em alunos cada vez mais musicais e conscientes de sua dança, abrangendo também o aspecto cultural em questão. Os alunos também podem sugerir músicas de que gostem para seus professores, que a partir daí vão julgar e justificar se ela é adequada para o nível de aprendizado daquele aluno. Se quiser, junte-se a nós nesta reflexão e sugira mais ideias importantes para a seleção dos repertórios de aulas, bailes e atividades em geral relacionadas à prática da dança de salão ou divida com a gente experiências que considere relevantes com relação a este tema!

Boas “musicauladanças” a todos!

* Por Ana Maria Caliman Filadelfi
Especialista em dança de salão pela FAMEC; técnica musical em piano; mestre e doutora em Biologia pela USP, é docente do Departamento de Fisiologia do Setor de Ciências Biológicas da UFPR. Praticante de dança de salão desde 1993, atualmente é professora na Oito Tempos Escola de Dança, em Curitiba.

Leitura recomendada

  • BETTINA, R. Fundamentos de dança de salão. Londrina: Midiograf, 205pp. 2003.
  • FILADELFI, A.M.C. O diálogo entre música e dança de salão. Dança em Pauta, 2011. Disponível em: http://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/o-dialogo-entre-musica-e-danca-de-salao/. Acesso em 25 de fevereiro de 2016.
  • FILADELFI, A.M.C. Escutando sua dança. Dança em Pauta, 2012. Disponível em: http://www.dancaempauta.com.br/site/artigo/escutando-sua-danca/. Acesso em 25 de fevereiro de 2016.
  • GARCIA, A.; HAAS, A.N. Ritmo e dança. Canoas: Editora da ULBRA, 204pp., 2003.
  • PERNA, M.A. Samba de gafieira – a história da dança de salão brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Editor Marco A. Perna – dancadesalao.com.br, 212pp., 2005.
  • RUTHES, S. Música para dança de salão. Curitiba: Protexto – Editora, 112pp., 2007.
  • SANTOS, S. Elementos fundamentais à prática das danças de salão. Módulo do curso de Pós-graduação – Teoria e movimento da dança com ênfase em Danças de salão. Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba, PR, 13 a 15 de novembro de 2015.
  • ZAMONER, M. Dança de salão – a caminho da licenciatura. Curitiba: Protexto – Editora Zamoner Ltda., 128pp., 2005.
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