Comportamento, Em pauta

A hora e a vez das Damas no Salão

Houve o tempo em que as mulheres queimaram sutiãs como forma de protesto por seus direitos, mas hoje, embora ainda exista muito a ser conquistado, a realidade é outra. Elas são chefes no trabalho e em muitos casos chefes de família. Continuam sendo mães e esposas, mas adicionaram a isso suas vidas profissionais. Porém, para sobreviver ao concorrido mercado de trabalho, tiveram que adaptar seu comportamento, sufocar características ditas femininas como a sensibilidade e mostrar que são capazes de liderar tanto quanto os homens.

É neste contexto que as alunas chegam às salas de aula de dança de salão, normalmente buscando uma atividade física, um lazer, ou o simples prazer da dança, e se confrontam com a laboriosa tarefa de ser uma dama na dança a dois, um papel que requer certa entrega e exposição que muitas delas foram condicionadas a conter.

Para falar sobre as dificuldades e descobertas destas mulheres na dança, assim como sobre o papel atual que elas vêm desempenhando no meio, convidamos três profissionais que representam muito bem a mulher na dança para um bate-papo: a professora e proprietária de uma escola em Curitiba, Sheila Santos, que vem desenvolvendo trabalho com foco em Técnicas para Damas, ministrando workshops em que busca ressaltar a criatividade das mulheres durante a dança e a necessidade de um “diálogo dançante” com o parceiro; a gaúcha Dana Vargas, que mostra toda sua competência a frente da organização do Porto Alegre Salsa Congress e que, atenta aos anseios das alunas realiza desde 2012 o Encontro de Damas no Salão, uma tarde com aulas e palestras exclusivas para as mulheres; e Katiusca Dickow, que após anos de parceria com o dançarino Cristovão Christianis, recentemente, iniciou uma “carreira solo”, abrindo sua própria escola de dança em Porto Alegre.

Quebrando barreiras

“Somos de uma geração em que a mulher não é mais criada para ser dona de casa, mas para estudar, trabalhar, ter a sua independência. Aí ela chega à aula de dança de salão e você diz que ela deverá esperar para que digam o que ela vai fazer e ela pensa: ‘não precisa, só me explica que eu faço’. Você pede que ela seja mais delicada e ela pensa: ‘como assim, em meu trabalho se for delicada passam por cima de mim’”, comenta a professora Sheila Santos sobre a grande dificuldade inicial das mulheres em se deixar conduzir durante a dança.

Katiusca lembra que, o fato de os alunos receberem em sala de aula a informação, mesmo que indireta, de que o ato da condução se resume em ele manda e ela obedece, não ajuda em nada a superação destas barreiras. Aliás, este assunto foi tema de um artigo de Maristela Zamoner na Dança em Pauta (Conduzir e mandar, histórias diferentes), em que a autora relata uma deturpação do significado histórico da condução nas danças de salão, cujo objetivo era agradar a dama e não comandar ou mandar. “Na dança a dois temos que imaginar que não pode existir uma concorrência de forças. É como o Jaime Arôxa sempre diz, pra uma dança boa tem que ser 100% ele e 100% ela, e não 50% e 50%”, ressalta Katiusca.

“Acho que nosso papel é fazer as alunas entenderem que não é uma guerra, é mais do tipo conversando a gente se entende. Eu preciso dele pra dançar, adoro dançar com ele e adoro que ele me conduza. Esta é a transformação que a dança de salão vai trazer para ela e é preciso mostrar que ela não vai perder por ser mais feminina, na verdade ela vai ganhar outras habilidades”, diz Sheila.

O despertar da feminilidade ou
o início da guerra dos sexos?

Com base em suas experiências como profissionais e como damas no salão, Sheila, Katiusca e Dana são unânimes ao afirmar que o primeiro passo para a mulher na dança é conhecer seu próprio corpo, descobrir e explorar as suas possibilidades, não se restringindo apenas aos movimentos de braços e pernas, mas utilizando o ombro, a cabeça, o quadril, os pés e as mãos. Neste sentido, as aulas específicas para mulheres têm sido muito procuradas.

O Encontro de Damas no Salão, evento realizado anualmente em Porto Alegre, por Dana Vargas, é uma prova deste interesse da mulher em trabalhar o seu corpo para dança ao invés de apenas aprender passos. Nele, as alunas tem a oportunidade de fazer aulas que focam nos enfeites da dama, musicalidade, postura, equilíbrio, técnicas de giros e cambrés, entre outros. Na primeira edição em 2012, participaram cerca de 60 mulheres, em 2013 o número quase dobrou e neste ano o sucesso se repetiu. “O curioso é que é um evento que se vende sozinho, porque as próprias alunas ficam perguntando quando vai ser, que aulas vai ter. Percebo que existe um interesse muito grande das mulheres de todas as idades em estudar mais a sua parte na dança, se desenvolver. Muitas delas já dançam há bastante tempo, mas nunca tiveram oportunidade de dar esta atenção especial aos enfeites da dama”, relata Dana.

O resultado deste maior estudo e dedicação por parte das mulheres já vem se revelando nas pistas, segundo as professoras. “Depois que passa o período inicial de timidez, elas descobrem como é gostoso mexer seu próprio corpo. O problema é que elas estão ficando muito boas nisso e se não nos preocuparmos em ensinar eles como dar este espaço que elas pedem, o casal vai entrar em conflito na dança”, avalia Katiusca.

“Muitas alunas chegam pra mim e reclamam que aprenderam mil enfeites, mas que agora não conseguem colocar eles na dança. Muitas vezes é porque realmente os rapazes não dão este espaço, mas elas também precisam aprender a dialogar com eles, sem ir contra o que o rapaz está criando”, diz Dana.

“Pra ter este diálogo é preciso que ambos saibam falar e ouvir, só que normalmente a gente só ensina o rapaz a falar e a menina a ouvir, então, quando ela tem liberdade, não sabe o que fazer com aquilo, e ele não tem sensibilidade pra ouvir”, explica Sheila.

Mas e não é só no papel de alunas que as mulheres vêm se descobrindo e batalhando por seu espaço na dança de salão. Seja como dançarinas em apresentações, coreógrafas ou professoras, as profissionais que atuam no meio vêm experimentando uma mudança recente no mercado, deixando de viver a sombra dos partners masculinos e criando sua própria identidade profissional. “Carreira solo era algo inadmissível para uma mulher na dança de salão até pouco tempo. Hoje, assim como em outras profissões, elas estão ganhando campo na dança de salão, sendo chamadas para ministrar aulas em congressos e outros eventos por mérito do seu trabalho. Mas isto é algo muito recente e conquistado com muito custo. Estamos vivendo um momento de mudança”, diz Sheila.

Katiusca é uma das profissionais que está vivenciando de perto esta mudança, investindo em uma carreira solo após mais de nove anos de atuação com um parceiro. “Conversando com um grupo de profissionais, comentei que a dança de salão é muita machista e aí um homem me questionou: ‘mas será que ela não vai ficar muito feminista?’. Minha resposta foi que talvez ela precise ficar feminista, por um período, até que as mulheres se posicionem. Até pouco tempo, os eventos anunciavam ‘professor fulano de tal e partner’, o nome da mulher nem aparecia. Eu mesma passei por isso. Hoje, conquistei meu espaço, mas muitos ainda são resistentes a ideia de uma mulher em carreira solo”, relata Katiusca.

O Futuro

As danças de par são e sempre foram uma expressão da sociedade de cada época. A música, as roupas, o abraço, os movimentos, representam as regras sociais vigentes em diferentes períodos da história. As mudanças no relacionamento entre dama e cavalheiro estão em constante evolução e esta busca por uma dança em que a mulher tenha mais liberdade criativa está clara. Porém, como ressalta Sheila, a conquista deste espaço implica na divisão total da responsabilidade sobre a mesma que, atualmente, fica toda a cargo do cavalheiro. “Meu conselho pras alunas sempre é que não devemos bater de frente, não é assim que vamos conseguir alguma coisa, tem que ser com aquele jeitinho feminino, comendo pelas beiradas, que é como conseguimos tudo com eles”, brinca Sheila.

“Acho que vai ter este processo feminista, mas depois chegaremos ao que nunca aconteceu, que é uma força igualitária na dança a dois, um equilíbrio, onde os dois estabeleçam verdadeiramente um diálogo. Este é o nosso sonho, porque hoje não é um diálogo, são várias perguntas que às vezes a menina nem consegue responder”, conclui Katiusca.

Então rapazes, fiquem atentos! Pois entre passos, rodopios, cambrés e enfeites, elas têm muito a dizer!

Fotos: Fernando Moreira/Dança em Pauta

 

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Jornalista formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, atuando na área desde 1997 como repórter, redatora e assessora de imprensa. Em 2010, lançou o site Dança em Pauta com a proposta de empregar seu conhecimento em comunicação para divulgar a dança. Trabalhou em publicações segmentadas em Curitiba e São Paulo. Desde 2004, desenvolve trabalho de assessoria de comunicação para profissionais e empresas atuando no planejamento e execução de estratégias de comunicação interna e externa, produção de conteúdo, publicações corporativas e assessoria de imprensa.

9 Comments

  1. Como não daria certo com essa damas trabalhando as nossas necessidades juntas? Digo NOSSAS enquanto mulher, professora, profissional e dama dos salões! O ponta pé inicial (e principal) foi dado que era colocar essas meninas para pensarem e acreditarem que SIM, podemos ter e sentir nossas vontades na hora de dançar, mas precisamos aprender a nos colocar e nos comunicar…e isso elas vêm executando em suas aulas com maestria…acompanho e posso falar! Tanto que em minhas aulas (“minha” digo a equipe da escola toda) estamos trabalhando tudo como um diálogo, como deveriam ser na vida real…um fala e o outro escuta! Sim ,pois a gente precisa aprender a falar e eles a escutar!! Adoraria sentar para conversar com esse time…quem sabe um dia fazemos um encontro onde trabalhamos os meninos para ouvirem e entenderem essas damas que precisam de espaço para experimentarem suas possibilidades corporais, hein?!
    Parabéns, time!

  2. Olá Érika, muito boa a sua iniciativa de dividir conosco suas experiências e inquietações.
    Vamos lá tentar te auxiliar um pouquinho. Sempre falamos sobre a diferença entre passos/estruturas (onde há um estímulo do cavalheiro para o movimento acontecer) e enfeites/adornos (movimentos livres feitos sem condução).
    Nesse caso, utilizar seu quadril dentro de uma movimentação pode ser tratado como um enfeite e não precisa de uma condução para acontecer, portanto, use a vontade!
    Algo que sempre falo para minhas alunas em relação aos enfeites, que pode te auxiliar, é que eles devem obedecer dois princípios: o tempo do passo e a direção proposta. Se seguirmos estes dois princípios poderemos realizar os nossos enfeites á vontade sem medo de interferir, de maneira ruim, na estrutura proposta pelo cavalheiro.
    Sou sempre a favor da construção de um diálogo nas danças em pares, onde o estímulo e a resposta a esse estímulo devem acontecer de maneira respeitosa e harmoniosa, ou seja, que os dois possam se divertir e ter prazer enquanto dançam.
    Podemos pensar que, como a essência da dança é de estímulo e resposta, temos que esperar esse estímulo inicial, mas nada nos impede de aprimorar e explorar esse estímulo, dialogando com nosso par.
    Jaime Arôxa, grande referência na dança de salão, sempre fala que “o homem sugere o caminho, mas é a dama sempre escolhe como vai percorrê-lo”.
    Ou seja, continue enfeitando sua dança, explorando sua musicalidade e não desanime se encontrares algumas pessoas que não sabem dialogar bem ainda, isso acontece conosco no Mundo não é mesmo? E nem assim perdemos nossa vontade de acreditar na vida!
    Estou a disposição para o precisar.

    Grande beijo!

  3. Olá Erika! Obrigada por dividir conosco suas inquietações… Sim, vc pode sentir a música e usar seu corpo além do que está sendo pedido pelo cavalheiro para se expressar!
    Não, nem tudo precisa precisa ser conduzido pelo cavalheiro, tendo a dama tambem, a possibilidade de sugerir a ele movimentações ou contatos que a agradam!
    Não, vc NÃO DEVE se “podar” para que a dança de salão aconteça!!! Pois justamente, se ela é feita a dois, precisa existir troca, cumplicidade e sensações boas para as duas partes.
    E infelizmente, sim, o professor poderia ter tratado essa dança de outra forma….! Claro que não consigo avaliar a situação por completo ( se era uma aula ou um baile, se ele é seu professor ou professor de outra escola, se estava sendo trabalhado algum movimento que precisava de atenção diferenciada), mas, hoje, precisamos ampliar possibilidades e tratar homens e mulheres como parceiros durante a dança. Em alguns momentos de uma aula, por exemplo, é possível que o professor te peça para não enfeitar, pois está ainda aprendendo um movimento ou precisa da sua atenção voltada para outro objetivo.
    Mas a partir do momento que colocamos a música e resolvermos DANÇAR, temos que nos comunicar com o par e deixar que as sensações aconteçam!
    Aqui mesmo, na Revista Dança em Pauta, escrevi um artigo que talvez possa esclarecer mais algumas dúvidas!
    http://site.dancaempauta.com.br/o-dialogo-dancante-da-dama-contemporanea/
    Espero ter ajudado! Continue dançando e buscando trocar com seu cavalheiro experiências e sensações! Grande beijo
    Sheila Santos

  4. Olá. Faço aulas de dança de salão e amo. Mas recentemente aconteceu algo que me fez refletir sobre esse tipo de dança. Quando fui dançar forró com um professor, ele parou a dança e me disse que eu estava “usando o quadril sem que ele pedisse”. E daí, depois de dizer que ” eu não posso ser mandona” ele começou a demostrar seu poder de condução, fazendo um passo e me travando e depois me conduzindo a fazer vários giros. E ai nossa rápida dança se resumiu a isso. Entendo perfeitamente o papel da dama e do cavalheiro e sempre tento melhorar nesse aspecto, mas nesse caso, em específico, eu senti como se minha musicalidade e expressão estivessem sendo podados. Um simples e sutil movimento de quadril só pode mesmo acontecer se o homem pedir? Eu não posso responder à musica com um pouco de autonomia? Tudo deve ser segundo a condução? É realmente uma dúvida que ficou. O professor exagerou um pouco ou de fato eu preciso me podar pra dança de salão acontecer? Obrigada.

  5. Basta que voltemos um pouco no tempo pra observar que as mulheres no inicio do século XX, após Luiz Lacombe (Séc. XIX) foram as protagonistas na continuidade desta cultura na sociedade brasileira, a saber: a suíça Louis Poças Leitão (SP); A amazonense Maria Antonieta (RJ) e Yolanda Reys (RJ), respectivamente. Todas estas mulheres sem parceria definida, mas Mestras e damas estimadas por todos os grandes dançarinos de suas respectivas gerações. Embora isto, o mais comum na transmissão da cultura de dançar a dois é o nome do professor ser mais divulgado que o de sua parceira. Uma prática comum em todo país.

    Por isso sou sim a favor das professoras/damas terem espaço e autonomia na dança de salão. Todavia, penso ser necessário que atividades de formação para damas – não só de técnicas e adornos para prática no salão – sejam enfatizadas, pois o número de professores é maior que o de professoras de danças de salão. Inversamente, o número de mulheres que buscam a dança de salão é sabidamente maior que o de homens. Ou seja, em prática – e já algum tempo isso ocorre -, o ensino da dança de salão é majoritariamente masculino.

    No que diz respeito ao papel de “mando” e “obediência” na dança, recentemente tive uma aula ministrada por uma PROFESSORA que aventou algo interessante; não concordava com essa diferença de tempo estabelecido pela condução e recepção ao dançar, mas algo “Simultâneo”, concomitante! A maneira que ela explicou fez muito sentido no que se relacionou com a prática.

    Enfim, mais uma vez, Revista Dança em Pauta tratando dos assuntos mais pertinentes sobre as práticas nas danças de salão.

    Parabéns!

  6. Matéria perfeita! Como aluna de dança de salão enfrento exatamente as dificuldades descritas. Que parto é conseguir encaixar os enfeites de braço entre um passo e outro, hora por timidez, hora por falta de coordenação mesmo…rsrsrs
    Acho que o fato das professoras estarem ganhando mais espaço é super positivo pra nós alunas, pois significa que teremos um trabalho mais focado na movimentação feminina na dança, a nossa disposição.
    Parabéns as professores e a jornalista!

  7. Amei o texto!!!!
    Parabéns a equipa da Dança em Pauta!
    Faço aula de dança de salão a dois anos e nunca havia pensado por esse prisma femino.
    Falando como aluna e mulher realmente as vezes a pressão pelos enfeites incomodam um pouco, agora eu entendo o pq.
    Como a matéria acabou levando a um desabafo, quero aproveitar o gancho, em muitos bailes de dança de salão temos que esperar a boa vontade de cavalheiros ou bolsistas para dançarem conosco, até isso é complicado para nós mulheres que no geral são as mais empolgadas para dançar.
    O homem de fato tem o fardo e o privilégio da condunção, pq eu imagino que deve ser muito díficil lembrar os passos, criar a sequência deles e ainda nos agradar. Por isso acabo pegando leve com eles rs.
    Agora a minha dica para os rapazes é que eles contenham a ansiedade e respeitem nosso tempo. Pq dançar com os afoitos é um desastre, porém dançar com um rapaz gentil é sublime.

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