Colunas, Dança & Comportamento, Danças de Salão

A heterossexualidade da dança de salão

A dança de salão é uma arte cuja prática exige que os corpos de duas pessoas respondam à música de forma interdependente, um conduzindo e apresentando sua interpretação no movimento, outro respondendo à condução e à música de forma personalizada. Sua estrutura tem como personagens o masculino e o feminino, o cavalheiro e a dama respectivamente. Quem conduz é o cavalheiro, quem responde é a dama. Esta organização reflete os papéis sociais de homens e mulheres no remoto surgimento da dança de salão. Imagino que poucos discordem do fato de que tratamos aqui de uma premissa evidenciadora de um caráter heterossexual na expressividade da dança de salão.

Lembremos, inicialmente, que há salões em que é expressamente proibida a dança entre pessoas do “mesmo sexo”. Pode-se exemplificar pelos Estatutos da Gafieira, em que se proíbe, no Artigo 3 D, “dançar mulher com mulher e homem com homem”. No restante do documento utilizam-se os termos dama e cavalheiro. Situações assim trazem duas dificuldades imediatas. A primeira é que “sexo”, hoje, vai muito além do binário “homem” e “mulher”, tanto do ponto de vista biológico quanto social. O segundo, é que esta regra vincula gônadas, genitália, ou, na melhor das hipóteses, o gênero do indivíduo, ao papel que desempenha na dança de salão.

Segundo o especialista em Genética, Professor Diretor do Serviço de Genética da Faculdade de Medicina do Porto, Dr. Alberto Barros, para que um indivíduo humano seja considerado do sexo masculino ou feminino (homem ou mulher) é necessário enquadrar-se definidamente em todos os seguintes critérios:

  • cromossômico (XX – mulher e XY – homem);
  • gonadal (ovários ou testículos; genital – externos e internos);
  • somático (características sexuais secundárias, por exemplo: mamas nas mulheres);
  • psíquico (conceito de si mesmo);
  • social (o sexo que a sociedade atribui ao indivíduo);
  • civil (sexo registrado nos documentos do indivíduo).

Reconhece-se uma diversidade de realidades nesta área, mostrando casos e mais casos em que um ou mais dos quesitos elencados com a opção binária de resposta, não resulta definitivamente em um indivíduo masculino ou feminino. Uma miríade de situações foge da simplória e tradicional classificação “homem ou mulher”, nos obrigando a rever estes conceitos e criar novos. Só para exemplificar a prática destas dificuldades, a psicóloga Ana Luiza Ferraz, informa que a orientação sexual pode ser: assexual, bissexual, heterossexual, homossexual ou pansexual. Lembro também que 1 a cada 3000 crianças que nascem tem a determinação anatômica de seu sexo inviabilizada, denominando-se “intersexo”. Dados de 2010 do IBGE afirmam que 60 mil pessoas vivem no Brasil formando casais cujos indivíduos têm o mesmo sexo civil, mas, não necessariamente, psíquico ou mesmo social.

Um salão de danças poderá ter complicações ao tentar excluir-se deste universo, exigindo uma classificação prévia sobre o sexo biológico, social e psíquico do indivíduo para verificar como, ou talvez até “se”, ele poderá dançar ali. O fato é que a prática da dança de salão não é um ritual de cópula para reprodução, logo, não depende de um corpo com ovários conectado a outro com testículos ou algo que o valha para acontecer. É viável que duas mulheres ou dois homens dancem dança de salão, sendo que um deles exerce o papel do cavalheiro e outro da dama. É possível também uma mulher exercer o papel de cavalheiro ao conduzir um homem que exerce o papel de dama. Quaisquer pessoas, de quaisquer sexos, gêneros ou orientações sexuais podem formar quaisquer pares para praticar dança de salão.

A reminiscência histórica e a técnica dela decorrente exigem apenas as funções de um cavalheiro e de uma dama. A regra de correspondência destas funções com vida privada do dançarino não é necessária. Mesmo assim, existe resistência na aceitação de modelos diferentes de uma “dama mulher” e um “cavalheiro homem”. A razão, possivelmente, reside no fato de que ainda não estamos preparados para separar dança de salão de sexo, sexualidade e gênero. Caso esta separação existisse, tal questão não seria nem mesmo mote para um assunto que traria algum interesse, quanto mais regra de salão. Como na sociedade há resistência para aceitar variadas formas e orientações sexuais, no salão há dificuldade em quebrar o tabu de que a heterossexualidade da dança de salão deva acontecer em função da vida sexual de seus dançarinos e não somente da técnica. Enquanto isto, apesar dos inqualificáveis espancamentos de homossexuais, a sociedade, até pela legislação, já começou a assimilar a necessidade de respeitar a diversidade, inclusive de orientações sexuais e de forma desvinculada do que o indivíduo faz profissional ou artisticamente.

Por mais que as pesquisas apontem a origem da arte nos mecanismos evolutivos de seleção sexual, e haja quem afirme que toda dança é uma forma de sexo, existem pessoas que desfrutam da dança de salão livremente, sem seguir regras das quais participam a determinação de seu sexo, gênero ou sua orientação sexual. E mesmo que fosse impossível dissociar sexo e dança de salão, a questão das regras que impedem indivíduos do mesmo sexo/gênero dançarem juntos em um salão, seria digna de análise, afinal, a humanidade opta, hoje, por reduzir oportunidades para o preconceito.

É uma discussão polêmica, que merece ser vista e revista. Precisamos pesquisar, estudar, entender os bailes homossexuais, heterossexuais e outros, compreender a sociedade e acima de tudo, respeitar os comportamentos que não prejudicam os direitos de ninguém.

Talvez seja tempo de questionar se há preconceito disfarçado de técnica histórica em nossos salões. Somente quando superarmos nossos tabus e convencionalismos poderemos elevar a dança de salão do mero patamar do ritual de acasalamento para o patamar efetivo da arte pura e livre.

Fotos: Daniel Tortora

Previous ArticleNext Article
Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

1 Comment

  1. Muito bom seu texto. Comecei a aprender dança de salão há um mês e pouco com um amigo e venho pensando na heterossexulidade dessa dança, aí busquei no google e achei seu artigo. Durante a dança tenho muita vontade de conduzir, não só ser conduzida. Talvez eu ainda chegue lá! rs. E, talvez denominação devesse ser mudada, ao invés de dama e cavalheiro, poderia ser condutor e conduzido, aí, tanto faria o gênero sexual; na hora de dançar os dançarinos decidiriam quem desempenharia qual papel.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *