Colunas, Dança & Comportamento, Danças de Salão

A dança do albatroz

O último artigo desta coluna trouxe um pouco do que a dança de salão pode fazer a uma mulher que começa a vivê-la. De forma diferente, o homem nestas condições também passa por suas mudanças.

Como a metamorfose feminina pode ser comparada à de uma borboleta, a transformação masculina lembra a vida de um albatroz. Vem ao mundo dentro de um ovo cuja casca é difícil de romper. O filhote, ao nascer, não é um bom exemplo de beleza ou destreza. Seus movimentos parecem trêmulos e totalmente descoordenados. Os membros superiores assemelham-se a cotocos inúteis. Enquanto o tempo passa, em meio a uma plumagem plúmbea, podem ser vistos canudinhos rígidos saindo da pele como em um porco espinho. Destes canudinhos começam a surgir, do negro ao alvo, penas que se irrompem dali ganhando forma, textura, suavidade e brilho, mudando completamente a aparência, anunciando a maturidade. Seus movimentos começam a ser dominados. Exercícios diários o levam a condição de equilibrar-se. Enquanto isso, suas asas se formam apoteoticamente até que arrisque seu primeiro voo verdadeiro sobre o mar, quando qualquer sombra de algo desajeitado desaparece.

Em sua vida adulta, o mais incrível ocorre. Mesmo dominando os ares ele usa suas asas para voltar a terra, mas não se “exila no chão”, ali fica porque quer. Baudelaire não sabia que o prodígio mais deslumbrante daquelas asas não aparece no simples voar, mas sim no poder de levá-lo ao solo onde pode dançar. Assim se mostra o que possivelmente é a maior beleza da existência do albatroz, a dança. E ele não a faz com a corja impura do poeta sifilítico, mas, com os seus. É pela dança que se revela para si mesmo e pode conseguir uma parceira para manter o ciclo espiralado da vida. Tal dança é de uma beleza extraordinária, capaz de deixar pensativo o mais indiferente dos homens. Os movimentos que faz parecem transformá-lo em outro ser enquanto são minuciosamente avaliados pela fêmea. Pena que há albatrozes em risco de extinção.

E entra pela sala de aula um homem encolhido como se estivesse em um ovo, preso por uma casca difícil de romper, escondido em uma aparência deplorável, por mais que seja, em sua mente, apresentável. É aquela aparência que não diz respeito a uma barba bem aparada ou um traje alinhado, mas, a uma postura, um olhar sobre si mesmo. Nos primeiros dias, notamos um tremor, um suor que não é do exercício físico, mas do mental, que bloqueia a coordenação trôpega dos membros que parecem restos de amputações. E o tempo começa a passar silencioso e contundente, daquela forma que quase não se percebe, fazendo das mudanças apenas uma névoa turva. Mas em meio ao plúmbeo pode ser vista, nebulosamente, outra imagem. São cabelos enlameados na Brilhantina Glostora de outrora, ou corajosos Freak Hair de hoje, espetados como em um porco espinho.

A fase se dissolve na névoa turva quando desperta seguro, sensual e confortável. Formas, texturas, suavidades e brilhos, promulgando a autodescoberta. Seus movimentos começam a ser dominados. Exercícios diários o levam a condição de equilibrar-se. Enquanto isso, as asas da liberdade se formam, apoteoticamente, até que arrisque seu primeiro voo verdadeiro a um baile, quando qualquer sombra de algo desajeitado desaparece. Mas, na maturidade de sua transformação o mais incrível ocorre. Descobre como tirar os pés do chão sem deixar de dançar nele, divertindo-se, sabendo que pode conquistar uma parceira para manter o ciclo espiralado da vida, ou, apenas desfrutar de sua companhia por alguns momentos. Esta dança da liberdade é de uma beleza extraordinária, capaz de deixar pensativa a mais indiferente das damas. Os movimentos que aprendeu a fazer parecem transformá-lo em outro ser, enquanto é minuciosamente avaliado por quem o assiste.

Galantes, torneiam-se cavalheiros, dominam a si próprios e, por meio de sua dança pintam de colorido a vida cinza. Pena que homens albatrozes também estejam em risco de extinção.

Felizes os que são iniciados tímidos, presos, mas, na vivência desta arte, aprendem a romper sua casca e inventam as asas que os levam a dançar. Espelham a natureza, entorpecendo quem percebe a grandiosidade do fenômeno.

Os raros homens com asas, que os levam ao recanto de suas danças, fazem os que só observam gritarem Castro Alves no seu solitário e sofrido silêncio: “Albatroz! Albatroz! Dá-me estas asas”. Outros, quem sabe, consigam efeitos semelhantes em atividades diferentes. Mas muitos, que pelas mais variadas razões não experimentam, nunca saberão o que aconteceria com suas vidas se fossem capazes de cunhar tais asas.

Fotos:
Daniel Tortora/Dança em Pauta
http://www.ultrad.com.br
http://www.wildencounters.net/weblog/2010/03/midway-atoll-march-2009/

Veja também:
O poder da metamorfose feminina na dança de salão

 

Previous ArticleNext Article
Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

2 Comments

  1. Quisera eu, Maristela Zamoner, ter essa veia poética que você tem, que descobre “mulheres-borboletas” e “homens-albatrozes” lindos e perfeitos, depois de viverem a inevitável e difícil fase da metamorfose que só os que se dedicam à dança de salão com seriedade conseguem. Fiquei maravilhada com o seu texto de hoje. Parabéns à Dança em Pauta por ter em sua equipe pessoas de tamanha sensibilidade como você.
    C. Verbena

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *