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A aventura infantil na dança de salão

A Dança de Salão praticada durante a infância, se bem conduzida, pode trazer, de forma leve, alegre e forte, mudanças que ficam para toda uma vida.

A partir do ano de 1998, comecei a perceber na prática a importância que esta atividade pode ter na vida de uma criança. Nesta época, atuava como docente na Educação Básica pública e particular além de manter projetos de Dança de Salão no contra turno do ensino formal. Foram algumas centenas de crianças que pude acompanhar vivendo esta experiência ao longo de anos, relatada em diversos artigos. Foi possível notar uma variedade delas, desde as mais autossuficientes e estáveis até as visivelmente inseguras, admoestadas, sem referências de valores ou desprovidas de noções sobre respeito mútuo e acatamento a regras de convivência. Os desajustes podem ter explicações como carência de afetividade familiar, abusos de naturezas variadas, exemplos inadequados, exposição a drogas, violência, reprimendas de intensidades e formas improdutivas ou mesmo permissividade e ausência da vivência de limites. Nestes casos, surgem fragilidades no trato social e é quando o efeito da Dança de Salão bem ministrada parece ainda mais intenso.

Independente das questões educacionais que envolvem esta prática, o mais fantástico pode ser visto na mudança de comportamento, estejam os pupilos em risco social ou não. Muitas daquelas crianças, hoje adultas, perceberam-se, pela Dança de Salão, como seres capazes, íntegros e protagonistas das próprias vidas, o que extrapola o âmbito da arte. Ao longo do desenvolvimento das atividades, cada criança, a seu modo, mostra uma transformação que me traz a mente a frase do poema “Infância” do encantador Drummond:

E eu não sabia que a minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Afinal, muitos de nós viveram pelo menos um momento de busca que culminou em um instrutivo “naufrágio” no começo de nossas vidas. Felizes os que conhecem a sensação inigualável de encontrar terra firme.

A Dança de Salão acontece com base no altruísmo, respeito a regras, desenvolvimento de sensibilidades, trazendo ao indivíduo a sensação de pertencimento devido a sua aceitação pelo grupo, favorecendo a autoestima. Para que possa ser vivenciada, a criança precisa respeitar o outro e saber ser respeitada, o que beneficia a convivência a partir de regras simples de conduta.

Algumas passam a demonstrar sensação de identidade por serem conhecidas, em diferentes ambientes, como praticantes de Dança de Salão. Outras, que chegam tímidas, incapazes de dizer uma palavra em voz alta, começam gradativamente a soltar-se, interagindo mais habilmente. As que confrontam regras entendem sua necessidade durante a dança e passam a segui-las por vontade própria. Naquelas que permanecem por mais tempo na atividade percebe-se que o fato de gostarem da própria dança favorece a compreensão de si mesmas e do próprio corpo, definindo-se, em sua vida, um marco situacional de autoconsciência. Todos estes fatores, e ainda outros, cooperam com a desenvoltura na participação em diferentes grupos sociais.

O que é relevante sobre isto diz respeito à destreza incrível que as crianças têm ao aprender e extrapolar o que assimilam. Assim, os relacionamentos fora da sala de aula e do salão passam a ser permeados pela conduta respeitosa, modificando relações interpessoais em outros âmbitos. Sutilmente ou não a adaptação da criança que pratica a Dança de Salão de forma bem conduzida modifica-se, tornando a vida, tanto na esfera familiar, escolar ou social, mais fluente, basicamente devido ao fato de ser gerida por alguém mais seguro de si e hábil com os outros.

A Dança de Salão de Projeção tem também os seus efeitos milagrosos. Um dos momentos mais marcantes que vivi na caminhada ao lado de tantas infâncias foi o retorno de uma viagem de mais de mil quilômetros, em uma van, com cerca de uma dezena de crianças rumo à participação competitiva em um festival de danças. Na chegada, ao depararem-se com a magnitude do evento, malas com etiquetas de companhias aéreas e pessoas falando fluentemente suas desconhecidas línguas nativas, abriram-se horizontes ao mesmo tempo que o domínio sobre a vontade de desistir foi a primeira lição de vida.

Na volta, ao devolver cada criança à sua morada, passamos por locais e histórias inimagináveis. Em determinado ponto, deixei uma menininha com seus nove ou dez anos, à porta de seu barraco, na qual um homem mal cuidado, visivelmente embriagado, veio recebê-la em meio a tragos de fumo. O nó na garganta foi superado por saber que, a partir daquele momento, a cada dia de sua vida, ela saberia vencer medos, tendo certeza da própria aptidão de fazer um sonho se tornar verdade. Afinal era a primeira noite em que, por mérito próprio, dormiria com uma medalha no peito. Há alguns meses recebi um e-mail da menina, já mulher, contando-me que, enquanto mantinha um bom emprego, cursava Administração de Empresas em uma das maiores universidades do país. Não se esqueceu de contar-me que, enquanto trança novos passos de vitória na dança da vida, ainda traz consigo aquela medalha, não como um prêmio por uma coreografia bem executada, mas, como uma prova física da própria capacidade de sucesso.

Os resultados destas experiências solidificam-se ao longo do desenvolvimento até a vida adulta, contribuindo para a formação de um indivíduo altruísta, de identidade definida e bem inserido em seu meio social. Ainda, como um presente extra, a Dança de Salão tem poderes de despertar o domínio dos próprios sentidos, permitindo ao praticante usufruir das maiores belezas criadas pelo homem e escrevendo histórias muito mais belas e emocionantes que as de Daniel Defoe*. É uma provocação ao atrevimento de pensar no que esta força poderia fazer pela espécie, se aplicada em escala.

Fotos: Mad Hot Ballroom Dance e arquivo

*Daniel Defoe é o autor do livro As Aventuras de Robinson Crusoé

 

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Autora de livros, artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, textos de divulgação em diversas mídias, colunista de jornais e revistas de diferentes estados brasileiros, licenciada e mestre na área das Ciências Biológicas, palestrante e professora na área da Dança de Salão.

3 Comments

  1. Parabéns pelo excelente artigo e pela iniciativa de levar a dança para a escola dando as crianças uma nova perspectiva dentro da educação física.

  2. Ótimo artigo Maristela… eu acredito verdadeiramente na dança de salão escolar como sendo uma proposta de mudança na atual realidade das escolas, principalmente as públicas. Seria muito interessante ver as autoridades responsáveis dar apoio a essa nova modalidade escolar.
    Seu artigo, juntamente com sua experiência passada nele, pode abrir a mente das pessoas e servir de motivação para que tentem incorporar a dança de salão nas escolas.
    Parabéns pelo artigo

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